Porto 2001- Capital Europeia da Cultural - Odisseia nas Imagens I

Este texto resulta basicamente de um dos capítulos da minha tese de doutoramento Viagem pelo(s) Documentário(s). Reporta a acontecimentos com mais de uma década, o que desde logo obriga, numa visão actual, a um esforço de distanciamento. Há, como não podia deixar de ser, informações datadas e até desatualizadas. A leitura, tantas vezes solicitando a consulta de anexos e documentos tão numerosos que seria impossível tê-los aqui presentes, pode suscitar alguma dificuldade. Para mais, sendo a publicação feita em blocos, dada a extensão do trabalho, as notas remissivas acabaram sendo alteradas. No entanto, aquilo que me parece fundamental, é a reflexão levada a cabo quer para efeito da concretização da Odisseia nas Imagens quer para a avaliação sistemática que dela foi sendo feita. Nesse sentido, tratando-se, que eu saiba, da única tese de doutoramento que envolve o Porto 2001- Capital Europeia da Cultura, pareceu-me oportuno dar a conhecer os seus traços fundamentais e, desse modo, suscitar algumas questões que continuam a parecer-me pertinentes em termos da definição de políticas culturais - quero acreditar que ainda faz sentido falar em políticas culturais. Por isso, à medida em que for recolhendo os elementos essenciais, irei acrescentando textos a este texto. Se, porventura, aquilo que foram sendo as minhas propostas tivesse tido alguma aceitação, estou em crer que o Porto poderia ser hoje algo diferente em termos de Cinema, Audiovisual e Multimédia - desculpas pela imodéstia. Em todo o caso, é com gratidão que verifico que, ao fim e ao cabo, aqui e ali, sobretudo na área do ensino superior, há marcas da Odisseia na Imagens, mesmo que nenhuma referência lhe seja feita. Para os interessados, fica então este ponto de encontro, o qual não teria sido possível sem os magníficos colaboradores que tive a sorte de ter e com quem muito aprendi. Nota final: entre os 10 eventos tidos por mais relevantes da Programação Cultural do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, dois são do âmbito da Odisseia nas Imagens: O Olhar de Ulisses e Violência e Paixão - Uma Retrospectiva dos Filmes de Luchino Visconti.


ODISSEIA NAS IMAGENS

Uma das debilidades reconhecidas da cidade do Porto e da sua área metropolitana reside na sua relação com os universos do cinema, do audiovisual e do multimédia, áreas da visibilidade simbólica por excelência. Essa debilidade, cujas raízes tanto se encontram na excessiva centralização do estado com reflexo nas políticas culturais, quanto na incapacidade dos agentes culturais, ligados ou não ao poder autárquico, para darem corpo às suas aspirações e reivindicações, acaba por afectar o desenvolvimento da região no seu conjunto. Contudo, durante um determinado período do governo do Partido Socialista de António Guterres e da gestão municipal do também socialista Fernando Gomes houve vontade e abertura para contrariar esta situação. Foi neste contexto, que o Porto foi Capital Europeia da Cultura. O evento Odisseia nas Imagens a ele associado surgiu, assim, como uma possibilidade de propor medidas e tomar iniciativas em si mesmas portadoras de um projecto de futuro suficientemente flexível para que a partir dele os eventuais tomadores pudessem prosseguir políticas próprias no âmbito do cinema, audiovisual e multimédia – e do ensino associado a estas áreas – em condições mais favoráveis. Pela primeira vez, tendo em conta a capacidade de produção instalada e os saberes existentes foram avançadas hipóteses de políticas descentralizadas com reflexos a vários níveis, nomeadamente no serviço público de televisão, na criação de áreas de produção de excelência, entre as quais se apontava o documentário, e no ensino superior. Concomitantemente, foi pensada uma programação multifacetada que permitisse dar consistência no plano conceptual aos objectivos definidos. É disso que aqui se fala. Disso e da viagem pelo(s) documentário(s) que a Odisseia nas Imagens também foi. Toma-se como ponto de partida a matriz do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura para, num momento posterior, relatar e fazer a avaliação dessa experiência, fundamentalmente naquilo que ao(s) documentário(s) diz respeito. Em todo o caso, uma vez que por razões de coerência a Programação foi pensada de modo integrado, far-se-á referência ao conjunto dos seus articulados, pois só assim se compreenderá o seu alcance geral e a proposta de acção dela decorrente.

1.0 Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura: candidatura e enquadramento

A actriz Melina Mercuri, na altura ministra da Cultura da Grécia, fez em 1985 uma proposta de nomeação anual de uma Capital Europeia com o intuito de dar a conhecer as realizações da cidade nomeada abrindo espaço, dessa maneira, à divulgação do imenso mosaico, construído ao longo de séculos, que constitui o património cultural europeu comum. A proposta assentava no consenso alcançado em torno de um conjunto de argumentos a seguir resumidos.

Uma Europa sólida, capaz de enfrentar os desafios do futuro, requer o conhecimento recíproco da diversidade cultural dos povos e países que a integram. Esse conhecimento investe na aceitação da diferença obstando, desse modo, a que essa mesma diferença venha a revelar-se elemento de desagregação. Como tal, a uma cidade Capital da Cultura cabe, entre outros desígnios, expressar a sua identidade, mas fazê-lo de modo a cruzar os particularismos locais com as tendências e abordagens mais cosmopolitas e universais.

À data da apresentação da sua candidatura a Capital Europeia da Cultura o Porto reunia condições excepcionais para responder a esse desafio. Com uma população de 300 mil habitantes e pouco mais de 44 km2 construiu a sua identidade, à semelhança de outras cidades da Europa de dimensão média, ao longo de uma História recheada de episódios que amiúde lhe conferiram um estatuto de privilégio.

Contudo, esse percurso nem sempre foi linear. Pelo contrário, segundo se afirma no texto da candidatura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, “após quase dois séculos de protagonismo e modernidade, o século XX foi para o Porto, sobretudo com o centralismo despótico do regime de Salazar, uma travessia do deserto [1]”. E acrescenta-se: “Só após a revolução de 25 de Abril de 1974, que restabeleceu o regime democrático e reanimou o poder local, foi possível ao Porto sair do marasmo de quase 100 anos e preparar-se para enfrentar o século XXI [2]”.

Diversos factores, com relevância para o trabalho desenvolvido pelo poder local na última década do século passado, contribuíram para que isso viesse a acontecer. No âmbito das realizações do poder local, eventualmente associado ao governo central, contam-se a reabilitação urbana e a dinamização cultural.

Em Dezembro de 1996 a Assembleia Geral da Unesco atribuiu ao Centro Histórico do Porto – uma área de 1,3 km2 correspondente na sua quase totalidade à cidade medieval entre muralhas – a classificação de Património Cultural da Humanidade:

“Aí encontram-se vestígios dos romanos e dos povos do norte; salienta-se o barroco introduzido pelo italiano Nasoni, a expansão urbana iluminista, o neoclássico de influência inglesa, o engenho e a arte de Eiffel, o urbanismo de Barry Parker, a que se seguiram intervenções da Architecture des Beuax-Arts, alguma Art Deco e os primeiros edifícios modernistas [3]”.

Com isto, os portuenses fizeram uma cidade única, “que só podia ser construída naquele lugar exacto, com aquela topografia e aquele rio, com o granito e o ferro, com a arte minuciosa dos seus artesãos, como uma forma própria de viver e conviver [4]”. Neste contexto, a candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura valorizou os aspectos patrimoniais sublinhando o esforço de reabilitação urbana articulado com investimentos avultados na recuperação e construção de equipamentos culturais, designadamente, museus, salas de espectáculos, arquivos e bibliotecas.

Essa estratégia, ao desencadear novas dinâmicas em termos de um apoio crescente à criação artística e às indústrias culturais com impacto na criação de novos públicos, muitos dos quais provenientes de uma população de 60 mil estudantes do ensino superior, tornara possível estabelecer um calendário anual de acontecimentos relevantes e participados [5].

A candidatura apresentava, ainda, como razão de merecimento de descriminação positiva, a situação duplamente periférica da cidade, no plano nacional e no contexto internacional, bem como a notoriedade e importância de um conjunto significativo de criadores e de agentes culturais [6]. Identificava, seguidamente, os seus princípios orientadores, basicamente subordinados a dois eixos: cruzar localismo e internacionalização e capitalizar o evento a favor da cidade e da sua população [7].

Estabelecida uma proposta de modelo organizativo para a Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura e após considerações sobre a previsão orçamental, o documento de candidatura entrava na matéria específica da programação cultural, a qual, em função das características e desígnios da cidade, haveria de articular-se em torno de um conceito cuja ressonância metafórica suscitasse uma identificação imediata no âmbito da tradição, conferindo-lhe, no entanto, um sentido prospectivo. Daí o tema das pontes e a consigna Pontes para o Futuro.

Com efeito, o Porto é a cidade das pontes sobre o rio Douro. Todas elas correspondem a momentos determinantes da sua história. A ponte de Gustave Eiffel (1887) é um dos raros exemplares da arquitectura do ferro associado à revolução industrial tardia que o Porto conheceu e marca tanto o imaginário da cidade quanto a sua representação simbólica. O mesmo sucede com a ponte Luís I (1886), inseparável da memória de uma época de prosperidade mercantil. A ponte da Arrábida (1963) coincide com outro momento de expansão da área metropolitana e com a afirmação vencedora da lógica do automóvel. Da autoria de Edgar Cardoso, o seu arco de betão armado foi, à época, o maior do mundo. Trinta anos mais tarde, o mesmo Edgar Cardoso construiu uma nova ponte, desta vez ajustada às necessidades dos comboios de alta velocidade.

Em suma, “a metáfora das pontes, e dos rios que sob eles correm, possui uma coerência e uma riqueza que a criatividade cultural pode explorar, quase explorar infinitamente [8]”. As pontes do Porto, portanto, “são expressão da particularidade do sítio e das vicissitudes históricas da cidade que aqui se instalou e, ao mesmo tempo, impregnam uma mensagem universalista e inovadora que lhes conferem as suas características e os seus criadores; um, Gustave Eiffel, europeu e universal; outro, Edgar Cardoso, portuense e, porque não arriscar, também europeu e também universal [9]”.

A prazo, as Pontes para o Futuro, entendidas como eixos de intervenção estratégicos, criariam condições para projectar o Porto como cidade europeia periférica de dimensão média capaz de dinamizar uma área metropolitana de 1.200.000 habitantes em função da sua competência criativa, científica e tecnológica. Neste contexto, inscreviam-se, naturalmente, propósitos de qualificação do desenvolvimento sócio-económico, de relançamento de negócios e do turismo cultural e da criação ou reforço de áreas de emprego qualificado ligadas às indústrias da cultura e do lazer.

Esperava-se, em suma, reforçar a visibilidade da cidade do Porto no espaço europeu e, como tal, contribuir para a construção da Europa Social e Cultural.




[1] . Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, sem páginas numeradas.
[2] . ibid.

[3] . ibid.
[4] . ibid.
[5] . Desse calendário constavam, nomeadamente, o Festival de Cinema do Porto (Fantasporto), o Festival de Música Celta, o Festival de Teatro para a Infância e Juventude, o Festival Internacional de Marionetas do Porto, o Festival de Teatro de Expressão Ibérica, o Festival Ritmos/ Festa do Mundo, o Concurso Internacional de Música (piano), o Festival de Jazz do Porto, o Portugal Fashion, o Salão Internacional de Banda Desenhada e as Jornadas de Arte Contemporânea. - Nota do Autor.
[6] . Entre outros eram citados os nomes de Agustina Bessa Luís, Manoel de Oliveira, Siza Vieira, Eugénio de Andrade, Sofia de Mello Breyner, Abi Feijó, Fernando Lanhas, Júlio Resende, Ângelo de Sousa, Pedro Burmester, Álvaro Salazar e António Pinho Vargas. - Nota do Autor.
[7] . Transcreve-se a seguir a parte do texto de candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura onde esta matéria é abordada:
 “A - Cruzar localismo e internacionalização organizando um leque coerente de manifestações culturais que
dêem prioridade às áreas de produção e apetência de maior enraizamento na cidade;
apresentem produções nacionais e internacionais inéditas;
actualizem a memória patrimonial e histórica do Porto, procurando contacto com a realidade contemporânea e as indústrias culturais emergentes;
fomentem o partenariado com instituições locais – já inseridas no processo – e o envolvimento da população da cidade;
utilizem, além dos equipamentos funcionalmente vocacionados, espaços não codificados ou cuja função original se perdeu;
assumam a dimensão festiva da efeméride, diluindo as fronteiras entre ‘actor’ e ‘espectador’;
evitem a tentação do espectacular demasiado efémero, sem descurar a repercussão que algumas deverão nitidamente assumir, quer pelo impacto mediático, quer pelo alargamento de horizontes que proporcionam;
harmonizem actividades  capazes de atrair o grande público e experiências de pesquisa, vanguarda e inovação;
impliquem o público escolar, através de iniciativas que lhe sejam especialmente dirigidas;
assumam a vocação do Porto como centro de uma metrópole regional, estendendo actividades às cidades vizinhas e recebendo as suas contribuições;
concretizem o tradicional espírito de ligações internacionais do Porto, convidando para programas específicos a desenvolver em 2001 as quatro cidades geminadas com o Porto: Vigo, Bristol, Bordéus e Jena, e as cidades geminadas do nordeste brasileiro e da África lusófona;
B - Capitalizar o evento a favor da cidade, da sua população e da sua cultura”. - in Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas.
[8] .  Texto de apresentação da Candidatura do Porto a Capital Europeia da Cultura apresentado no Luxemburgo a 7 de Novembro de 1997, sem páginas numeradas.
[9] . ibid.





2.0 Pontes para o Futuro

O desafio era difícil, entre outros motivos, porque havia pouco tempo para pôr a Capital da Cultura no terreno sendo certo, igualmente, que o lado mais conservador da cidade, ligado a fortes tradições que tinham de ser respeitadas e até valorizadas, podia vir a constituir-se como reserva de incompreensão face a uma programação cultural mais ousada e inovadora. Mas era, igualmente, aliciante porque se tratava de reforçar e introduzir práticas culturais cujas consequências se pretendia fossem para além de 2001, renovando o imaginário e contribuindo para a capacidade de afirmação da cidade junto de outras cidades europeias [1].

Acresce que o evento era encarado como uma ocasião única para levar a cabo um ambicioso projecto de reabilitação urbana. No relatório da Comissão Instaladora respeitante ao ano de 1998, afirmava-se:

“A vida e o consumo culturais, como factores efectivos de desenvolvimento não devem confundir-se com o uso pretextual das actividades genéricas de cultura para a legitimação póstuma do esvaziamento vivencial dentro da cidade. Em oposição à cidade marcada pelas grandes superfícies, caberá ao Porto 2001 propôr uma acção cultural que magnifique as vantagens de um conceito de cidade herdada e aprofunde o sentido de identidade sem historicismo nem contemplação. A consciência urbana passa, tanto pela genericamente chamada animação cultural, como pelo estímulo à criação em residência e em diálogo com os lugares da cidade. Daí a necessidade de um esforço comum entre a intervenção urbana que a capital estimulará e a Acção Artística [2]”.

Mais:

“2001 não deverá ser a activação de festividades que alimentem no Porto a ilusão de ser uma Capital Europeia de primeira linha, mas uma escolha estratégica de sobressaltos que nos coloquem perante a evidência lúdica das nossas ignorâncias, que estruturem novos desafios e novas rotinas, proporcionando-nos a sua fruição e a confrontação com eles próprios [3]”.

E ainda:

“2001 deverá activar o cruzamento de equipas e experiências internacionais em projectos que só no Porto possam acontecer. Substituir-se-á, assim, à inscrição conjuntural da cidade no obsessivo mercado internacional, a ideia de um lugar de projectos, de encontros e desencontros que ajudem a firmar os nossos valores como referência e desafio aos criadores, produtores e programadores estrangeiros, cuja rota passará a cruzar-se obrigatória e estruturalmente com a nossa [4]”.

Nesta perspectiva, entendia-se que o Porto 2001 deveria privilegiar a construção de uma rede de relações inovadora tomando como ponto de partida os binómios cidadão/espectador, cidade/palco e criador/obra de arte, a qual permitiria reformular métodos de produção, realização e comunicação ligados à criação artística. Esta teria, portanto, a cidade como pano de fundo, no sentido em que a revitalização urbana de áreas estrategicamente identificadas era encarada como um modo de combater a exclusão de sectores da população tradicionalmente marginalizados no circuito da produção, realização e dos consumos culturais.

Da análise do conjunto de recomendações da Comissão Instaladora da Sociedade Porto 2001 visando conferir coerência metodológica à Programação ressalta o intuito reiterado de consolidar eventos já existentes, por um lado, e, por outro, a preocupação de criar novas iniciativas numa perspectiva de continuidade para além do horizonte temporal da Capital Europeia da Cultura [5].  

A construção dessas Pontes para o Futuro pressupunha, assim, a disponibilidade de uma cidade em movimento, sendo que a programação cultural teria necessariamente de integrar um conjunto complementar e diversificado de acções de formação a partir do qual pudessem surgir profissionais qualificados nas áreas da gestão cultural, da produção, da utilização de meios técnicos e da mediação especializada em comunicação, marketing e animação cultural. A necessidade deste tipo de formação impunha-se como uma evidência. Da iniciativa conjugada da autarquia e do governo central tinha anteriormente resultado um número apreciável de grandes e pequenos espaços culturais, todavia sem a necessária dotação de pessoal especializado, o que conduzira, pontualmente, não só a um sub-aproveitamento desses mesmos espaços, mas também a uma falta de profissionalismo comprometedora da boa execução dos projectos. A formação permitiria superar as deficiências abrindo perspectivas de trabalho qualificado a estudantes das escolas profissionais já existentes.  Admitia-se mesmo que “a criação de uma ‘bolsa’ de profissionais nas áreas atrás definidas pode vir a projectar-se para lá do objectivo inicial, gerando projectos privados nas áreas de carácter empresarial ligadas à cultura e ao lazer [6]”.

No seu Relatório a Comissão Instaladora abordava ainda aspectos respeitantes ao Envolvimento da População, à Comunicação e Marketing, a estudos sobre os públicos potenciais e a métodos de avaliação de resultados.

Em relação ao Envolvimento da População tratava-se basicamente de conceber um modo de atrair à programação as pessoas habitualmente arredadas dos espectáculos, exposições e outras actividades culturais, se necessário indo ao seu encontro na rua ou nos bairros. Para tanto, propunham-se essencialmente dois tipos de accções: “as que valorizem a participação das populações dos bairros na melhoria e animação dos seus espaços comuns, recriando tradições significativas da cultura popular com meios técnicos e financeiros acrescidos; as que, pela informação e sedução/provocação que transportem, possam induzir nos cidadãos a vontade de participarem em outros eventos incluídos na programação geral do Porto 2001, mesmo quando realizados noutras zonas na cidade e em equipamentos culturais a que habitualmente não acedem [7]”. Para levar a cabo estes propósitos recomendava-se o envolvimento de instituições públicas e privadas, como as escolas, clubes e associações, às quais deveria ser proporcionado acompanhamento técnico qualificado de modo a incentivar as iniciativas individuais ou de grupo.

Contava-se, também, com a acção de um gabinete de Comunicação e Marketing, ao qual, a par de promover o envolvimento da população, foi cometida a tarefa de planear a estratégia adequada a promover e dar visibilidade à Capital Europeia da Cultura quer no plano nacional, quer no plano internacional.

Reconhecia-se, finalmente, a necessidade do trabalho dos decisores, gestores e programadores assentar em dados concretos para efeito da definição de estratégias de comunicação e de captação de públicos. Nesse sentido, a Comissão Instaladora da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura decidiu encomendar estudos nesses domínios e propôs a criação de uma Comissão de Acompanhamento – entendida como um pólo de reflexão independente e distanciado –, à qual ficaria cometida a incumbência da elaboração de relatórios críticos e de pareceres fundamentados sobre matérias em relação às quais fosse chamada a pronunciar-se.

Do ponto de vista da Programação Cultural foram identificadas duas áreas de importância estratégica: a Música e o Audiovisual e Multimédia [8]. A aposta no Audiovisual e Multimédia, de acordo com o Relatório da Comissão Instaladora justificava-se fundamentalmente em função dos seguintes pressupostos:

“O inevitável percurso para a Sociedade da Informação torna cada vez mais importante a produção de ‘conteúdos’ em Portugal para salvaguardar a permanência da cultura portuguesa no Mundo (...) num momento em que o satélite, o cabo e a difusão terrestre digital aceleram os processos de globalização dos media e o seu impacto entre nós; a produção de conteúdos audiovisuais e multimédia para ser feita com a qualidade que garanta a sua eficácia e difusão internacional é um vasto campo de trabalho para criadores de todas as áreas das artes e das letras, para investigadores e técnicos qualificados, podendo fixar na cidade e área metropolitana a ‘massa crítica’ que tende a fugir-lhe e gerar a criação de organizações empresariais baseadas nesse trabalho eminentemente cultural [9]”.

Estes pressupostos, associados à ideia que aqui se retoma segundo a qual a programação deveria decorrer de uma “escolha estratégica de sobressaltos que nos coloquem perante a evidência lúdica das nossas ignorâncias, que estruturem novos desafios e novas rotinas [10]”, constituíram o ponto de partida para a explicitação da lógica da Programação da área Audiovisual e Multimédia, a qual fez do Documentário a opção prioritária.

Uma vez feita essa opção, por razões de coerência teórica e metodológica, considerou-se essencial valorizar o papel do Cinema, pelo que se entendeu alterar a designação da área para Cinema, Audiovisual e Multimédia, a qual viria posteriormente a ser conhecida por Odisseia nas Imagens.  




[1]. A Programação Cultural da Sociedade Porto 2001, sob a coordenação de Manuela Melo, numa primeira fase, ficou a cargo de Álvaro Domingues (Relações Institucionais), Paulo Cunha e Silva (Ciência e Literatura; Relações com Roterdão), Pedro Burmester (Música), Miguel Von Haffe Pérez (Artes Plásticas), Jorge Campos (Cinema, Audiovisual e Multimédia), Isabel Alves Costa (Artes de Palco), João Teixeira Lopes (Envolvimento da População) e Júlio Moreira (Animação da Cidade). Posteriormente, as equipas iniciais foram reforçados com novos elementos. - Nota do Autor.
[2] . Relatório da Comissão Instaladora da Sociedade PORTO 2001 S.A. de Setembro de 1998, sem páginas numeradas.
[3] . ibid.
[4] . ibid.
[5] . É a seguinte a lista de recomendações avançadas no Relatório da Comissão Instaladora da PORTO 2001 S. A.:
“- sedimentação de eventos e/ou áreas de criação já existentes (ou com potencialidades) na cidade, e criação de novos eventos cíclicos em áreas estratégicas, que nasçam com uma qualidade a manter depois de 2001”;
 - fomento da criatividade dos artistas portugueses, através de encomendas, apresentação e divulgação do seu trabalho (inclusive em outras áreas geográficas, com destaque para Roterdão) e, sempre que possível, desenvolvendo no Porto projectos conjuntos com artistas de outros países;
 - apresentação de produções inéditas, seja porque trazem à cidade pela primeira vez obras essenciais da cultura europeia e mundial, seja pelo carácter artístico inovador que transportam;
 - valorização da cidade como espaço informal de contacto entre criadores e cidadãos, despertando o interesse global pela articulação activa nos projectos incluídos no Porto 2001;
 - integração das programações específicas das diversas áreas, para que o programa global do Porto 2001 se desenvolva ao longo do ano harmonicamente, seja no que respeita à distribuição dos pontos altos, seja na sua ligação a projectos de menor dimensão que os possam amplificar (no campo dos criadores e dos públicos), seja ainda para, em cada momento, haver uma oferta diversificada, adequada às condições dos equipamentos culturais e dos espaços públicos que os ligam;
 - articulação da Programação Porto 2001 com projectos de instituições culturais da Área Metropolitana do Porto, desde que se enquadrem no conceito global definido e se encontrem formas de co-financiamento fora do orçamento da Capital Europeia da Cultura;
 - privilegiar eventos e actividades que potenciem a requalificação urbana também integrada no Porto 2001, com destaque para a revitalização da ‘baixa’, a criação de ‘circuitos culturais’ ancorados nos equipamentos e no património existente, o centro histórico, as frentes ribeirinha e marítima e espaços informais (fábricas, armazéns, jardins, pátios de bairros, etc.);
 - estabelecer pontes entre a criação artística e o universo empresarial, para que a criatividade de designers, arquitectos, estilistas e artistas plásticos possa conferir a indústrias (tradicionais ou emergentes) uma marca própria de qualidade e contemporaneidade de que cada vez mais necessitam;
 - não esquecer o carácter festivo e lúdico que toda a cidade deve apresentar ao longo do ano, para o que é necessário cuidado especial com a defesa (pelos cidadãos e pelas entidades responsáveis) do ambiente, nomeadamente com a limpeza de ruas e a renovação do imobiliário urbano, da qualidade do alojamento, restauração e locais nocturnos de diversão, da sinalização cuidada e cenográfica de obras, eventos e actividades diversas incluídas no Projecto Porto 2001”. - in Relatório da Comissão Instaladora da PORTO 2001 SA de Setembro de 1998, sem páginas numeradas.
[6] . Relatório da Comissão Instaladora da PORTO 2001 SA de Setembro de 1998, sem páginas numeradas.
[7] . ibid.

[8] . O Relatório da Comissão Instaladora segue de perto, nesta matéria, o conteúdo das Linhas Gerais da Programação da Área Audiovisual e Multimédia in Anexo III pp. 15-23. - Nota do autor.
[9] . Relatório da Comissão Instaladora da PORTO 2001 SA de Setembro de 1998, sem páginas numeradas.
[10] . ibid.


3.0. Ponto de partida da Odisseia nas Imagens

Na declaração de abertura contida no Relatório de Avaliação Final elaborado pelo responsável da Odisseia nas Imagens, afirma-se:

“O ponto de partida para a Programação de Cinema Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001 foi, no âmbito do quadro conceptual definido para o evento Capital Europeia da Cultura, a prestação de um serviço público a partir do qual pudesse equacionar-se a projecção da visibilidade da cidade e da região em função de uma área estratégica, ou negligenciada pelos vários poderes ou encarada numa perspectiva meramente instrumental e à margem do que são hoje os requisitos a partir dos quais se pensam as políticas do audiovisual. Pretendeu-se, pois, lançar as bases de um debate no sentido de indagar qual o papel do Porto no panorama do audiovisual português promovendo, simultaneamente, as bases de uma política descentralizada nesse domínio, bem como as possibilidades de integração de uma produção local na esfera do mercado global. Nessa medida, toda a Programação foi construída em torno de um evento de grande potencial de inovação, pluridisciplinar, de carácter estruturante e de longa duração denominado Odisseia nas Imagens [1]”. 

Porém, até chegar ao conceito da Odisseia nas Imagens foi necessário percorrer um longo caminho de identificação prévia do sector e dos seus protagonistas, em particular da RTP, bem como recuperar a tradição do Porto na História do Cinema Português, aliás, nascido na cidade pela mão de Aurélio da Paz dos Reis. Importava, por isso, reconhecer um conjunto de episódios suficientemente relevantes para serem invocados como factores de legitimação das propostas que viessem a ser apresentadas [2]. Nesse sentido, deviam ser tidos em conta o passado remoto e recente, o presente, os principais criadores, as universidades, os festivais de cinema da área metropolitana do Porto e o serviço público de televisão, neste caso por forma a escrutinar e desafiar o seu papel regulador no quadro de uma paisagem audiovisual prospectivamente descentralizada. 

Foto de Aurélio Paz dos Reis


3.1 O Porto na História do Cinema Português

A História do Cinema Português passa pelo Porto, mas, salvo um ou outro episódio, a cidade foi sempre periférica em relação à produção global do País. A par do pioneirismo de Paz dos Reis e das experiências da Invicta Film e da Caldevilla Film, já destacados em capítulos anteriores, cumpre chamar a atenção para o papel desempenhado por algumas revistas que surgiram no período áureo correspondente ao ciclo do Porto, para a tradição cineclubista que ganhou peso a partir do final dos anos 50 e que viria a estar ligada à luta política de resistência à ditadura e para algumas figuras cujo expoente é Manoel de Oliveira. Numa fase posterior à Revolução de Abril vieram os festivais de cinema.

Durante algum tempo as revistas especializadas tiveram expressão relevante. O Porto Cinematográfico, fundado em 1919 por Alberto Armando só viria a extinguir-se em 1925. Em 1923, acompanhando de perto a actividade da Invicta Film, Roberto Lino fundou a Invicta Cine, a qual foi publicada regularmente até 1936. Qualquer das revistas investiu no apoio ao cinema português, sem perder de vista aquilo que ia pelo mundo e dedicando parte do seu espaço à crítica. A Invicta Cine envolveu-se na polémica que envolveu o advento do som assumindo um papel pioneiro em sua defesa. Foi devido ao entusiasmo de alguns dos seus responsáveis “que se criou, no Porto, a primeira associação cinematográfica, pioneira do futuro movimento cineclubista [3]”. Essa Associação dos Amigos do Cinema, fundada em 1924, apesar de relativamente limitada na acção que desenvolveu, propunha-se “defender o cinema nacional, moralizar o cinema por meio da palavra escrita ou falada, fomentar o entusiasmo pela Arte do Silêncio e produzir películas logo que a situação financeira o permitisse [4]”.

O movimento cineclubista teve o seu momento mais alto nos anos 60. Desde o final da Invicta Film até essa altura a produção deixara praticamente de existir, salvo algumas raras excepções. As mais notáveis são dois filmes de Oliveira Aniki-Bóbó (1941) – uma obra forte a ponto de ainda hoje ser parte do imaginário do Porto – e O Pintor e a Cidade (1956), uma curta-metragem de cunho documental que tem como ponto de partida as aguarelas de um artista muito conhecido, António Cruz, porventura o maior aguarelista português. Em qualquer dos filmes, muito diferentes entre si, o Porto tem uma presença filtrada através do olhar do cineasta que descobre nele características peculiares como, aliás, acontecera já com Douro, Faina Fluvial. Episodicamente, um ou outro realizador rodou cenas de filmes no Porto, mas sem que isso correspondesse a algum interesse particular de descoberta. Manuel Guimarães, porém, com a Costureirinha da Sé (1958), inteiramente rodado na cidade, embora seguindo a fórmula então em voga das operetas que serviam para fazer aparecer na tela os cançonetistas mais populares, conseguiu fazer passar um retrato sociológico da população da sua zona histórica. Já O Passarinho da Ribeira (1959) de Augusto Fraga nada trouxe de relevante.

Nos anos 60 o Cineclube do Porto, através da sua Secção de Cinema Experimental, começou também a produzir alguns filmes. Lopes Fernandes filmou o Auto de Floripes (1960), um ritual popular da aldeia das Neves, em Viana do Castelo, mas, de um modo geral, essa produção não deu lugar a outras obras relevantes embora se discuta o seu valor enquanto documento. Em contrapartida, Manoel de Oliveira fez a partir do Porto mais três curtas-metragens que são outras tantas obras-primas do cinema português: O Acto da Primavera (1962), eventualmente inspirado no filme de Lopes Fernandes, que foi seu assistente neste filme, A Caça (1963) e as As Pinturas do Meu Irmão Júlio (1965). Nesta altura, o Cineclube do Porto era já o mais importante do País, sendo Henrique Alves Costa a sua figura mais destacada. Foi ele o artífice, em 1967, da Semana do Novo Cinema Português, evento que contou com a presença da maioria dos jovens realizadores e cujas conclusões viriam a ter uma importância determinante no futuro da cinematografia nacional.

Com o passar dos anos, após a Revolução de Abril de 1974, a actividade do Cineclube do Porto, minada por disputas partidárias e incapaz de se adaptar a um cinema que ia colocando novos desafios, foi esmorecendo. Houve ainda uma cisão que deu origem ao Cineclube do Norte, mas ao tempo da Capital Europeia da Cultura, ambas as instituições tinham uma presença meramente residual no contexto da vida cultural portuense.   

Se durante o período do cinema mudo a produção fora relevante a verdade é que “em 70 anos de cinema sonoro, apenas 14 longas-metragens (o que dá um filme por cada 5 anos!) escolheram a cidade como tema e cenário da intriga. Dessas, 3 são da autoria de Saguenail, um realizador de origem francesa que vive e fez a sua obra no Porto, e que é, por sinal, um dos mais interessantes, originais e desconhecidos autores que alimentaram o imaginário cinematográfico português [5]”.

Feitas as contas, pensando em filmes indissociáveis do imaginário da cidade, sobram meia dúzia de títulos e de entre todos destacam-se três filmes de Oliveira Douro, Faina Fluvial, Aniki-Bóbó e O Pintor e a Cidade. Qualquer deles faz parte do património monumental do Porto, mas o primeiro é algo de inseparável da sua memória e do seu imaginário [6]. Depois da pateada na estreia em 1931, apesar dos elogios da crítica estrangeira e de alguns dos mais destacados intelectuais portugueses, como José Régio [7] e Adolfo Casais Monteiro, Douro, Faina Fluvial só viria a ser reposto em sala em 1934, no Teatro de São João do Porto, como complemento do filme Gado Bravo, de António Lopes Ribeiro, onde foi, então, espontânea e prolongadamente aplaudido.  

Mais tarde, Oliveira esteve de passagem pelo Porto, nomeadamente em Inquietude (1988), Paulo Rocha filmou O Rio do Ouro (1998) e António Pedro Vasconcelos em Jaime (1999) voltou a colocar a cidade no centro das atenções. Um ou outro cineasta estrangeiro também passou pelo Porto, mas nenhum deles realmente interessado na sua identidade. John Malkovitch, por exemplo, encontrou nele ambientes urbanos semelhantes aos da América do Sul e em The Dancer Upstairs (2000) algumas ruas da cidade passaram a fazer parte do Peru e do Equador.  

A Revolução de Abril tinha, entretanto, aberto as portas a outras iniciativas, entre as quais há a destacar o aparecimento dos festivais de cinema, os quais, sobretudo no caso do cinema de animação, viriam a ter impacto numa produção local cujo desenvolvimento foi acompanhado da obtenção dezenas de prémios conquistados nos principais festivais de todo o mundo.


[1] . Relatório de Avaliação Final do Departamento de Cinema Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas.
[2] . A este propósito ver o Capítulo II – pp.117-125. - Nota do Autor
[3] . Costa, Alves – Breve história do cinema português – 1896-1962, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura Portuguesa, Ministério da Educação e da Investigação Científica, Lisboa, 1978.
[4] . ibid.
[5] . Vasconcelos, António Pedro in Andrade, Sérgio C. – O Porto na História do Cinema, Porto Editora/Porto 2001, 2002, p. 7.
[6] .  Vale a pena retomar em pormenor o que foi a estreia do filme no Salão Foz, em Lisboa, no decorrer do Congresso Internacional da Crítica: “Esta ante-estreia foi um escândalo. Perante a surpresa dos congressistas estrangeiros, os espectadores portugueses, na sua maioria, vaiaram ruidosamente o filme. O tema, o ritmo, a montagem rápida de algumas sequências, irritaram o público (em grande parte selecto e burro). A projecção foi sublinhada com constantes assobios e terminou com uma estrondosa pateada. Ao intervalo e, ainda, já terminado o espectáculo, muitos espectadores e alguns dos críticos (!?) portugueses ferviam de indignação: ‘um sem jeito aquelas imagens vertiginosas! uma vergonha mostrar a estrangeiros aquelas mulheres enfarruscadas, com carretos de carvão à cabeça, de pé desclaço... aquelas nojentas vielas do Porto... aqueles prédios leprosos do Barrêdo’ (Parece que ninguém se indignou por existirem aquelas desumanas condições de trabalho dos carregadores do porto... parece que ninguém se indignou por se viver ainda em péssimas condições de habitação e salubridade no velho, degradado e populoso bairro do Barrêdo...)” - in Costa, Alves, op. citada, p.
[7] . De Douro, Faina Fluvial disse Régio: “A moderna poesia do ferro e do aço, o encanto da natureza através dos seus vários aspectos e ‘nuances’, a tonalidade das horas, a alegria e a miséria do homem sócio do animal na luta pelo pão de cada dia – tudo, ao longo de um dia de actividade na margem do Douro, nos é dado com verdadeira grandeza. Precioso como documentário o ‘Douro’ excede assim, e em muito o valor dum mero documentário”. – Andrade, Sérgio C. – O Porto na História do Cinema, Porto Editora/ Porto 2001, 2002, p. 46.


3.1.1 Os Festivais de Cinema enquanto elementos de regulação

Em Espinho, situado na área metropolitana do Porto, reside um dos melhores festivais europeus de cinema de animação, o Cinanima o qual não só permite uma informação actualizada de tudo quanto de melhor se faz, mas também serve de âncora e estímulo à produção nacional:

“... quando há vinte e cinco anos se lançou o Festival, muito mais do que o exercício lúdico que também foi essa iniciativa havia nos promotores uma enraizada ideia de contemporaneidade atenta a formas de dizer até então se não proscritas pelo menos silenciadas ou limitadas a uma circulação restrita e marginal. A Banda Desenhada ou o Cinema de Animação, por exemplo, ocupavam um território relativamente desqualificado ou, na melhor das hipóteses, confinado a um público infanto-juvenil considerado o destinatário natural de bens simbólicos supostamente mais acessíveis do ponto de vista da significação e elaboração artísticas. Mesmo à esquerda, entendida enquanto espaço de progresso e liberdade por oposição ao conservadorismo da direita, durante muito tempo prevaleceram concepções autorais radicadas em modelos do século XIX, cujas consequências resultaram em conclusões apressadas e, como tal, inadequadas ao ritmo e à compreensão das dinâmicas criativas emergentes. Basta recordar a frequência com que a BD ou a Animação foram sumariamente remetidas para a chamada cultura de massas e, por essa via, imediatamente desqualificadas  [1]“.

Foi, portanto, necessário o sobressalto democrático de Abril, que foi também um agitador no plano da criação artística, para que a situação evoluísse numa outra direcção. Pioneiros como Vasco Granja e António Gaio, entre outros, entregaram-se à tarefa de fazer crescer uma arte que há muito os seduzia e que, nessa altura, muito por mérito deles próprios, se encontrava numa fase explosiva de divulgação, afirmação e legitimação. Desse impulso resultaram os primeiros workshops de cinema de animação, nos quais participaram os maiores especialistas do mundo e os quais contribuíram para formar a primeira geração de animadores cujo reconhecimento internacional não tardaria, casos de Abi Feijó, Pedro Serrazina e Jorge Neves e, um pouco mais tarde, Regina Pessoa. O Cinanima foi, portanto, o grande responsável pelo salto em frente dado pelo cinema português de animação, atestado, como se disse, pela atribuição de numerosas distinções um pouco por todo o mundo.

As curtas metragens de ficção, por seu turno, constituindo uma parte significativa dos conteúdos simbólicos produzidos pelo audiovisual europeu, têm no jovem cinema português um número significativo de representantes. Atraindo um número sempre crescente de cineastas e desenvolvendo um discurso próprio dão a conhecer os novos criadores que, em Portugal, têm no Festival Internacional de Vila do Conde [2] um fórum especializado. À semelhança do Cinanima também neste caso o festival desempenhava um papel de regulação quer no plano simbólico quer no impulso à produção, na medida em que através da sua Agência da Curta Metragem lhe cabia a responsabilidade da distribuição da produção portuguesa no estrangeiro.

O Fantasporto – Festival de Cinema do Porto – provavelmente o mais popular do País, sendo embora de certo modo atípico na medida em que não tem impacto estruturante comparável ao dos outros festivais mencionados, tem prestígio internacional e é uma bandeira da cidade. Na ressaca da Revolução de Abril, o público começou a deixar as salas, as actividades cineclubistas entraram em declínio e a televisão introduziu uma mudança de hábitos disponibilizando conteúdos de massas até então inéditos, como as telenovelas brasileiras. O Fantasporto contribuiu, de algum modo, para contrariar essa tendência. Logo na sua primeira edição, em 1981 [3], apresentou uma notável retrospectiva de clássicos aparentados com o que então timidamente se designava por cinema fantástico [4].

“Apesar do fantástico aparecer claramente associado à imaginação e ao maravilhoso, numa linha que remonta a Méliès, e num contexto que nenhum cinéfilo desprezaria, a verdade é que o Fantasporto logo apareceu associado nas páginas dos jornais à ideia de sangue, vampirismo, terror e outras enormidades. Na verdade, o que havia era uma programação a pensar na captação de públicos, ora articulando a exibição de filmes recentes aguardados com expectativa com obras de referência da História do Cinema, ora dando a conhecer cinematografias menos conhecidas ou propondo uma releitura de filmes relativamente marginais, sem deixar de convocar os cineastas portugueses  [5]”.

Portanto, numa altura em que se acentuavam sinais de depressão, o Fantasporto veio marcar nova viragem na História do Cinema do Porto e da sua área metropolitana ao ousar novos caminhos que permitiram a captação de muitos jovens, cúmplices da aventura empreendida. O Fantasporto juntava-se, assim, ao percurso iniciado alguns anos antes pelo Cinanima – a partir do qual, como se disse, viriam a lançar-se as bases da mais importante produção cinematográfica do norte do País, o cinema de animação, em torno de produtoras como a Filmógrafo e a Alfândega Filmes – e, posteriormente, prosseguido pelo Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde.

A partir das considerações em torno da presença do Porto na História do Cinema Porttuguês, da sua memória e do seu presente, surgiu uma primeira sistematização de questões a ter em conta para efeito da definição das linhas gerais da Programação. Essas questões foram as seguintes:

- Qual o grau de identificação da realidade existente com a memória e tradição da cidade em matéria de produção cinematográfica?
- Qual o papel dos cineclubes e o seu grau de adequação às exigências da modernidade no cinema e ao fomento da produção nacional?
- Qual a importância relativa dos festivais existentes na área metropolitana do Porto no quadro das tendências, consensos e políticas europeias para o cinema e audiovisual que apontam para o incremento de uma produção diferenciada e competitiva em relação à grande produção americana?  


[1] . Anexo I, p. 180.
[2] . Ver Anexo I – 2.0, 30.0.
[3] . Anexo I – pp. 40-44.
[4] . “Alguns títulos: “O Vento”, de Sjostrom; “O Testamento de Orfeu” e “A Bela e o Monstro”, de Cocteau; “A Atlãntida”, de Jacques Feyder; “O Gabinete do dr. Caligari”, de Robert Wiene; “Metropolis”, “A Mulher na Lua” e “Dr. Mabuse”de Fritz Lang;  “Nosferatu”, de Murnau; “O Feiticeiro de Oz”, de Victor Flemming.  Da selecção faziam ainda parte cineastas como Hitchcock, Vadim, Malle, Fellini, Tarkovsky, Bergman e Polanski, aos quais se juntavam Werner Herzog, De Palma, Peter Weir, Kaufman e Nicholas Roeg. bem como alguns dos filmes de culto da Hammer Films, entre os quais “Dracula”. – Nota do Autor.
[5] . Anexo I – p. 42.



3.2 O Audiovisual e o Ensino Superior

A par dos festivais de cinema, cuja consolidação era um dado adquirido, outros factores contribuíam para introduzir alterações na paisagem audiovisual da cidade, entre os quais as universidades e o ensino superior politécnico com os seus cursos de Imagem e Som, Cinema e Vídeo e, também, de Jornalismo e Comunicação Social. A partir de meados da década de 80, mas, sobretudo nos anos 90, o meio universitário foi sensível ao mundo das Ciências da Informação e da Comunicação, tendo igualmente manifestado um interesse renovado pelas áreas criativas. Surgiram cursos de Jornalismo na Escola Superior de Jornalismo do Porto e na Universidade Fernando Pessoa, cursos de Cinema e Vídeo na Escola Superior Artística do Porto e um curso de Imagem e Som na Universidade Católica Portuguesa. Na Universidade do Minho, com sede em Braga, havia também uma especialização em Jornalismo no âmbito de um curso de Ciências da Informação e Comunicação. E no Instituto Politécnico do Porto surgira o Curso de Tecnologia da Comunicação Audiovisual do qual saía um número apreciável de técnicos para o sector audiovisual.

Por outro lado, uma nova geração de protagonistas formados nestas escolas foi ocupando lugares nos departamentos de Informação e de Programação dos operadores televisivos, ao mesmo tempo que outros iam dando corpo a uma indústria embrionária de conteúdos, nalguns casos com elevado potencial de internacionalização como o cinema de animação produzido pela Filmógrafo ou os seriados televisivos de animação em 3D da autoria da Miragem, cujo Major Alvega viria a revelar-se um êxito de vendas no exterior, pelo menos tendo em conta a habitual omissão de Portugal nos mercados mais representativos.

Em torno destas matérias e da sua articulação com os pontos anteriores, surgiu um segundo conjunto de questões:

- Onde e como se criam e desenvolvem os saberes?
- Qual a relevância da produção escolar?
- Que se produz no Porto em matéria de cinema, audiovisual e multimédia, quem produz, como se produz e em função de que capacidades instaladas e saberes existentes?
- Que potencial de internacionalização tem essa produção?
- Em função das capacidades instaladas e dos saberes existentes o que valeria a pena produzir para o mercado global e com que protagonistas?
- Faria sentido a aposta em nichos de mercado?

3.3 O Serviço Público de Televisão: uma perspectiva descentralizada  

Entendeu-se que a resposta às questões enunciadas deveria ser equacionada em função da possibilidade de uma proposta de redefinição estratégica do papel do serviço público de televisão, cuja componente regional denotava a par de uma evidente capacidade de produção instalada um manifesto sub-aproveitamento dessa mesma capacidade. No texto de base [1] elaborado para servir de ponto de partida à proposta de integração da RTP/Porto nos projectos do Porto 2001, numa altura em que estava ainda no poder o governo do Partido Socialista que sucedera aos governos de centro-direita de Cavaco Silva, podia ler-se:

Qualquer avaliação do Centro de Produção do Porto da RTP é indissociável das medidas levadas a cabo nos últimos anos do cavaquismo. Dir-se-á que foram medidas avulsas, implementadas conjunturalmente, sem uma estratégia previamente definida, enfim, sem uma ideia relativa aos objectivos a atingir, embora orientadas por um princípio geral de contornos indeterminados ao qual poder-se-ia chamar crescimento. A situação actual parece ser a de uma gestão precária da herança recebida [2]”.

Acrescentava-se de seguida:

“Aparentemente, as decisões tomadas ao longo dos tempos foram resultantes de actos voluntaristas, num quadro reivindicativo bipolar, ou seja, às tendências tradicionalmente centralizadoras de Lisboa foi respondendo o Porto, e mais por intervenção da classe política, com desígnios de uma autonomia crescente do seu Centro de Produção. Ninguém terá procurado responder com rigor a uma pergunta tão simples quanto esta: autonomia para fazer o quê [3]”?

Nunca tendo sido dada resposta adequada a esta pergunta, o crescimento do Centro de Produção do Porto da RTP teve um efeito paradoxal: “uma notável capacidade instalada de produzir televisão ora sub-aproveitada ora simplesmente desactivada [4]”. Face a este diagnóstico, e tendo em conta a introdução das tecnologias do cabo e do digital, bem como a abertura da televisão aos operadores privados, resultava evidente a caducidade de modelos e processos longamente interiorizados pela RTP. Assumia-se que por razões políticas e de cidadania a questão do serviço público adquiria novos contornos e maior relevância, nomeadamente em termos do reconhecimento de uma identidade a preservar e de uma cultura a defender “na base de uma diversidade que valoriza o regional, exige a excelência do discurso e prossegue a via da internacionalização [5]”.

Como corolário do exposto, afirmava-se no documento:

É neste quadro que deve encontrar-se uma solução para o Centro de Produção do Porto, de tal modo que o seu estatuto de dependência crónica seja revisto e transformado num estatuto de parceria e complementaridade no âmbito da RTP. Essa revisão não deve, no entanto, ser feita a partir de um registo de cedências ou reivindicações, antes deve ser encarado como uma necessidade do serviço público no seu conjunto, por forma a exponenciar as mais-valias da sua componente regional [6]”.

Resultava daqui um terceiro conjunto de questões:

- Qual o papel a desempenhar pelo Centro de Produção do Porto da RTP?
- Qual a capacidade e vontade de intervenção do Centro de Produção do Porto enquanto elemento regulador de uma produção audiovisual de âmbito local e regional?
- Quais as possibilidades de internacionalização do Centro de Produção do Porto da RTP, nomeadamente em termos de co-produções, num quadro de televisão segmentada e de conquista de nichos no mercado global?
- Qual a abertura da RTP para aceitar debater políticas de intervenção descentralizadas?

Naturalmente, a abordagem destas matérias revestia-se de aspectos delicados. Sendo certo que o documento contemplava questões cuja relevância era indiscutível para alguns sectores da RTP, sobretudo aqueles mais ligados à sua componente regional, nem por isso deixava de se correr o risco de outros verem nas considerações avançadas uma tentativa de intromissão na vida interna da empresa. Fortemente centralizada e quase sempre encarada numa perspectiva instrumental pelo poder político, a RTP tinha uma longa tradição de resistência a reflectir sobre si própria. De qualquer modo, apesar do risco de eventuais más interpretações, lançar Pontes para o Futuro no domínio do Cinema, Audiovisual e Multimédia não poderia deixar de interpelar o serviço público de televisão [7]


[1] . Anexo III – pp. 25-31.
[2] . Anexo III – p. 27.
[3] . ibid.
[4] . ibid.
[5] . ibid.
[6] . ibid.
[7] . Ver Anexo III – p. 33.

imagem do genérico da Odisssia nas Imagens projectado antes de cada sessão e no programa de televisão (RTP) com o mesmo nome

4.0. Elucidação de objectivos da Odisseia nas Imagens

A reflexão a propósito da História do Cinema no Porto, dos Festivais, das Universidades e do Centro de Produção do Porto da RTP, bem como as questões suscitadas, tiveram expressão no documento respeitante ao último trimestre de 1999, no qual se procedia a uma primeira abordagem daquilo que poderia viria a ser a Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia [1]. O documento dava conta, a abrir:

“A primeira ideia que ocorre no âmbito dos eventos a programar para o Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura é a ideia da visibilidade. Numa primeira leitura, estaríamos perante um conceito cujo valor instrumental seria testado em função do tempo e do espaço dedicados à divulgação em antena, ou através dos circuitos da sociedade da informação, do conjunto de iniciativas constantes da programação global. Este pôr o Porto no mapa exige, porém, o entendimento, a um outro nível, de uma vertente complementar dessa dimensão instrumental. Essa vertente respeita ao(s) discurso(s), de cuja excelência depende o alcance e o impacto da divulgação pretendida. Só a qualidade do(s) discurso(s), ancorada na convergência da criatividade com o domínio das técnicas e das linguagens, permitirá, com efeito, prosseguir a estratégia de internacionalização consequente dos objectivos delineados [2]”.

Afirmava-se seguidamente:

“Na mesma linha de pensamento importa reconhecer o Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura como potencial e, porventura, decisivo agente de mudança da paisagem audiovisual e multimédia local e regional, tendo em conta não apenas as capacidades de produção instaladas, mas também os saberes dispersos pelos diversos protagonistas, sejam eles da área empresarial, pública ou privada, ou das áreas dos festivais e da universidade. A mudança pretendida, no sentido de conferir maior e melhor presença à globalidade do sector, se recusa qualquer prática de intervencionismo, aliás, ilegítima, nem por isso deixa de exigir, da parte Sociedade Porto 2001, a capacidade de lançar um conjunto de desafios nos quais os potenciais parceiros da Capital Europeia da Cultura possam encontrar motivos mobilizadores [3]”.

Do exposto resultavam alguns pressupostos e outras tantas intenções de cuja articulação era previsível chegar a uma malha coerente de programação. Assim, a aposta na excelência do discurso impunha critérios rigorosos em relação àquilo que se pretendia dar a ver, sendo que o dar a ver teria de corresponder a opções de ordem estratégica alicerçadas num intuito fundador de promover a criação de novos públicos, dos quais, por sua vez, era suposto poderem sair novos agentes culturais com intervenção, nomeadamente no plano da produção e, logo, com impacto no tecido empresarial da indústria audiovisual. Por outro lado, as opções de ordem estratégica teriam sempre de ser definidas em função das capacidades instaladas e dos saberes existentes valorizando, portanto, os festivais, as universidades e o Centro de Produção do Porto da RTP.

Contudo, a par da lógica de reforço do trabalho desenvolvido, haveria também que conferir sentido prospectivo à programação procurando identificar um território de novas apostas fosse em termos das linguagens transversais, fosse no domínio de modalidades discursivas e narrativas, como o documentário, cujas características pareciam adequadas a um investimento de reprodutibilidade previsível a médio prazo. Tratava-se, em suma, de acertar o passo com novos e velhos desafios numa perspectiva de envolvimento e desenvolvimento de parcerias criativas, o que só poderia ser feito no quadro de uma programação de alta qualidade, deliberadamente interpelativa e, por isso mesmo, obrigada a acautelar os aspectos lúdicos e conviviais sem os quais correria o risco de se encerrar num anacrónico espaço de especialistas voltados sobre si mesmos.

Como corolário resultava que “da aceitação desses desafios, bem como do percurso que cada qual for capaz de fazer, construindo pontes entre o público e o privado, entre as empresas e a Universidade, entre o mercado nacional e o mercado internacional, é suposto surgir algo de qualitativamente diferente a ponto de tornar a cidade num porto de acolhimento de eventos e criadores, cujo horizonte temporal se pretende projectar para além de 2001 [4]”.

Em função deste enquadramento o passo seguinte iria no sentido de desencadear as iniciativas preliminares que permitissem montar a logística indispensável à concretização dos objectivos propostos. Desde logo, numa primeira fase, estabelecer contactos tendo em vista a criação de parcerias estratégicas com a RTP, com os estabelecimentos de ensino superior da área metropolitana do Porto e com os festivais de cinema.

No primeiro caso, tratava-se, por um lado, de propor um tipo de intervenção que de algum modo pudesse reflectir uma proposta de reorientação estratégica do serviço público de televisão de âmbito regional privilegiando os aspectos de regulação da paisagem audiovisual numa perspectiva de descentralização, e de assegurar, por outro lado, a cobertura televisiva da Programação e actividades da Capital Europeia da Cultura, sendo que estas duas vertentes deveriam ser articuladas de modo a possibilitar o aparecimento de conteúdos qualitativamente diferentes.

No segundo caso, tratava-se de envolver as universidades para efeito da criação de novos públicos encarados como potenciais geradores de criadores e agentes culturais, sendo que este envolvimento de professores e estudantes deveria obedecer à perspectiva de os familiarizar com as áreas simbólicas de interesse estratégico fazendo deles, simultaneamente, actores de um processo de transformação que deveria passar pela sua participação em acções de formação e de produção audiovisual e multimédia no âmbito dos respectivos cursos.

Finalmente, quanto aos festivais tratava-se de os integrar na Programação oficial da Capital da Cultura como elemento de valorização procurando, simultaneamente, promover novas sinergias. Aliás, as primeiras opções quanto àquilo em que valeria a pena apostar iam no sentido do reconhecimento do trabalho por eles efectuado ao longo dos anos, nomeadamente no domínio das curtas metragens e do cinema de animação. O documentário viria logo a seguir, constituindo-se como paradigma do que valeria a pena divulgar e produzir.  

A opção pelo documentário obedeceu a critérios de vária ordem [5]. Tratando-se de algo se não proscrito pelo menos relativamente marginal em termos de produção e distribuição cinematográfica pareceu oportuno recuperá-lo e dá-lo a conhecer na amplitude das suas modalidades e numa perspectiva de poder vir a interessar novos públicos e futuros criadores. Tanto mais que graças à televisão – e apesar dela – o documentário atravessava uma fase de rápido desenvolvimento com expressão no número de festivais existentes e nos níveis de produção dos países da União Europeia, com destaque para o Reino Unido. Por outro lado, não exigindo meios avultados e sendo uma espécie de álbum de família dos povos, como lhe chamou Patrício Guzmán, o documentário poderia transformar-se num meio privilegiado de dar a conhecer a cidade. A prazo, à semelhança do que já estava a acontecer com Barcelona, o Porto poderia vir a ser a capital do documentário em Portugal, com todas as vantagens daí decorrentes no domínio das infraestruturas produtivas e das superestruturas da credibilidade e da visibilidade.

Esta ideia era reforçada em função de tendências identificadas no quadro audiovisual europeu:

“Essas tendências apontam para uma produção genuinamente europeia, no âmbito da qual se verifica a revalorização do local e do regional entendidos como base do universal. No plano simbólico, faz-se, portanto, a defesa da visibilidade das diferentes parcelas do conjunto da União Europeia. Esta unidade na diferença é reforçada e estimulada pelo facto das tecnologias da informação e da comunicação, em particular o digital, terem pulverizado o universo televisivo generalista, dando lugar a uma televisão temática, segmentada e especializada. Trata-se de uma mudança radical, pois não apenas se subverte o quadro de difusão tradicional, mas também se induz uma verdadeira revolução no plano das linguagens [6]”.

Nesta perspectiva, o espaço documentário nas suas sempre complicadas relações com a televisão, uma vez ultrapassada a fase histórica do domínio do modelo generalista, deveria merecer um novo enfoque. Como é sabido, num primeiro momento, o documentário teve largo acolhimento no meio televisivo. Posteriormente, porém, a ditadura das audiências levou à imposição de formatos condicionadores da liberdade de criação e, nalguns casos, afastou-o, quando não o baniu da programação. Subsistiram, de modo mais ou menos generalizado, sequelas desse processo, cuja principal consequência no plano da linguagem foi a desvalorização da lógica das imagens a favor do primado da palavra, de algum modo à semelhança daquilo que levou René Clair a comparar algumas fitas da época do advento do cinema sonoro a um gramofone com ilustrações. Algumas experiências televisivas viriam, no entanto, a revelar-se interessantes, sobretudo porque, dirigindo-se ao grande público, não só mantiveram padrões elevados em termos artísticos, mas também se revelaram de indubitável interesse informativo, formativo e pedagógico.

A par desta constatação foram igualmente levadas em conta as previsíveis consequências da revolução digital, bem como da segmentação e especialização da oferta televisiva, elementos a considerar para efeito de pensar o documentário. Tal como acontecera com os formatos de eficácia reconhecida, devido ao aumento da procura e da exigência de parâmetros qualitativos mais elevados ao nível dos canais culturais e temáticos, parecia legítimo admitir a possibilidade de abrir uma janela de oportunidades para o reaparecimento de tendências – que pareciam perdidas – orientadas para recuperação do primado da aventura do olhar, recuperando, portanto, a tradição do cinema do real.    

Assim sendo, e reconhecendo no cinema a matriz essencial do documentário estabeleceu-se uma nova parceria estratégica, desta vez, com a Cinemateca Portuguesa, da qual viria a resultar o elo mais forte da Odisseia nas Imagens, o ciclo O Olhar de Ulisses [7].  


[1] . Anexo III – pp. 15-23.
[2] . Anexo III – p. 17.
[3] . ibid.
[4] . ibid.
[5] . A maioria da razões para a opção pelo documentário encontram-se já enunciadas na Introdução. Ver Anexo III – pp. 46-49. - Nota do Autor.
[6] . Anexo III – p. 19.
[7] . Anexo III – p. 44


4.1 Parcerias e áreas de intervenção estratégicas

No último trimestre de 1999 estavam identificados os pilares estratégicos da Programação. Era ponto assente que a Odisseia nas Imagens deveria ser construída em torno de um evento pluridisciplinar de carácter estruturante e de longa duração, distribuído por locais tão diversificados quanto possível por forma a ir ao encontro das pessoas – embora os seus eventos mais emblemáticos devessem ter sede fixa [1] –, e numa perspectiva de work in progress. Dado o seu carácter experimental pareceu ser esse o método mais eficaz de enquadrar os ensinamentos respeitantes a cada módulo ou iniciativa por forma a produzir alterações nos módulos ou iniciativas seguintes, permitindo, se necessário, introduzir novas variáveis e inflexões de percurso em função dos resultados alcançados e da experiência adquirida.

Havia igualmente a previsão desse evento ser organizado em cinco módulos [2], os quais por sua vez se desdobrariam em ciclos e iniciativas complementares, beneficiando do apoio da Cinemateca Portuguesa [3] e das parcerias com iniciativas consolidadas como o Fantasporto [4], o Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde e o Cinanima, as quais asseguravam à partida não só uma programação diversificada e dirigida a diferentes públicos, mas também a extensão de parte dessa mesma programação a outros municípios da área metropolitana do Porto [5].

Foi igualmente negociado o apoio do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), organismo dependente do Ministério da Cultura, para efeito da promoção e divulgação das encomendas da Porto 2001 em festivais internacionais. Finalmente, partiu-se para uma segunda linha de parcerias e acordos complementares, nomeadamente com o Instituto Francês do Porto, Goethe Institut, Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de Paris e Festival du Scoop et du Journalisme de Angers e Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela cuja importância viria a revelar-se determinante para a concretização e relevância de um número significativo de eventos [6].

Na presença do quadro descrito chegou-se, portanto, a uma malha conceptual que apontava para uma lógica de Programação cujas prioridades davam, resumidamente, acolhimento ao seguinte:

- identificação do que promover como modalidades discursivas estratégicas em função das capacidades instaladas e saberes existentes;
- criação de novos públicos em função dessas mesmas modalidades e em articulação com uma forte componente de formação traduzida, quer na realização de workshops, quer no estabelecimento de protocolos com estabelecimentos de ensino superior e com os festivais de cinema;
- aposta na excelência do discurso;  
- participação da RTP tendo em vista o seu papel regulador;
- alargamento da Programação à área metropolitana do Porto através da integração de algumas dessas iniciativas na Odisseia nas Imagens;
- aceitação de projectos externos desde que compatíveis com o orçamento disponível no quadro de prioridades definido;
- estabelecimento de parcerias ajustadas ao modelo de Programação adoptado;
- lançamento de bases para uma redefinição da paisagem audiovisual da cidade e da sua área metropolitana abrindo janelas de oportunidade para futuras associações, empresas e criadores;
- desenvolvimento de estratégias de internacionalização adequadas à conquista de um espaço de afirmação da cidade do Porto no audiovisual do noroeste peninsular.

As preocupações respeitantes à internacionalização foram equacionadas procurando estabelecer desde logo relações com a cidade de Roterdão. A Capital da Cultura pensada pela cidade holandesa obedecia, no entanto, a parâmetros muito diferentes. Enquanto no Porto a prioridade era lançar um conjunto de iniciativas estruturantes de modo a gerar dinâmicas culturais inovadoras, nomeadamente através do fomento de novos equipamentos como a Casa da Música e o melhoramento de outros já existentes, em Roterdão, uma cidade culturalmente bem equipada, as linhas gerais da programação obedeciam a critérios, sobretudo de carácter civilizacional, ocupando o multiculturalismo um lugar dominante.

Em todo o caso, foram estabelecidos contactos com produtores holandeses tendo em vista a co-produção de filmes e de programas de televisão. Em relação a estes últimos, devido aos custos elevados e à dificuldade em encontrar parceiros entre os operadores de televisão a hipótese foi rapidamente descartada. Em relação ao cinema, porém, foi estabelecido um acordo tendo em vista retomar uma série de sucesso denominada City Life e, nessa medida, acertar a produção de oito filmes de jovens realizadores sobre as cidades do Porto e de Roterdão assegurando, em simultâneo, a sua estreia mundial conjunta no Rotterdam International Film Festival, um dos mais importantes da Europa, no dia de abertura da Capital Europeia da Cultura holandesa [7].

Concomitantemente, beneficiando da experiência dos festivais da área metropolitana do Porto, casos do Cinanima e, sobretudo, do Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde, outros contactos foram estabelecidos tendo em vista a possibilidade de colaborações mais alargadas no âmbito da Odisseia nas Imagens. Esses contactos foram relevantes para a programação da área multimédia, território de experimentação de novas linguagens e um pólo de interesse prioritário do universo escolar.

Identificadas as principais parcerias, lançado o concurso de projectos e estabelecidas as prioridades em função da estratégia delineada entendeu-se que a Programação deveria ser entendida como um percurso, cujo itinerário poderia ser alterado, inflectido ou rectificado consoante as necessidades criadas pela sua própria circunstância, de modo a:

a) Proporcionar uma Programação de grande qualidade e elevado grau de exigência
b) com vista a abrir caminho à concretização dos objectivos estrategicamente delineados
c) procurando valorizar a componente formativa,
d) mas sem descurar a dimensão lúdica e espectacular,
e) de modo a fidelizar públicos para modalidades discursivas alternativas ajustadas a uma política de nichos de mercado
f) de cuja afirmação pudesses resultar uma nova dinâmica produtiva para o Porto, conferindo um sentido prospectivo à sua tradição e memória de Cidade de Imagens,
g) numa perspectiva de internacionalização.

Para que esta lógica pudesse produzir resultados entendeu-se dar início à Odisseia nas Imagens ainda durante o ano de 2000.

4.1.1 Work in Progress

Por razões de urgência a primeira parceria concretizada foi com a RTP. Tratava-se da possibilidade de poder beneficiar em tempo útil de fundos comunitários do INTEREG e de começar a delinear o protocolo entre a Sociedade Porto 2001 e a RTP [8] na base dos pressupostos enunciados. Quanto aos fundos comunitários a Sociedade Porto 2001 diligenciou junto de Santiago de Compostela, Capital da Cultura em 1999 e de Salamanca, Capital da Cultura em 2002, no sentido de estabelecer um acordo visando dar passos para o estabelecimento de uma plataforma audiovisual do noroeste peninsular. Nesse sentido, houve uma consulta prévia à Comissão de Coordenação da Região Norte, a qual disponibilizou informações sobre os fundos disponíveis, alertando, no entanto, para constrangimentos decorrentes de prazos muito apertados para a formulação de candidaturas.

Estes constrangimentos inviabilizaram à partida a participação de Salamanca, na altura ainda numa fase muito embrionário da preparação da sua Capital da Cultura, mas não impediram a manifestação da vontade de avançar por parte dos outros parceiros. A Sociedade Porto 2001 apresentou então o esboço de uma proposta designada Televisões Periféricas no Mercado Global [9]. Pretendia-se, fundamentalmente, dar um primeiro passo no sentido da cooperação entre os operadores de televisão de serviço público de Portugal e da Galiza, de modo a envolver ambas as capitais da cultura e a beneficiar da presença das universidades do Porto e de Santiago de Compostela. A componente universitária deveria permitir levar a cabo estudos em função dos quais fosse possível identificar os contornos de um mercado audiovisual comum ao norte de Portugal e da Galiza e fazer opções em matéria de co-produções. O projecto deveria ser financiado por fundos europeus. O prazo para a apresentação da candidatura, efectivamente muito apertado, viria, no entanto, a expirar antes do processo poder ser concluído [10].

Contudo, alguns dos pressupostos subjacentes à elaboração da proposta respeitante às Televisões Periféricas no Mercado Global viriam a ser integrados tanto no primeiro quanto no segundo protocolos assinados com a RTP. Esses pressupostos resultavam da tentativa de identificar o lugar de uma cidade de dimensão média como o Porto no contexto da produção audiovisual europeia. Procurou-se relevar o papel regulador do serviço público de Televisão enquanto instrumento de políticas para o audiovisual, nomeadamente no âmbito da produção e distribuição de conteúdos. O regional, elemento de diferenciação no mercado global, surgia associado à identificação de nichos de mercado a partir dos quais poderia pensar-se em produções especializadas.

Seguindo a mesma linha de orientação o protocolo contemplava o acolhimento de iniciativas da responsabilidade da RTP como o MAT (Mostra Atlântica de Televisão) e a reunião anual do CIRCOM, organismo representativo de cerca de 400 televisões de serviço público de âmbito regional. Estas iniciativas seriam palco de mostras nas áreas do documentário, da grande reportagem e de outros formatos televisivos, bem como de seminários e conferências com enfoque em tendências do audiovisual europeu centradas no local e regional [11].

Paralelamente decorreram negociações com os cursos do ensino superior do Porto tendo em vista a sua integração e participação na Odisseia nas Imagens na linha dos pressupostos enunciados em documentos preliminares:

“A Universidade tem vindo a desenvolver cursos de Jornalismo, Comunicação Social, Multimédia e Imagem e Som. Passa, por outro lado, por uma fase crucial: a dotação plena de tecnologias da informação, da qual não se ausenta a necessidade de afirmação na sociedade da comunicação. A este nível, é gritante, por exemplo, a precariedade das intervenções em suportes próprios e da responsabilidade da própria Universidade e dos seus diversos actores. Nesse sentido, o Porto 2001 pretende lançar o desafio de articular os cursos existentes com iniciativas exteriores à Universidade. Essas iniciativas poderão conhecer diversos rumos, sejam eles do domínio da formação ou da produção de conteúdos, da divulgação ou da pesquisa, mas, em todo caso, serão sempre iniciativas orientadas em termos do reforço da ligação ao meio, por um lado, e de reforço das próprias estruturas universitárias em matéria de audiovisual e multimédia [12]”.

O universo dos estudantes universitários seria, assim, o alvo natural para efeito da criação de novos públicos, bem como o núcleo a partir do qual deveriam gerar-se dinâmicas de criação e de produção em torno das modalidades de relevância estratégica: o documentário, as curtas metragens de ficção e o cinema de animação, sem prejuízo de incursões noutros domínios [13]. Por essas razões os protocolos assinados com as universidades [14] contemplavam a integração da Odisseia nas Imagens nos planos curriculares dos respectivos cursos, comprometendo-se a Sociedade Porto 2001 a reservar uma percentagem da lotação das salas, consoante a sua capacidade, para estudantes devidamente credenciados.

Por outro lado, as escolas deveriam fomentar a produção escolar destinada a ter visibilidade pública num festival competitivo com o qual se encerraria, no plano simbólico, a opção estratégica feita pela Sociedade Porto 2001 na área audiovisual e multimédia. Essa produção seria parcialmente financiada pela Capital Europeia da Cultura no pressuposto de que as verbas atribuídas seriam investidas em know how e infraestruturas.

Se as parcerias com a RTP, com os festivais e com as universidades resultaram da iniciativa da Sociedade Porto 2001 outras poderiam resultar da iniciativa da sociedade civil na sequência da abertura de um período para aceitação de projectos externos, os quais seriam avaliados em função da sua compatibilidade com a lógica global da Capital Europeia da Cultura e das opções estratégicas definidas pela área do Cinema, Audiovisual e Multimédia.


[1] . As iniciativas da Odisseia nas Imagens realizaram-se nos seguintes 32 Espaços: Associação Os Filhos de Lumiére; Auditório Municipal de Vila do Conde; Bar Labirintho; Bar Trintaeum; Bar Voice; Biblioteca Almeida Garrett; Casa das Artes; Casa Tait; Centro Multimeios de Espinho; Cinema Trindade; Coliseu do Porto; Escola Superior Artística do Porto; Escola Superior de Artes e Design; Escola Superior de Jornalismo do Porto; Estação de S. Bento; Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto; Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto; Filmógrafo; Fnac; Fundação de Serralves; Galeria Artes em Partes; Hard Club; Instituto Nacional de Engenharia de Sistemas e Computação; Moagens Harmonia; Porto Palácio Hotel; Rivoli Teatro Municipal; RTP Porto; Teatro do Campo Alegre; Universidade Católica do Porto; Universidade do Minho; Universidade Fernando Pessoa; Universidade Popular do Porto. - Relatório de Avaliação Final do Departamento de Cinema Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas.
[2] . Na verdade, a previsão pecou por excesso de optimismo e logo após o primeiro módulo da Odisseia nas Imagens se constatou a impossibilidade, por razões de vária ordem, de concretizar os cinco módulos, que passaram a quatro. – Nota do Autor.
[3] . Ver Anexo III – p. 44. O Protocolo assinado com a Cinemateca Portuguesa tinha fundamentalmente o objectivo de beneficiar da sua larga experiência para efeito da Programação de Cinema, nomeadamente no respeitante aos ciclos respeitantes do filme documentário. Previa ainda a cedência de filmes, textos e fotos para catálogos, intercâmbio com outras Cinematecas e apoio em matéria de relações internacionais. Outro objectivo era lançar as bases para uma programação regular da Cinemateca Portuguesa no Porto. – Nota do Autor.
[4] . Ver Anexo III – pp. 42-43. O protocolo com o Fantasporto foi o mais difícil de concretizar. Em causa, para além de desencontros em termos das contrapartidas financeiras desejadas pelo festival, parece ter pesado o clima de tensão, entretanto criado entre a Sociedade Porto 2001 e o Ministério da Cultura, cujo titular da altura, Manuel Maria Carrilho, sempre demonstrou apreço pelo papel desempenhado pelo Fantasporto. Nos jornais surgiam sistematicamente notícias sugerindo a incapacidade da Sociedade Porto 2001 para dar corpo a uma programação, chegando mesmo a aventar-se a hipótese de remodelação dos programadores. Após a audição destes por parte de uma comissão parlamentar, a partir da qual se ficou com uma ideia mais precisa dos objectivos da Programação Cultural, o Fantasporto diria ter havido até então um défice de comunicação e daria o contencioso por encerrado. - Nota do Autor.
[5] . Ver Anexo III – pp. 18-19. Os protocolos assinados com os Festivais de Cinema do Porto e da sua área metropolitana tinham fundamentalmente os seguintes objectivos:
- Cinanima - Reforçar o Cinanima como corolário da aposta estratégica da Porto 2001 no Cinema de Animação. Integrar o Cinanima na Programação da Odisseia nas Imagens. Apoiar a edição em livro e CD-ROM da História da Animação em Portugal no âmbito das comemorações dos 25 anos do Festival. Promover ciclos em articulação com a Odisseia nas Imagens: Cinema de Animação e Arte e Cinema de Animação e Música. Atribuir um Prémio Porto 2001 para o melhor filme de animação em português em competição na 25ª edição do Cinanima. Aproveitar o Cinanima para promover e divulgar a Odisseia nas Imagens junto dos seus convidados.
- Fantasporto - Promover a abertura em conjunto do Fantasporto 2001 e da Odisseia nas Imagens no dia 17 de Fevereiro de 2001, no Coliseu do Porto, com a execução da Sinfonia Fantástica de Berlioz pela Orquestra Nacional do Porto, sob a direcção do Maestro Frédéric Chaslan. Integrar o Fantasporto na Programação oficial da Capital Europeia da Cultura. Atribuir um Prémio “Porto 2001” para a melhor longa metragem portuguesa estreada em 2000. Estrear no Fantasporto os filmes da série City Life (designação posteriormente alterada para Estórias De Duas Cidades). Aproveitar o Fantasporto para a promoção e divulgação da Capital Europeia da Cultura.
- Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde - Reforçar o FICMVC em função da aposta estratégica da Sociedade Porto 2001 nas curtas metragens de ficção. Apoiar a realização do Ciclo 15X15: A Herança Cinematográfica Europeia. Patrocinar a realização de O Nosso Século em Curtas, em Julho de 2000, no Teatro Rivoli (extensão do 8º. Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde). Atribuir um Prémio Porto 2001 para a melhor curta metragem portuguesa em competição no 9º. Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde. Integrar na Odisseia nas Imagens o Filme Concerto sobre filmes de Charles Bowers. Aproveitar o Festival de Vila do Conde para efeito de promoção e divulgação da Odisseia nas Imagens. - Nota do Autor.
[6] . Basicamente os acordos estabelecidos tinham a ver com o seguinte:
- Instituto Francês do Porto, para efeito de cooperação cultural e apoio a viagens e estadias;
- Goethe Institut, para efeito de cooperação cultural e apoio a viagens e estadias;
- Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – Images/Media) de Paris, para efeito de programação do ciclo O Olhar de Ulisses e lançamento de bases de cooperação com a Universidade do Porto;
- Festival du Scoop et du Journalisme de Angers, para efeito de participação no ciclo Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens ;
- Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela, para efeito de programação do módulo Apocalípticos e Integrados e do ciclo Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens através de Margarida Ledo Andión e da participação de estudantes com filmes a concurso na competição de escolas da Odisseia nas Imagens. - Nota do Autor. 
[7] . Anexo III – p. 41.
[8] . Na verdade, viriam a ser assinados dois protocolos com a RTP. O primeiro ainda no tempo de Artur Santos Silva à frente da Sociedade Porto 2001 e de Brandão de Brito enquanto presidente do Conselho de Administração da RTP. Desse primeiro protocolo é dada conta no Anexo III – p. 32. O segundo foi assinado bastante mais tarde, já com Teresa Lago e durante a vigência do mandato de José Carlos Silva à frente do operador de serviço público. Este segundo protocolo viria a substituir o primeiro, o qual, por razões mal esclarecidas, parece ter sido negligenciado por parte de elementos da Direcção da RTP a ponto de a SIC se colocar na posição de poder vir a ser reconhecida como televisão oficial da Capital Europeia da Cultura.   A intervenção do presidente do Conselho de Administração da RTP João Carlos Silva, bem como da tutela, terá inviabilizado esse intuito. - Nota do Autor. 
[9] . Anexo III – pp. 35-38.
[10] . Também neste caso a RTP optou por uma posição expectante. A televisão da Galiza, pelo contrário, chegou a designar pessoas e disponibilizar verbas para a concretização da candidatura às verbas do INTEREG. - Nota do Autor. 
[11] . Além do acolhimento na Odisseia nas Imagens do MAT e do CIRCOM a RTP comprometia-se à comparticipação na série de curtas metragens City Life, designação posteriormente alterada para Estórias de Duas Cidades, bem como na realização de programas e reportagens sobre o dia a dia da Capital Europeia da Cultura . - Nota do Autor.
[12] . Anexo III – p. 18.
[13] .  Os protocolos assinados com os estabelecimentos de ensino superior tinham fundamentalmente os seguintes objectivos:
- Universidade Católica - Criação de uma Pós-Graduação em Realização Televisiva, com especialização em Documentário e Curtas Metragens de Ficção. Produção e realização de 10 documentários de 26’ 00” e de 10 curtas metragens de ficção. Integração da Programação da Odisseia nas Imagens no plano curricular da Pós-Graduação em Realização Televisiva. Criação de novos públicos.
- Universidade Fernando Pessoa - Integração da Odisseia nas Imagens no plano curricular do Curso Superior de Ciências da Comunicação e da Informação, na área de Televisão. Produção e Realização de 2 documentários e de 4 grandes reportagens com a duração de 26’ 00’’. Criação de novos públicos.
- Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto - Integração da Odisseia nas Imagens nos objectivos programáticos das disciplinas de Cine-Vídeo e Desenho Gráfico. Produção de 6 obras de vídeo arte, 6 obras multimédia e 6 projectos multimédia de arte pública. Produção e Realização do documentário “O puzzle volta ao Porto” de Hugo Miguel Vieira da Silva. Criação de novos públicos.
- Escola Superior de Jornalismo do Porto - Assunção como objectivo primordial da actividade académica nos anos lectivos de 1999/2000 e 2000/2001 dos temas relativos ao Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. Integração da Odisseia nas Imagens nos planos curriculares das disciplinas de Televisão e Imagens e Sons. Produção e Realização de 2 documentários e de 4 grandes reportagens de 26’ 00’’. Co-Produção com a Sociedade Porto 2001 e com a colaboração do Festival du Scoop et du Journalisme de Angers da competição de escolas da Odisseia nas Imagens. Criação de novos públicos.
- Escola Superior Artística do Porto - Integração da Odisseia nas Imagens no plano curricular do Curso de Cine-Vídeo nos anos lectivos de 1999/2000 e 2000/2001. Produção e Realização de 9 documentários com duração de 26’ 00’’ a 30’ 00’’, 4 curtas metragens de ficção e 20 vídeos experimentais de 1’ 00’’. Desenvolvimento de acções de Formação: Realização de Documentários (por Malek Bensmail), Produção de Documentários sobre a Natureza (por Jan Arnold), Novas Tecnologias na Criação Audiovisual (por Joe Davidow), Argumento para Cinema e Televisão (por John Furia Jr.), Direcção de Fotografia (por Francisco Vidinha). Criação de novos públicos. - Nota do Autor.
[14] . O primeiro protocolo foi assinado com a Universidade Católica do Porto e envolvia o seu Curso de Imagem e Som. A prioridade atribuída à Universidade Católica tinha a ver com o facto de ser, na altura, a instituição de Ensino Superior mais bem apetrechada para responder aos requisitos exigidos pela produção de filmes e à formação de pós-graduação. Ver Anexo I – pp. 3-4 e 9-13. - Nota do Autor.



4.1.2 Projectos, encomendas e acções de formação 

Foi recebida cerca de uma centena de propostas. Algumas dessas propostas viriam a merecer descriminação positiva. Entre elas, duas assumiam particular relevância: uma, da Produtora Filmógrafo, na área do cinema de animação, visando criar a Casa da Animação; outra, da Universidade do Minho, tendo por objectivo a constituição do Museu da Pessoa [1]. Projecto multimédia, o Museu da Pessoa seria um museu virtual para contar na Internet a história da cidade e dos seus lugares através de estórias de vida e de testemunhos de anónimos, mas explorando, simultaneamente, suportes tradicionais, como o livro e a televisão [2]. Quanto à Casa da Animação a proposta teve origem em elementos fundadores da produtora Filmógrafo, entre os quais o cineasta Abi Feijó, responsável por parte dos melhores filmes portugueses de animação realizados até à data, e envolvia um ambicioso conjunto de iniciativas [3]. Dirigido essencialmente aos públicos mais jovens, dele faziam parte, nomeadamente, retrospectivas dos Estúdios Aardman, de Ladislas Starevich e do cinema de animação canadiano, reposições de clássicos, estreias de filmes ausentes do circuito comercial português, visitas de estudo e diversos workshops orientados, entre outros, por criadores como Normand Roger e Jayne Pilling [4].  

A maioria dos projectos apresentados, porém, ou tinha orçamentos proibitivos ou não se enquadrava nas linhas gerais delineadas para a Odisseia nas Imagens. Entre as propostas mais ambiciosas contavam-se algumas da área multimédia apresentadas pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto (INESC) e pela Associação Portucale XXI, de relevância indiscutível [5], mas impossíveis de concretizar devido aos custos. A própria Casa da Animação, considerada prioritária e de interesse estratégico, foi objecto de aturadas negociações e reajustamentos, bem como do envolvimento do governo central e da autarquia, sem o qual teria sido impossível a sua concretização.

Feita a opção pelo documentário, as curtas metragens e o cinema de animação, uma opção consequente com a avaliação das capacidades instaladas e os saberes existentes e, como tal, susceptível de desenvolvimentos no futuro em termos de produções de excelência, é natural que as encomendas levadas a cabo se inscrevessem essencialmente nesse domínio e procurassem envolver, desde logo, o mais representativo cineasta português, Manoel de Oliveira, a quem foi proposto que revisitasse o Porto através de um filme documentário seguindo os passos de Douro, Faina Fluvial (1931).

Ao nome de Manoel de Oliveira está associada toda a história do cinema português e, em particular, a história do cinema feito no Porto, cuja memória a Odisseia das Imagens procuraria recuperar, conferindo-lhe sentido prospectivo. A encomenda, para além da homenagem ao cineasta, tinha o papel simbólico de representar o renascimento da produção do filme documentário feito a partir da cidade. O Porto da Minha Infância (2001) [6] seria, como foi, a obra de maior relevância produzida no âmbito da Programação de cinema. [7].

Das encomendas feitas pela Sociedade Porto 2001 destaca-se igualmente a já mencionada série City Life constituída por quatro curtas metragens de autores portugueses, inicialmente associadas a outras tantas de autores holandeses, num registo de cumplicidade de olhares cruzados sobre as duas cidades [8]. Estes filmes, pensados em função do impacto que poderiam ter em termos de promoção de ambas as Capitais Europeias da Cultura, deveriam fazer o percurso dos principais festivais europeus de cinema do ano 2001, bem como serem objecto de difusão televisiva nacional e internacional. A parte holandesa, porém, não cumpriu os objectivos, produzindo apenas dois filmes. Mesmo assim, os seis filmes estrearam em salas cheias no Festival de Roterdão. A partir daí os filmes portugueses ganharam autonomia sob a designação Estórias de Duas Cidades e os seus quatro filmes acabaram por justificar o investimento realizado, visto terem sido objecto de exibição em festivais de todo o mundo [9], com passagem em canais televisivos, nomeadamente na RTP. Estórias de Duas Cidades – integrando os filmes Distância (2001) de Pedro Serrazina, Acordar (2001) de Tiago Guedes / Frederico Serra, Corpo e Meio (2001) de Sandro Aguilar e Sereias (2001) de Paulo Rocha – abriram o Fantasporto em 21 de Fevereiro de 2001 [10].


 O Porto da Minha Infância
Sobre o filme escreveu Jacques Parsi: “Com a liberdade de inspiração e o rigor de escrita que o caracterizam, Manoel regressa à sua cidade natal, a cidade do Porto. Ela já tinha inspirado o seu primeiro filme, Douro Faina Fluvial, em 1931, e o filme que marca o seu regresso atrás da câmara em 1956, O Pintor e a Cidade. Nestas duas obras Oliveira havia filmado aquilo que prendia o seu olhar. Em Porto da Minha Infância, ele escolheu filmar aquilo que já não existe e que só os olhos da memória, da “sua” memória podem ainda ver. À imagem daquele primeiro plano onde uma orquestra invisível toca uma música misteriosa. O Porto da Minha Infância é ainda o Porto de antes do nascimento: uma cidade carregada de história, uma cidade de artistas e pensadores. E, como que por um movimento em espiral, o filme desenvolve-se desde as ruínas da sua casa natal, à cidade do Porto, a toda a sociedade onde se trava a guerra dos sexos, à Europa. O último plano do farol que se abre sobre o infinito do mar e do mundo é a réplica, ou a rima se se quiser, a cores, do primeiro plano do primeiro filme do jovem Oliveira, setenta anos antes... o Porto é também a cidade que viu nascer, depois de 1896, o cinema em Portugal [11]”...

Uma outra encomenda feita no sentido de evocar a memória cinéfila do Porto foi Cinema (2001) de Fernando Lopes, uma homenagem a Aurélio da Paz dos Reis. Pensado a partir de um poema de Carlos de Oliveira e com desenhos de Jorge Colombo este filme, bem recebido pela crítica, recupera a memória do pioneiro portuense das imagens em movimento em Portugal, mas transcende esse objectivo, situando-se no plano de uma liturgia sobre o próprio cinema. Exibido no Festival de Veneza e estreado em Portugal a 15 de Março de 2001 no ciclo O Olhar de Ulisses, o filme de Fernando Lopes contribuiu igualmente para projectar externamente a imagem da Capital Europeia da Cultura [12].

Foram ainda encomendas ou filmes apoiados pela Odisseia nas Imagens: Casa da Música (nunca exibido) de Pierre-Marie Goulet, Oresteia na Prisão (2001) de Saguenail e Regina Guimarães, Desassossêgo (2001) de Catarina Mourão, O Puzzle Volta ao Porto (2001) de Hugo Vieira da Silva e Novo Mundo (2001) de António, Jorge Neves e Pedro Abrunhosa. Com excepção de Novo Mundo, uma curta-metragem de animação, todos os restantes filmes são documentários.

Em simultâneo com a concretização das parcerias, encomendas e selecção de projectos desenvolveram-se os primeiros esforços no sentido de lançar um programa de acções de formação. Num primeiro documento enviado à Comissão Executiva da Sociedade Porto 2001, afirmava-se:

“Na União Europeia, o sector do audiovisual e multimédia é reconhecido como sendo dos mais interessantes do ponto de vista da criação de emprego. Por outro lado, dele depende a afirmação, no plano simbólico, das diversas realidades parcelares constituintes da realidade que é, hoje, a Europa. Elemento fundamental da promoção da visibilidade local e regional num contexto de internacionalização, o discurso, seja ele audiovisual ou multimédia, exige parâmetros de elevado nível [13]”.

Acrescentava-se em seguida:

“Tendo em conta a indispensabilidade de amplificar o efeito Porto - 2001, quer interna, quer externamente, e reconhecendo-se a necessidade de melhorar significativamente a capacidade discursiva existente, entende-se ser de todo o interesse avançar com acções de formação nas quais seja possível envolver tanto profissionais em exercício, quanto candidatos a um emprego. Essas acções deveriam envolver as empresas e as universidades, dentro de um espírito de articulação de saberes e na perspectiva de gerar sinergias fazendo convergir agentes frequentemente muito fechados sobre si próprios [14]”.

As acções de formação, levadas a cabo no âmbito de um programa negociado com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, em colaboração com a Associação Empresarial de Portugal, acabariam por constituir-se num dos pólos de atracção da Odisseia nas Imagens. Distribuídas pelas áreas do cinema, televisão, jornalismo e multimédia realizaram-se 42 acções de formação [15], para as quais se inscreveram cerca de 1.100 candidatos, número muito superior ao número de vagas existentes [16]. Devido à procura, dentro de um quadro de razoabilidade, foi alargado o limite de inscrições de um número significativo de workshops, embora, noutros casos, tal não tenha sido possível dadas as características das acções de formação e dos respectivos destinatários. No total, até ao encerramento da actividade da Odisseia nas Imagens tiveram formação 440 candidatos seleccionados em áreas tão diversificadas quanto o cinema, a televisão, o cinema de animação e o multimédia [17].  

Como se depreende, todas as encomendas, projectos externos e acções de formação destinavam-se a integrar articulada e corentemente os diferentes módulos da Programação. Dois exemplos: por razões simbólicas, e dada a relevância atribuída ao documentário, o filme de Manoel de Oliveira destinava-se a abrir oficialmente o I Festival Odisseia nas Imagens integrado no módulo Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens; as acções de formação complementavam ciclos de cinema ou iniciativas multimédia no âmbito do aprofundamente das relações com o público escolar e universitário


[1] .  O protocolo assinado com a Universidade do Minho tinha fundamentalmente os seguintes objectivos:
Instalação do Museu da Pessoa de Portugal através do Grupo de Especificação e Processamento de Linguagens do Departamento de Informática da Universidade do Minho. Integração da Odisseia nas Imagens em iniciativas do Departamento de Comunicação Social da Universidade do Minho. Produção e Realização de 4 documentários de 26’ 00’’ no âmbito das recolhas de Histórias de Vida para o Museu da Pessoa. Criação de novos públicos. - Nota do Autor.
[2] . Na verdade, o protocolo respeitante ao Museu da Pessoa foi desdobrado em três de modo a dar acolhimento a nova parcerias com a Universidade Popular do Porto e o Museu da Pessoa de São Paulo. Basicamente, a Universidade do Minho seria a entidade tomadora, competindo-lhe a abertura do site do Museu da Pessoa. À Universidade Popular do Porto cabia abrir o site Memórias do Trabalho, desenvolvendo, para o efeito, as acções de formação correlativas. Quanto ao museu da Pessoa de São Paulo, entidade pioneira com experiência adquirida no domínio da democratização da memória, teria por função fornecer orientação através de workshops. - Nota do Autor.
[3] . O protocolo assinado com a Associação Casa da Animação visava essencialmente o seguinte:
Instalação no Porto de uma infraestrutura de nível consonante com a produção de cinema de animação já existente no Porto, incluindo um núcleo de projectos na área da formação e programação para jovens e público em geral, videoteca, biblioteca e outras valências; dinamização de práticas de profissionalização interna ao cinema de animação; programação para o ano de 2001 integrada na Odisseia nas Imagens com o melhor da actualidade nesta área; acções de Formação em 2001; criação de novos públicos. - Nota do Autor.
[4] . Para além da inclusão do Cinanima na programação oficial o conjunto de iniciativas da Casa da Animação revelar-se-ia um dos pontos fortes da Odisseia nas Imagens. Ver, por exemplo, o Anexo I – pp. 71-72, pp. 146-149, pp.156-159, pp. 258-259, pp. 261- 268. - Nota do Autor.
[5] . Ver Anexo III – pp. 20-23
[6] . Anexo I – pp. 191-192 e pp.291-295.
[7] . Produzido por Paulo Branco, este filme teve desde logo um momento de consagração quando da estreia mundial no Festival de Veneza onde foi exibido perante um público de mais de 1500 pessoas que apladiu de pé, durante sete minutos, Manoel de Oliveira. Da comitiva Portuguesa ao Festival de Veneza faziam parte, nomeadamente o Ministro da Cultura Augusto Santos Silva e o Director da Cinemateca Nacional João Bénard da Costa. O facto de O Porto da Minha Infância ser uma encomenda da Sociedade Porto 2001 muito contribuiu para a projecção da Capital Europeia da Cultura. Posteriormente, todas as exibições deste filme em Portugal constituíram um enorme êxito, nomeadamente a ante-estreia nacional na abertura oficial do módulo 4.0 da Odisseia nas Imagens. A crítica, por seu turno, considerou o filme uma obra prima. 70 anos depois de Douro, Faina Fluvial, o Porto passava a dispor de outro monumento iconográfico sem paralelo na História do Filme Documentário Português. - Nota do Autor
[8] . Anexo III – p. 41.
[9] . Estórias de Duas Cidades foram pensadas não apenas em termos do incentivo à produção de curtas metragens, mas também como factor de promoção e divulgação da cidade do Porto. Tiveram ampla divulgação - passaram em 26 Festivais na Europa e na América - o que permitiu projectar e promover o Cinema Português. Para isso contribuiu também o facto de alguns dos filmes terem sido premiados ou distinguidos em Festivais Internacionais. O seu percurso pode ser observado no Anexo I – pp. 69-70. - Nota do Autor
[10] . Anexo I – pp. 76-79.
[11] . Anexo I – p. 191.
[12] . Anexo I – pp.113-114.
[13] . Anexo III – pp. 53-54.
[14] . ibid.
[15] . As acções de formação encontram-se explicitadas ao longo do Anexo I. - Nota do Autor.
[16] . Relatório de Avaliação Final do Departamento de Cinema Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas.
[17] . ibid.


5.0 A Programação dos quatro módulos da Odisseia nas Imagens

Vejamos agora, em termos de Programação de iniciativas e eventos, as formas encontradas para dar resposta ao conjunto das questões preliminares anteriormente elencadas. Fá-lo-emos em dois momentos, sendo que no primeiro serão abordados aspectos gerais e no segundo as matérias relacionadas com a programação dos documentários. Em relação a qualquer deles, e especialmente em relação ao segundo, procuraremos introdudir algumas notas críticas, por forma a elucidar argumentos que possam contribuir para a pertinência das conclusões.

O primeiro módulo da Programação decorreu de 2 a 10 de Maio de 2000. Anteriormente, por razões de ordem simbólica e dada a importância atribuída ao ensino e à formação, principiara na Universidade Católica a 1ª Pós-Graduação em Documentário e Curtas Metragens de Ficção e tivera lugar uma iniciativa da Coordenação Europeia de Festivais Europeus denominada 15x15: O Património Cinematográfico Europeu, que juntou diversos realizadores e especialistas entre os quais André Delvaux, Paulo Rocha e o representante da Coordenação François Ballay [1].

Para trás ficava um período durante o qual, para além de todo o trabalho preparatório, fora necessário ultrapassar alguns problemas delicados, nomeadamente o conflito aberto entre o Ministério da Cultura e a Sociedade Porto 2001 que levara à demissão do seu presidente Artur Santos Silva e à nomeação de uma nova responsável, Teresa Lago. Foi nessa altura, quando subiam de tom as críticas e insinuações sobre uma alegada incapacidade de dar corpo à Programação, que uma fuga de informação dando a conhecer em detalhe o trabalho realizado e as linhas gerais do que iria acontecer veio reforçar a posição dos programadores e dissipar dúvidas quanto ao projecto cultural. No jornal Público de 27 de Novembro de 1999 o crítico Augusto M. Seabra, num artigo intitulado Isto é uma Capital Cultural!, escreveu:

“Pois bem, programação cultural há. As linhas gerais do Porto 2001 devem ser saudadas como o mais sério esforço até hoje feito em Portugal de pensar uma cidade em termos culturais, isto é, atender às suas tradições, dimensão, localização internacional, necessidades de requalificação urbana e de oferta de espectáculos, valorização e estímulo do potencial criador e mobilização da diversidade de públicos [2]”.



5.1 O Homem e a Câmara

Com a situação interna relativamente estabilizada, o evento inaugural do primeiro módulo da Odisseia nas Imagens foi agendado para o Coliseu do Porto, a maior sala de espectáculos da cidade: o filme O Homem da Câmara de Filmar de Dziga Vertov com música ao vivo da Cinematic Orchestra [3]. Três mil pessoas esgotaram a lotação. A crítica foi unânime. Para citar apenas dois exemplos, no Diário de Notícias, Marcos Cruz afirmava: “Uma noite mágica caiu sobre o Porto fazendo com que todos os caminhos do encantamento fossem dar ao Coliseu [4]”. No Público, Amílcar Correia dizia que “o resultado não podia ter sido mais surpreendente [5]”. Na Visão, reportando ao primeiro módulo O Homem e a Câmara [6] João Mário Grilo comentava: “Com um arriscado, mas imaginativo, figurino de programação, começou, no Porto, a Odisseia nas Imagens, o programa audiovisual da Capital da Cultura [7]”.

Foi também o início do primeiro módulo de O Olhar de Ulisses [8], em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, cuja programação deveria incidir essencialmente sobre o filme documentário, mas proporcionando olhares cruzados e, por vezes inesperados, com filmes marcantes da História do Cinema. Este ciclo, de pendor manifestamente cinéfilo, cujo título recupera o filme homónimo de Theo Angelopoulos realizado em 1995 sobre a errância de um cineasta (Harvey Keitel) à procura daquele que seria o filme seminal da cinematografia grega, transformar-se-ia, desde logo, numa referência do conjunto da Programação.

No seu primeiro catálogo [9], a par de informações detalhadas sobre filmes e participantes [10], explicitavam-se os propósitos da Odisseia nas Imagens:

“A programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura é concebida como um percurso durante o qual o dado a ver exige a participação, promove a descoberta e estimula a aventura. É um desafio centrado na fulcralidade da Imagem enquanto elemento de revelação. Entendida em termos dinâmicos, a Programação é aqui tanto objecto de prazer, quanto elemento detonador do saber e do saber fazer. Nela cabe, naturalmente, em primeiro lugar, a cidade de imagens que o Porto sempre foi e, como tal, o olhar retrospectivo que permite reconhecer a sua identidade. Mas essa cidade de imagens, sendo também um lugar de futuro, exige, de igual modo, um olhar prospectivo, ousado e universal. (...) À cidade caberá sempre decidir, em função do desafio que lhe foi lançado, sobre os contornos e os limites da mudança que lhe é proposta [11]”.


O Homem da Câmara de Filmar com música ao vivo da Cinematic Orchestra. A propósito da sessão inaugural da Odisseia nas Imagens escreveu Amílcar Correia no jornal Público: “Sete décadas separam O Homem da Câmara de Filmar realizado por Dziga Vertov em 1929 e Motion a banda sonora para um filme imaginário que a Cinematic Orchestra editou no ano passado. Apesar da distância temporal e estética entre as duas obras, a equipa responsável pela programação audiovisual do Porto 2001 vislumbrou eventuais pontos de confluência entre o vanguardismo do cineasta russo e o jazz heterodoxo do colectivo de Jason Swinscoe. E o resultado não podia ter sido mais surpreendente [12]”.

O Homem e a Câmara, designação deste primeiro módulo, comum à Odisseia na Imagens e a O Olhar de Ulisses, recuperou o título do filme tese de Dziga Vertov pretendendo reeditar, actualizando, a cine-sensação do mundo enquanto factor de descoberta e elemento de elucidação do real, sendo que esse real seria sempre um real imaginado. Dando conta da gramática emergente das imagens em movimento e da sua relação com o olho este primeiro programa integrou uma componente de Imagens da Ciência da autoria de Jean-Michel Arnold, responsável do Centre Nationale de la Recherche Scientifique-Images/ Media, de Paris, a quem foi dada carta branca para uma selecção de filmes [13]. Escrevendo sobre a Arqueologia e Desvios do Cinema Científico [14], dizia Jean Michel Arnold:

“Enquanto que os operadores da Société Lumière – meio jornalistas, meio fotógrafos – descobriam a grande reportagem, os cientistas, ao apoderarem-se do cinema, afirmaram a modernidade deste. (...) O programa proposto tentará, pois, contar por imagens esta maravilhosa aventura: a invenção do cinema (instrumentos e linguagem) pelos cientistas. É formado por partes de documentos raros e preciosos, conservados nos institutos de investigação ou nos arquivos internacionais especializados. Estas obras são, na sua maioria, desconhecidas do grande público e, muitas vezes até, da comunidade científica apesar de, no início do século, terem constituído para esta a fonte de investigação [15]”.

Este primeiro módulo teve ainda um filme concerto com Berlim, Sinfonia de uma Cidade (1927) de Walter Ruttmann com música ao vivo de DJ Spooky & Freight Elevator Quartet e uma extensão do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde denominada O Nosso Século [16]. Tratando-se da primeira grande iniciativa da Programação Cultural do Porto 2001 a Comunicação Social dedicou-lhe relevante espaço e, de um modo geral, as apreciações foram positivas [17].




[1] . Anexo I – pp. 3-20.
[2] . Anexo III – pp. 39-40.
[3] . Anexo I – p. 26.
[4] . Anexo I – p. 44.
[5] . Anexo I – p. 45.
[6] . Anexo I – pp. 21-36.
[7] . Anexo I – p. 51.
[8] . Anexo I – pp. 27-34.
[9] . Anexo I – p. 24.
[10] . Anexo I – pp. 27-30.
[11] . Anexo I – p. 23.
[12] . Anexo I – p. 45
[13] . Anexo I – p. 31-34.
[14] . Anexo I – p. 31.
[15] . Anexo I – p. 32
[16] . Anexo I – p. 35-36.
[17] . Ver alguns exemplos no Anexo I – pp. 9-20. Na verdade, escrutinadas as dezenas de recortes de imprensa sobre O Homem e a Câmara não se encontra qualquer nota negativa, embora a crítica tenha manifestado reservas quanto ao modo como DJ Spooky equacionou a sua partitura para Berlim, Sinfonia de uma Cidade. - Nota do Autor.



















5.2 O Som e a Fúria

O segundo módulo O Som e a Fúria [1], cujo núcleo principal decorreu entre 17 a 25 de Setembro de 2000, mas que em rigor se desmultiplicou em iniciativas até meados de Março de 2001, poderia ter tomado de empréstimo o título da obra homónima de William Faulkner, mas a verdade é que foi a pensar no II capítulo da História do Documentário de Erik Barnow que se chegou a essa designação. No respectivo catálogo de O Olhar de Ulisses [2], igualmente intitulado O Som e a Fúria – a partir desta altura, por razões de ordem conceptual, nomeadamente devido à introdução de abordagens do documentário no quadro de outras disciplinas não estritamente da esfera do cinema, este ciclo e a restante programação da Odisseia nas Imagens deixariam de obedecer às mesmas designações –, escrevia-se:

“Se o primeiro módulo O Homem e a Câmara remetia para as teses vertovianas da cine-sensação do mundo no quadro de uma gramática emergente das imagens em movimento, agora, em O Som e a Fúria, a elucidação e organização do real apontam para um olhar reestruturado a partir de um conjunto de sinais e de regras de articulação desses sinais relacionados quer com o olho, quer com o ouvido. Com o advento do sonoro, a linguagem do cinema torna-se audiovisual e, portanto, plurissintáctica. O olhar, enquanto modo de revelação, resulta, pois, do acto combinatório de diferentes sistemas de significação convergindo na coerência de um propósito. As coisas, claro, podem não ter a simplicidade aparente que releva das categorias consagradas. Alguém será capaz de evitar ouvir, por exemplo, "O Vento" (1928) de Sjöstrom [3]?”




Este segundo módulo de O Olhar de Ulisses [4] contou entre os seus convidados com Marceline Loridan, a viúva de Joris Ivens [5] e daria também lugar ao primeiro texto de fundo sobre a questão do filme documentário da autoria de João Bénard da Costa intitulado Os filmes que nos vêem/ os olhos que nos filmam [6]. Contestando pressupostos teóricos da ideia do documentário –. na verdade, pondo em causa a própria ideia do documentário –, desvalorizando os filmes do movimento documentarista britânico ou demolindo, por exemplo, os filmes militantes de Joris Ivens, concluía dizendo, nomeadamente: “Este texto, muito provavelmente, vai arranjar-me mais inimigos do que todos quantos escrevi na minha vida [7]”.

Sendo muito diversificado – incluía o Fantasporto (já na fase de transição para o terceiro módulo Apocalípticos e Integrados porque, em rigor, lhe coube inaugurar oficialmente a Odisseia nas Imagens no ano 2001) [8], uma primeira grande retrospectiva de cinema de animação dos Estúdios Aardman [9], um filme-concerto Metrópolis (1925-26) de Fritz Lang com música ao vivo de MuteLifeDept. [10], o colóquio Tendências do Audiovisual Europeu [11], a estreia mundial dos filmes da série Estórias de Duas Cidades [12], as iniciativas preliminares do Museu da Pessoa [13] e, ainda, um número significativo de workshops e de acções de formação [14] – o segundo módulo espelhava já as dinâmicas anunciadas na fase de preparação não deixando, no entanto, de revelar os primeiros indícios de contradições ou, pelo menos, de diferentes concepções sobre a História e Teoria do Documentário, cujas repercussões se fariam sentir nos módulos seguintes.


Um primeiro sinal terá sido o artigo de João Bénard da Costa. Outro, o aparecimento de workshops sobre o documentário de televisão, algo justificadamente ausente de O Olhar de Ulisses, mas cuja relevância no plano das relações institucionais, nomeadamente a RTP e as universidades, não deveria ser ignorado. Esse seria, aliás, um ponto de partida para a discussão do lugar do documentário na programação televisiva, tanto mais que, em simultâneo, era lançada uma grande iniciativa denominada Tendências do Audiovisual Europeu [15] na qual, a par do papel do serviço público de televisão encarado numa perspectiva de descentralização, se procurava introduzir um debate em torno dos nichos de mercado pensados em função da opção pelos documentários, curtas- metragens e cinema da animação. Numa entrevista ao Jornal de Notícias de 7 de Dezembro de 2000 Manuela Melo, a responsável pelo conjunto da Programação Cultural do Porto 2001 falava da possibilidade de um grande centro de produção audiovisual e admitia a hipótese de criação de um Media Park, afirmando a determinada altura:

“Nos últimos anos criou-se uma dinâmica que faz com que haja cada vez mais cineastas, actores, técnicos e outros profissionais que, também pelo apoio logístico conseguido, se vão valorizando. O audiovisual, nesta altura mais do que nunca, sintetiza uma série de expressões artísticas. E, para nós, não interessa apenas a sobrevivência de todas elas, mas também a possibilidade de criar emprego qualificado e estável. A aposta da Porto 2001 nesta área foi lançar desafios e proporcionar meios, em termos de acções de formação, que pudessem oferecer alguma coerência a este conjunto disperso de coisas [16]”.

Na mesma linha de pensamento, no final do ano 2000, o relatório fazendo o balanço do trabalho desenvolvido [17], avançava um prognóstico, bem como algumas condições para a sua concretização:

“Através do envolvimento universitário, das parcerias institucionais que têm vindo a ser levadas a cabo, nomeadamente com a Cinemateca Portuguesa e com o serviço público de Televisão, e dos múltiplos contactos internacionais que têm vindo a ser estabelecidos, o Porto passará a ter condições para se afirmar de uma forma progressiva e sustentada como uma verdadeira Cidade dos Media. Para tanto, a par da ligação dos eventos programados a uma lógica de produção, entende-se como complementar e fundamental a abertura a novas iniciativas tendentes a fomentar actividades empresariais capazes de gerar negócios orientados em função da identificação de nichos de mercado [18]”.

Em função do trabalho realizado [19] e das múltiplas formas de feedback provenientes tanto de parceiros externos quanto do interior da Capital da Cultura o ano de 2000 terminava com legítimas expectativas, mas deixava no ar algumas interrogações sobre os conteúdos, das quais resultava evidente a necessidade de alargar e diversificar a Programação com novos ciclos e iniciatvas como, aliás, se destacava no relatório de balanço mencionado. De um modo geral, a imprensa, sem deixar de referir os problemas existentes, nomeadamente os atrasos verificados quanto à Casa da Animação [20], reflectia uma atitude positiva e, embora mostando-se pouco sensível a eventos menos espectaculares do ponto de vista mediático, traçava um quadro optimista para o ano de 2001 [21].



[1] . Anexo I – pp. 57-79.
[2] . Anexo I – p. 60.
[3] . Anexo I p. 57.
[4] . Anexo I pp. 59-63.
[5] . Ver entrevista com Marceline Loridan in Anexo I – pp. 94-95.
[6] . Anexo I – pp. 86-87.
[7] . Anexo I – p. 87.
[8] . Anexo I – pp. 75-79.
[9] . Anexo I – pp. 71-72.
[10] . Anexo I – pp. 63-65.
[11] . Anexo I – pp. 67-69.
[12] . Anexo I – pp. 69-70.
[13] . Anexo I –pp. 74-75.
[14] . Anexo I – pp. 65, 66, 72, 73, 74 e 79.
[15] . Ver Anexo I – pp. 96-97.
[16] . Anexo I – p. 96.
[17] . Anexo III – pp. 67-73.
[18] . Anexo III – p. 69.
[19] . Ver Anexo III – pp. 70-73.
[20] . Anexo I – p. 85.
[21] . Ver, por exemplo, o artigo de Rodrigues da Silva no Jornal de Letras, Artes e Ideias de 10 de Janeiro de 2001 in Anexo I – pp. 98-99.




















5.3 Apocalípticos e Integrados

O terceiro módulo da Odisseia nas Imagens, que decorreu entre 14 de Março e 19 de Julho de 2001, adoptou a designação de Apocalípticos e Integrados podendo ler-se nas últimas páginas do catálogo de O Olhar de Ulisses um texto introdutório [1], no qual se afirmava:
 
“Apocalípticos e Integrados, o clássico de Umberto Eco sobre a cultura de massas publicado em 1964 é hoje muito mais do que um título: é uma expressão recorrente em função da qual se perspectivam posições antagónicas a respeito do modo de relacionamento do homem com o mundo e dos homens entre si. Do lado do Apocalíptico perfila-se a insubmissão: subjaz ao conceito um intuito redentor. Do lado do Integrado emerge o conformismo: o paradigma é a norma. Reportando a Eco: “O Apocalipse é uma obsessão do dissenter, a Integração é a realidade concreta daqueles que não dissentem”. É isto que fundamentalmente nos interessa, mas entendido num sentido literal que se não prescinde do quadro de referências do debate da época sobre a cultura de massas também não faz dele, longe disso, o centro das preocupações do 3º módulo da Odisseia nas Imagens [2]”.

Acrescentava-se depois:

“Por exemplo, a partir da exposição da Magnum a propósito da rodagem de Misfits, de John Huston, é possível empreender um percurso através do qual seguramente se deparam muitos dos temas abordados não apenas por Eco, mas também por Morin ou Barthes, como sejam o Olimpo das estrelas de cinema ou o papel dos mitos na efabulação do quotidiano. Mas para além desse catálogo do óbvio importa-nos alargar o sentido conotativo de Apocalípticos e Integrados a outros territórios, seja no domínio da relação entre o eu e o outro, que é uma das entradas da Programação do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura e que tem expressão em ciclos como os de Visconti e Errol Morris, seja na esfera do trabalho de criação, nomeadamente no que respeita às linguagens de ruptura das tecnologias multimédia, seja, ainda, em torno dos temas elencados nas masterclasses que integram os Lugares da Imagem [3]”.

E adiante:

“Trata-se, ao fim e ao cabo, de inflectir o debate sobre a diferença e sobre as imagens dessa mesma diferença no universo do Cinema, do Audiovisual e do Multimédia, tantas vezes orientado em torno de uma lógica consensual de conveniência, para um espaço mais interpelativo e menos integrado [4]”.



Filmes de Errol Morris




Ter tomado de empréstimo o título da obra de Umberto Eco obedeceu a razões de vária ordem, todas elas convergindo no sentido de explicitar plenamente os intuitos previamente delineados. Pela primeira vez, um módulo da Odisseia nas Imagens deixava de ter um título comum a O Olhar de Ulisses, cuja designação – A Utopia do Real – aparecia em subtítulo [5]. Desse modo, sem retirar importância à iniciativa apoiada pela Cinemateca Portuguesa, chamava-se a atenção para o carácter pluridisciplinar da Programação, até então quase exclusivamente centrada no cinema, e procurava-se não só chegar a outros públicos, mas também ir ao encontro de expectativas reiteradamente feitas sentir por outros parceiros da Odisseia nas Imagens.

Apocalípticos e Integrados recuperava um tempo histórico contemporâneo da afirmação da televisão enquanto medium dominante, bem como de uma panóplia de media interagindo num contexto de cultura de massas em relação ao qual a política dos autores surgia, de algum modo, como contraponto em todos os territórios da significação, da fotografia ao cinema, da televisão à banda desenhada, das artes plásticas à literatura. Nessa medida, se importava revisitar uma época marcante do mundo contemporâneo, importava igualmente fazê-lo sem complacência nem nostalgia, evitando a tentação de alimentar mitos instalados, e procurando, ao invés, proceder a uma interpelação no quadro dos desafios da arte e comunicação do novo milénio.



Cinema Directo: Rodagem de Primary com Robert Drew, à direita


Um filme como Misfits (1961) realizado por John Huston com argumento de Arthur Miller numa altura em que “os estúdios começavam a investir na produção de séries televisivas, criando as condições ideais para a experimentação à margem das grandes produções [6]”, bem como a exposição da Magnum com 48 fotografias de oito fotógrafos (Cornell Capa, Eve Arnold, Henri Cartier-Bresson, Bruce Davidson, Elliott Erwitt, Ernst Haas, Erich Hartmann, Inge Morath e Dennis Stock) respeitantes à rodagem e tendo como principais protagonistas Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift, pareciam, pela relevância dos temas e pelo conteúdo icónico, especialmente indicados para abrir um debate necessário.



The Misfits de John Huston


Razões semelhantes justificavam a presença da exposição de fotografias de Gerard Malanga e Andy Warhol [7], bem como o ciclo de masterclasses designado por Lugares da Imagem, sempre com lotações esgotadas no Pequeno Auditório do Rivoli - Teatro Municipal, no qual participaram António Pedro Vasconcelos, Román Gobern, Joan Fontecuberta e Margarida Ledo Andión [8]. Ocupando a imagem e o olhar um espaço central no mundo contemporâneo, suscitavam-se questões como as seguintes: “Que relação estabelecemos nós com as imagens? Como contribuem elas para a construção da realidade e o conhecimento do mundo? E o olhar? Que códigos subjazem às modalidades discursivas que remetem para o olhar? E não convergem estas interrogações para o plano da cidadania? E da Arte [9]”?




Por outro lado, o conceito de Apocalípticos e Integrados permitia programar, num contexto ousado, um conjunto de eventos de grande impacto mediático combinando os aspectos aparentemente mais convencionais do cinema com intervenções noutros domínios numa perspectiva de cruzamento de linguagens. Estas abordagens transversais, para além de múltiplas iniciativas multimédia (Digital Cinema [10], Instalações de Tim Macmillan [11], Música Electrónica de Joel Ryan [12], Performance Cinemática de Hexstatic [13], Stereovision-Ciclo de Cinema em 3D [14] e a estreia mundial, em colaboração com a Casa da Música, do álbum Drawn From Life de Brian Eno [15]) tiveram dois momentos especialmente significativos em Nanook of the North (1922) de Robert Flaherty com música ao vivo do grupo de jazz experimental de Nils Petter Molver [16] – uma encomenda da Odisseia nas Imagens – e em Juha (1999) filme mudo do mais conceituado realizador finlandês Aki Kaurismaki com música ao vivo da Anssi Tikanmäki Filmorchestra [17]. Quer num caso, quer no outro as referências críticas foram positivas [18].



Violência e Paixão de Luchino Visconti


No mesmo sentido foram delineadas duas retrospectivas. Uma, de Luchino Visconti, questionando o cinema moderno a partir de uma das suas figuras de referência, dividia-se pelos dois últimos módulos da Programação, sobrando para o módulo final apenas O Leopardo (1963) destinado a encerrar simbolicamente a Odisseia nas Imagens. A outra, de Errol Morris, uma novidade para o público português, cujos filmes e programas de televisão não seriam compagináveis com os critérios de O Olhar de Ulisses, como, aliás, aconteceu igualmente com a maioria dos documentários americanos de última geração.




No catálogo [19] de Mr. Death, a América de Errol Morris [20], depois de se afirmar que a Programação abria “as portas a um dos mais controversos criadores contemporâneos [21]”, escrevia-se:

“Uma Programação aberta, como esta, para além de atender à diversidade dos públicos, não pode deixar de ser interpelativa e provocatória. Por isso, neste capítulo da Odisseia nas Imagens (...) procurou jogar-se um jogo de contrários quer no plano da diversidade das abordagens temáticas, quer no plano das linguagens que suportam os discursos propostos. Será Morris um produto da cultura de massas? E será apocalíptico, porque tudo põe em causa, ou, pelo contrário, será integrado na medida em que os seus filmes suscitam a adesão do grande público e parecem responder a uma procura que se identifica com as estratégias desenvolvidas no contexto dos dispositivos da televisão? Quem é, afinal, Errol Morris? Quem é esta personagem cujos interesses nos remetem para um território de limites confinantes com os do universo do sensacionalismo tablóide e, contudo, dele se distanciam através de uma trama urdida em torno de personagens e acontecimentos em relação aos quais há tanto de simpatia humana, quanto de vontade de conhecimento? Será Morris um cineasta? Ou estaremos em presença de um demiurgo de outra condição [22]”?




Quanto a Violência e Paixão: os Filmes de Luchino Visconti, ciclo organizado em colaboração com a Scuola Nazionale de Cine de Roma e a Cinemateca Portuguesa, procurou-se, antes de mais, dar a conhecer a um público mais vasto e, sobretudo, às novas gerações, um autor controverso, cujos filmes foram objecto de acesa discussão e de avaliações contraditórias, demonstrando, nessa medida, as contingências dos critérios do gosto. Talvez por isso, fora dos círculos cinéfilos, Visconti permanecia ainda relativamente mal conhecido em Portugal:

“Alguns dos seus filmes anteriores a 1974 não estrearam em Portugal, tendo acontecido mais que uma vez a sua apresentação pública com cortes da censura. Para tanto muito contribuiu a sua filiação no pensamento marxista. Mas é bom não esquecer que estamos perante um cineasta sem dogmas, nos antípodas do panfletário que subverte o primado da arte para sustentar o jogo da batota ideológica. Por isso, quando entrou em ruptura com o Partido Comunista Italiano, também não faltou quem pretendesse colar-lhe o labéu de fascista. Agora, de uma forma mais serena, a obra completa de Visconti é dada a ver tal qual é: uma profunda reflexão sobre o Homem e sobre a História de uma assombrosa e, por vezes, pungente beleza [23]”.

Apesar de uma retrospectiva da Fundação Gulbenkian em Janeiro e Fevereiro de 1977, a verdade é que a partir de então a obra de Visconti apenas voltara a ter exposição meramente episódica, fosse em sessões da Cinemateca Portuguesa, fosse em cineclubes, eventualmente uma ou outra reposição no circuito comercial. As recensões críticas de determinados sectores sobre os seus últimos filmes tinham sido ferozes, nomeadamente na 2ª série da Revista Cinéfilo (73 e 74) “onde, desde ‘antiquário do cinema’ a ‘costureiro confundido com cineasta’, lhe chamaram de tudo, vendo, nos filmes desses anos, a patética confirmação de uma senilidade decadente [24]”.  Com tais antecedentes, dada a revisão crítica de que a sua obra vinha sendo objecto, nomeadamente em Itália, e dada a flagrante actualidade dos seus temas, Visconti encaixava na perfeição no conceito deste módulo.  




Quanto a O Olhar de Ulisses, obedecendo a sua programação a uma ordem temporal dos principais episódios da História do Documentário, cruzando embora diferentes obras de autor deslocadas dos espaços diacrónicos de referência, também o conceito de Apocalípticos e Integrados parecia poder ser explorado, tanto mais que permitia enquadrar as inovações narrativas resultantes das tecnologias de som e imagem desenvolvidas a partir do final dos anos 50 que foram determinantes para o aparecimento de uma geração de iconoclastas nos Estados Unidos, Canadá, França e Reino Unido. Contudo, o ciclo optou por uma outra designação, aliás, igualmente coerente com o espírito da época e, porventura, mais de acordo com uma abordagem estritamente do domínio da cinéfilia: A Utopia do Real [25]. Contando, nomeadamente, com a presença de Albert Maysles, fez uma breve passagem pelo cinema directo, mostrou alguns filmes britânicos do free cinema, convocou o exemplo do canadiano de língua francesa Michel Brault, mostrou Jean Rouch, a nouvelle vague e um conjunto de filmes identificados com o cinema de arte ensaio:

"A Utopia do Real" propõe filmes que questionam a relação do cinema com o real uma vez que, cronologicamente, a programação aborda um período particularmente rico em que se verifica, por exemplo, o reforço da utilização do não actor (Rouquier, Visconti), a deslocação do cinema para as áreas urbanas populares deixando as princesas de lado para filmar os operários e os marginais (Rogosin, Free Cinema) etc. O confronto com outros filmes sensivelmente do mesmo período, mas com abordagens radicalmente diferentes (Pollet, Reis, Pelechian) permite descobrir outros modos de revelação do real, seja através do recurso à poesia, seja através da própria ficção [26]”. 

O ciclo abriu com Cinema (2001) de Fernando Lopes uma encomenda “coerente com as linhas estratégicas da Odisseia nas Imagens visto que através deste filme se pretendeu homenagear o pioneiro portuense do cinema português Aurélio da Paz dos Reis, de modo a evocar a memória da cidade do Porto enquanto cidade de imagens [27]” e voltava a dar carta branca a Jean-Michel Arnold e a Annick Demeule do CNRS de Paris para um novo ciclo de Imagens da Ciência [28].  




A par deste núcleo duro de programação, este terceiro módulo dava igualmente sequência ao protocolo assinado com a Casa da Animação através de uma Retrospectiva dos Estúdios Filmógrafo [29], uma Retrospectiva do Cinema de Animação de Ladislas Starewitch [30], uma Retrospectiva da Animanostra [31] e uma Retrospectiva do Cinema de Animação Canadiano [32], iniciativas às quais estavam associadas diversas acções de formação ministradas por especialistas portugueses e estrangeiros. Outras acções de formação diziam respeito a workshops sobre Interactive Media [33], Improvisação Vídeo [34], Direcção de Fotografia Cinematográfica [35], Web Design [36], A Palavra no Cinema [37] e Imagens da Ciência [38].

O módulo integrava ainda O Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde com iniciativas pensadas para a Odisseia nas Imagens [39], bem como duas iniciativas com a RTP e uma com a Federação Internacional de Cineclubes. No primeiro caso tratava-se de dar seguimento à política de apoio a áreas de intervenção estratégicas como eram as curtas-metragens. Quanto à RTP, dado o intuito de prosseguir o debate em torno da descentralização do serviço público de televisão valorizando a sua componente regional, foram integradas na Programação duas iniciativas: a Mostra Atlântica de Televisão (MAT) [40] e o CIRCOM [41].

Habitualmente organizado pela RTP/Açores o MAT era um festival de documentários de Televisão tendo o mar como temática central. Realizava-se anualmente nos Açores com o apoio do governo regional, nele participando habitualmente todos os principais operadores de televisão europeus, públicos e privados, nomeadamente a BBC, RAI, TVE, FR3, televisões públicas escandinavas, bem como canais temáticos, como o Arte e produtoras especializados, como a Thalassa. Havia ainda uma presença significativa dos países africanos de língua oficial portuguesa e do Brasil. No âmbito do protocolo assinado entre a Capital Europeia da Cultura e a RTP o MAT 2001 teve lugar no Porto e nele discutiu-se, efectivamente, com repercussão na comunicação social, O Espaço Regional no contexto Audiovisual Europeu [42]. Já a reunião do CIRCOM, muito voltada sobre si própria, passou praticamente despercebida.




Quanto ao Congresso da Federação Internacional de Cineclubes [43] o apoio da Odisseia nas Imagens pressupunha a inclusão na agenda de um ciclo de cinema da Invicta Film, com o apoio da Cinemateca Portuguesa, bem como uma homenagem a um dos pioneiros do cineclube do Porto, Henrique Alves Costa. Pretendia-se com estas duas iniciativas retomar a memória histórica do cinema na cidade, mas conferindo-lhe um sentido prospectivo na medida em que apareciam associadas ao processo de recuperação de uma produção local, na altura centrada essencialmente nas escolas.

Este módulo foi amplamente noticiado recolhendo referências positivas em toda a imprensa. Os Cahiers du Cinema colocaram on line no seu sítio a programação de O Olhar de Ulisses. Na televisão, a RTP proporcionou uma visibilidade sistemática à Odisseia nas Imagens através do programa diário sobre a Capital Cultural acordado nos termos do protocolo assinado com a Sociedade Porto 2001.

Algumas lições foram igualmente extraídas. Como se previra, uma programação delineada nos termos em que esta o estava a ser corria o risco de assumir contornos imprevistos em função das dinâmicas que ela própria ia criando. Uma das dificuldades resultava da necessidade de dotar o modelo organizativo de maleabilidade e flexibilidade adequadas aos ajustamentos que se iam revelando aconselháveis. Isto porque o desenvolvimento de algumas iniciativas acabou por ser consequência de uma receptividade sempre crescente em relação à Programação – muitos eventos como O Olhar de Ulisses, os filmes concerto, as masterclasses de Os Lugares da Imagem e o ciclo Visconti, para citar apenas alguns, tiveram lotações esgotadas ou perto disso – o que terá contribuído para múltiplas novas solicitações por parte de parceiros e agentes sociais e culturais.



Exposição da Magnum a propoósito de The Misfits (Foto: Cesário Alves)


A extensão de Apocalípticos e Integrados, bem como a sua complexidade, imppôs uma clarificação de tarefas dos elementos residentes da Programação da Odisseia nas Imagens e a contratação temporária de outros colaboradores tendo em vista o cumprimento integral dos objectivos prosseguidos [44].



[1] . Catálogo O Olhar de Ulisses III – Utopia do Real, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2001, pp. 432-433.
[2] . Anexo I – p. 103.
[3] . Anexo I – pp. 81-99.
[4] . ibid.
[5] . Anexo I – p. 103.
[6] . Anexo – p. 107
[7] . Anexo I – p. 107.
[8] . Anexo I – pp. 110-113.
[9] . Anexo I – p. 110.
[10] . Anexo I – pp. 133-135.
[11] . Anexo I – pp. 135-36.
[12] . Anexo I – pp. 136-137
[13] . Anexo I – p. 138.
[14] . Anexo I – p. 143.
[15] . Anexo I – p. 151.
[16] . Anexo I – pp. 108-109.
[17] . Anexo I – pp. 125-126.
[18] . Ver Anexo I – pp. 171, 180-181.
[19] . Anexo I – p. 132.
[20] . Anexo I – pp. 127-132.
[21] . Anexo I – p. 127.
[22] . ibid.
[23] . Anexo I – p. 139.
[24] . Bénard da Costa, João – Luchino Visconti: o último esteta, Catálogo Violência e Paixão: os filmes de Luchimo Visconti, Porto 2001/ Odisseia nas Imagens, Porto, 2001, p.163.
[25] . Anexo I – pp. 115-125.
[26] . Anexo I – p. 115.
[27] . Anexo I – p. 113.
[28] . Anexo I – p. 121-125.
[29] . Anexo I – pp. 144-145.
[30] . Anexo I – pp. 146-147.
[31] . Anexo I – pp. 148-149.
[32] . Anexo I – pp.156-159.
[33] . Anexo I – pp. 145-146.
[34] . Anexo I – p. 150.
[35] . Anexo I – pp. 151.
[36] . Anexo I – p. 153.
[37] . Anexo I – p. 155.
[38] . Anexo I – p.156.
[39] . Anexo I – pp. 153-155.
[40] . Anexo I – p. 152.
[41] . Anexo I – p. 152-153.
[42] . Anexo I – p. 184.
[43] . Anexo I – pp. 143-144.
[44]. No que diz respeito aos recursos humanos, para dar corpo à Odisseia nas Imagens toda a organização de trabalho do departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia assentou num núcleo central de seis pessoas: Jorge Campos (Programador Responsável), Dario Oliveira (Assessor), Miguel Dias, Carla Morais, Pierre-Marie Goulet e Teresa Garcia. A distribuição de tarefas foi sendo determinada em função da própria lógica da Programação, ou seja, à medida que o caminho se ia fazendo. O trabalho conceptual da Odisseia nas Imagens foi da responsabilidade do responsável do departamento. Coube-lhe fazer o desenho da Programação no seu conjunto, bem como o trabalho de análise, inventariação e diagnóstico do panorama audiovisual e multimédia da cidade – contando, na primeira fase, com o apoio do Professor Artur Pimenta Alves, do INESC – os contactos com os protagonistas do sector e as negociações conducentes à assinatura dos protocolos e acordos elencados no Anexo I. Algumas destas tarefas foram apoiadas por Dario Oliveira. Com a Programação em marcha, os elementos da equipa foram sendo responsabilizados por eventos específicos. Dario Oliveira programou ciclos de cinema e ficou responsável pela programação multimédia, acompanhando os workshops desta área; Pierre-Marie Goulet e Teresa Garcia ficaram com o ciclo O Olhar de Ulisses e deram seguimento aos workshops e outras iniciativas da Associação, entretanto criada Os Filhos de Lumière; Miguel Dias esteve igualmente em O Olhar de Ulisses e noutros ciclos de cinema, dando apoio a toda a programação cinematográfica; Carla Morais não só coordenou toda a Produção como acabou por desempenhar tarefas aos mais diversos níveis, das relações públicas ao acompanhamento de sessões; e o responsável pelo departamento fez a coordenação geral da Odisseia nas Imagens, assegurou os contactos institucionais e programou os eventos mais directamente ligados às universidades e ao Festival do Documentário. Directamente ligados à Programação de O Olhar de Ulisses e de Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens estiveram igualmente ligados, respectivamente, José Manuel Costa da Cinemateca Portuguesa e Margarida Ledo Andión da Universidade de Santiago de Compostela. Independentemente do trabalho da equipa nuclear, em todos os módulos da Programação, foi necessário recorrer a um número crescente de contratados. Na primeira edição contou-se com a presença de mais dois colaboradores, na segunda de mais cinco, na terceira foram 17 e na última 44. Nos terceiro e quarto módulos da Programação foi ainda necessário contratar respectivamente uma e duas empresas de serviços técnicos qualificados. Houve ainda o envolvimento do Departamento de Produção, com o qual se estabeleceu uma relação prática e eficaz, ainda que limitada a um número reduzido de eventos e funções. – Nota do Autor.


5.4 Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens

O último módulo da Odisseia nas Imagens decorreu em vários espaços da cidade entre 10 de Setembro e 17 de Novembro de 2001. Abriu simbolicamente com o documentário O Porto da minha Infância (2001) de Manoel de Oliveira [1] e obedecia às orientações traçadas num texto introdutório denominado Pensar Glocal, Projectar o Futuro [2]. Aí se afirmava:

“Obedecendo a uma estratégia de criação de novos públicos, de dinamização do debate em torno das questões da imagem e dos novos modos de significar, de reflexão a propósito de um sector audiovisual cuja afirmação regional repercute em termos da afirmação global da realidade local, a Programação foi sendo ampliada e diversificada de módulo para módulo, aliando a componente lúdica a um quadro conceptual exigente e interpelativo, dando a ver aquilo que habitualmente não é visto e questionando aquilo que habitualmente não é questionado [3]”.

O texto prosseguia em jeito de balanço dos módulos anteriores:

“Assim, ao mesmo tempo que no ciclo ‘O Olhar de Ulisses’, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, se fazia a História do Documentário e se mostrava o Grande Cinema, eram dados incentivos às produções escolares e lançados numerosos ateliers, workshops e masterclasses nas áreas do Cinema, da Televisão e do Multimédia, todos eles com pedidos de inscrição muito superiores às vagas disponibilizadas. Retrospectivas de autor permitiram revisitar Visconti e dar a conhecer Errol Morris. Ciclos temáticos no domínio do digital e das imagens em 3D, instalações e filmes concerto, a partir dos quais se projectou um olhar renovado sobre os clássicos, deram corpo a um olhar experimental. Relevado o papel estruturador dos festivais, assumida a indispensabilidade da ligação às universidades e apontado o caminho para uma política local de incentivo à produção e exibição de documentários, animação e curtas metragens de ficção abriram-se pistas para o futuro [4]”.

Depois de sublinhar o objectivo de promover a produção multimédia e do documentário nas suas múltiplas modalidades, de modo não só a projectar a visibilidade da cidade e da região, mas também a fazer do Porto um pólo de produção, distribuição e difusão do noroeste peninsular, afirmava-se:

“Ponto de encontro de realizadores, produtores, operadores de televisão e outros agentes culturais, a Odisseia nas Imagens foi estruturada a pensar numa política virada para a identificação e aposta em nichos de mercado assente em critérios de racionalidade económica e de excelência ao nível do discurso. É uma forma de pensar local e agir global. É a política do glocal. Portanto, estes nichos de mercado não se esgotam em produções de difusão limitada, antes são encarados como parte integrante de um mercado consequente, por um lado, da segmentação e especialização televisivas, as quais abrem novas janelas de oportunidades e, por outro, do impacto estruturador produzido pelos festivais internacionais de cinema, televisão e multimédia nas indústrias culturais e no tecido económico dos países da União Europeia [5]”.

Em suma, em função do trabalho desenvolvido nos dois anos anteriores, das parcerias estabelecidas e do processo de internacionalização levado a cabo caminhava-se no sentido de dar forma a um festival de novo tipo, cuja presença ficaria assinalada não apenas através de uma grande iniciativa anual fortemente mediática com a duração de uma semana, mas também através de iniciativas escalonadas ao longo do ano resultantes do acordo com vários parceiros. Foi nesta altura que se chegou a acordo com a RTP por forma a promover uma extensão em antena da Odisseia nas Imagens, que, pela primeira vez, se colocou a possibilidade de uma colaboração regular com a Cinemateca Portuguesa com o intuito de trazer pelo menos parte da sua programação ao Porto, que se intensificaram as acções de formação e que se começou a trabalhar com as universidades em cursos de pós-graduação em documentário.

No caso da formação e do ensino superior, dando continuidade ao trabalho desenvolvido anteriormente, as opções estratégicas foram criteriosamente cumpridas. A título de exemplo: Workshop de Formação Intensiva para a Produção de Filmes [6] pela Associação Os Filhos de Lumiére, nascida durante a Odisseia nas Imagens; Wokshop de Pixilação orientado por Mercedes Gaspar [7]; Workshop Novas Tecnologias na Criação Audiovisual [8]; Workshop Produção de Documentários em África [9]; Simpósio Arte & Animação comissariado por Jayne Pilling [10]; Workshop Problemas de Autor na Europa [11]; Workshop O Som para Cinema e Audiovisual [12]; Pós-Graduação em Documentário: O Desafio do Real [13]; Seminário O Documentário [14]; Workshop Operação da Câmara Cinematográfica [15]; Workshop Produção de Curtas Metragens [16].

O modelo de festival a implementar estava, portanto, já definido em Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens: seria centrado no documentário e multimédia apostando, em simultâneo, na ocupação de múltiplos espaços, de modo a tirar partido de factores de proximidade e das capacidades logísticas da rede de parcerias, entretanto concretizadas; teria uma forte componente pedagógica constituída, nomeadamente, por masterclasses e workshops, e faria da excelência o critério exclusivo da sua programação de ciclos de cinema clássico, retrospectivas de autor, ciclos temáticos sobre a actualidade, fórums de reflexão, trabalhos experimentais e, naturalmente, também, de um sector competitivo no qual se enquadraria uma secção de filmes de escolas. Os custos seriam relativamente avultados, mas todo o trabalho de base estava praticamente concluído e tudo indicava, da parte dos poderes públicos, o apoio à continuidade da Programação da Capital Europeia da Cultura após 2001, parecendo igualmente viável a obtenção de patrocínios [17].  

No plano dos conteúdos este módulo evidenciava um conjunto de características cujas marcas deveriam ser seguidas no futuro. Em primeiro lugar, tratando-se do embrião de um festival de documentários e inscrevendo-se estes na actualidade, entendia-se que haveria sempre um conceito pertinente e actual a explorar no conjunto das múltiplas manifestações da Odisseia nas Imagens. Neste caso, atendendo à conjuntura internacional – o ataque terrorista às torres gémeas de Nova Iorque ocorreu no dia seguinte ao início de Como Salvar o Capitalismo/ Outras Paisagens – a escolha da designação foi quase premonitória.

Sobre Como Salvar o Capitalismo propunha-se a seguinte entrada:

“No último quartel do século XX, o que restava da utopia caminhou ao lado de regimes de mãos de ferro, a humanidade envolveu-se em sanguinolentas carnificinas e o homem conheceu um desenvolvimento científico e tecnológico sem precedentes, avançando na aventura do espaço e do ciberespaço. Fazendo uso do mapa genético, criou condições para se multiplicar laboratorialmente. Este admirável mundo novo é, na verdade, um mundo de luz e sombra, porventura de Frankenstein e da sua criatura, seguramente de ecrãs planos transportando dentro de si personagens sem espessura numa espécie de versão pós-moderna da paisagem orwelliana. Ruiram os mitos, tombaram os muros. Em que acreditar? Pois, salve-se, ao menos, o capitalismo! Por entre o amontoado de cacos e telelixo, reminiscências de um tempo que se acreditou poder ser justo, na desordem aparente que sugere uma nova barbárie ou, se preferirmos, nessa ordem aparente que promete uma ordem nova, haja, pois, lugar para um olhar oblíquo, transversal, provocatório [18]”.

Nesta linha foi ponderado um conjunto de iniciativas no qual se destacava uma retrospectiva de filmes de Willliam Klein [19] associada a uma série de exposições fotográficas do mesmo autor [20], bem como a um conjunto de masterclasses destinadas prioritariamente a discutir o documentário [21] num contexto de multiplicação de sinais de regresso ao real como contraponto da vacuidade da televisão e de um cinema de evasão de massas incapaz de reflectir sobre o mundo. Além de William Klein, as masterclasses foram ministradas por Nina Rosenblum, Dennis Watlington, Llorenç Soler, Javier Rioyo Amir Labaki e Brian Winston.  

William Klein

As declarações de William Klein sobre o ataque terrorista às torres gémeas após a exibição do seu filme Mr. Freedom (1967-68) foram largamente comentadas. Disse William Klein: “Se querem saber o que penso dos acontecimentos de 11 de Setembro, penso muitas coisas, e uma delas é que os americanos estavam a pedi-las; nos últimos dez anos, sempre que não têm nada para fazer, bombardeiam o Iraque [22]”. Nina Rosenblum, numa entrevista ao jornal Público, afirmava: “A missão do documentário é salvar a humanidade, mostrar os heróis, as pessoas que nunca recebem atenção dos media convencionais [23]”. Llorenç Soler proclamava a necessidade de libertar o documentário das leis do mercado e de encontrar uma distribuição alternativa e independente, de modo a recuperar “o velho grito de guerra: a câmara é uma arma [24]”. Sendo controversas estas e outras declarações contribuíram para gerar o clima de estímulo ao debate pretendido pelo ciclo.

Complementarmente foi programado um Fórum denominado O Choque das Imagens [25] organizado em três painéis – Imagens Globais, Equilíbrios Instáveis e Propagandas Silenciosas – destinado a debater o estado do mundo e a sua representação mediática com a participação, entre outros, de Ignacio Ramonet [26] e Margarida Ledo Andión. O Fórum Choque das Imagens convivia com Imagens de Choque [27], uma exposição de fotojornalismo da responsabilidade do Festival du Scoop et du Journalisme de Angers através da qual “o público pode ficar a conhecer a actualidade mundial do ano que passou: uma espécie de ‘stop and go’ que nos permite determinar o estado em que se encontra a nossa sociedade: documentos frequentemente chocantes, por vezes difíceis, são o reflexo da humanidade: reflexo esse que nunca poderíamos obter sem os jornalistas pois eles têm, como todos nós, o dever de informar [28]”.   

Quanto a O Olhar de Ulisses [29] manteve-se no quadro de uma programação cinéfila, compondo um mosaico de filmes, muitos deles raramente vistos em Portugal:

“A partir do momento em que André Bazin viu o cinema como ‘uma janela aberta sobre o mundo’, o cinema dominante teve uma clara tendência a transformar-se num jogo de vídeo em grande ecrã e o ecrã de televisão a tomar cada vez mais a forma de um buraco de fechadura ou seja o ‘visual’ tende a ocupar o lugar da ‘imagem’ como dizia Serge Daney. Nesse contexto, o quarto e último acto de ‘O Olhar de Ulisses’ procura construir redes de relação e leitura entre os filmes – faróis da história do cinema, pontos de referência indispensáveis – e as obras contemporâneas que teimam em respeitar quem as vê. Por isso este último andamento de O Olhar de Ulisses chama-se Resistência [30].


A programação do ciclo era encabeçada por uma citação de Jean-Luc Godard “Não pode haver resistência... sem memória” e apresentava filmes de Federico Fellini, Jacques Demy, Nicholas Ray, Boris Barnet, Robert Kramer, Luc Moullet, António Reis e Margarida Cordeiro, John Ford, Akira Kurosawa, Charles Laughton, Pedro Costa, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Jacques Tati, Chantal Akerman, Charlie Chaplin, Chris Marker, Jean-Luc Godard, Olivier Smolders, Abbas Kiarostami, Serguei Dvortsevoy e Johan van der Keuken, entre outros. No catálogo, José Manuel Costa introduzia uma nota de polémica – uma das raras em todo o ciclo – ao responder ao artigo de João Bénard da Costa Os filmes que nos vêem/os olhos que nos filmam, anteriormente citado. Dizia José Manuel Costa no início do seu texto:

“Para alguns isto será mera questão de nome, e dirão que o barulho vai dar em nada: uma vez que nenhuma destas diferenças nos impede de gostar muito, em consonância, de muitos dos mesmos filmes, incluindo daqueles a que uma das partes chama documentários e que a outra, diz que ‘o não são’, que interesse pode ter a polémica? Para mim tem um: interessa-me discutir esta área do cinema na medida em que me interessa a parte do cinema todo que nela é mais trabalhada. Discordar sobre a existência do documentário enquanto arte ou sobre a importância disso é perder muito mais do que um possível consenso de gosto sobre alguns outros filmes que à partida se inscrevem aí e aos quais esse consenso já não chega. O problema, claro, não é o documentário em si, mas a maneira como cada um vê qualquer filme. Ninguém gosta muito de um documentário só ‘porque é um documentário’. Mas, se se tem gosto pela área, vê-se e gosta-se de outras coisas nela e fora dela. Não escrevia este texto se não acreditasse que o que está em causa é uma maneira de ver o cinema todo e a história dele [31]”.

O texto não teve réplica, mas a última frase citada, como veremos adiante, convoca questões conceptuais cujo entendimento motivara já, muito antes da sua publicação, opções programáticas no sentido de uma abordagem do documentário em diálogo com áreas não estritamente cinematográficas. A relevância dada às linguagens multimédia, embora obedecendo a critérios plurais e assumindo formas muito distintas do documentário, foi já uma consequência dessas opções. Neste módulo, essas intervenções ganharam maior visibilidade. Explorando o carácter transversal das linguagens, apostando na diversidade, a programação ganhou evidência numa multiplicidade de lugares do espaço público, procurando interagir com os frequentadores habituais ou de circunstância desses mesmos lugares [32]. A porta de entrada de Outras Paisagens [33] era a seguinte:

“Que paisagens nos reserva a acção combinada dos media? Outras paisagens? Sim. Mas que paisagens? O limite da intervenção dos novos media é justamente a ausência de limites, porque neste território tudo é experimental. Aqui, o registo criativo é, simultaneamente, um registo de pesquisa gramatical. Da convergência e conflitualidade de várias linguagens resulta, pois, um peculiar modo de recriar quer o mundo sensorial, quer o mundo conceptual, abrindo-se as portas da percepção ao reconhecimento de lugares desconhecidos dentro do próprio homem e solicitando-se a inteligência intuitiva tanto como forma de racionalizar essa mesma experiência, quanto de inquirir sobre o seu destino. Outras paisagens: tão diversas quanto o seu campo de aproximação: do interior do corpo humano ao universo fabuloso das galáxias, do olhar sobre o tempo que passa à interrogação do tempo futuro [34]”.

À semelhança dos módulos anteriores, os filmes concerto [35] atraíram um público numeroso e um deles, Nosferatu (1919) de Frederich W. Murnau com música ao vivo dos Clã [36] continuou a ser apresentado em diversos pontos do país, pelo menos, até 2005.

Dois outros acontecimentos deixaram ainda uma marca para o futuro. Um respeitante ao cinema de animação. Outro, a um dos projectos externos ao qual foi dado seguimento, o Museu da Pessoa.

Quanto ao primeiro, era dada como irreversível a construção da Casa da Animação, circunstância associada à comemoração dos 25 anos do Cinanima, em Espinho. Na ocasião, a Odisseia nas Imagens patrocinou, nomeadamente, o lançamento de um livro e um CD-ROM ambos intitulados A História do Cinema de Animação em Portugal [37]. No catálogo do Festival podia ler-se:

“O Cinanima está de parabéns. Se todo o seu percurso fazia dele à partida um dos parceiros estratégicos da Odisseia nas Imagens do Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, integrando nomeadamente a sua Programação Oficial, os factos subsequentes só vieram confirmar a bondade das opções então tomadas. Na verdade, o Cinanima comemora os seus 25 anos exactamente no ano em que o Porto vai assistir à inauguração da sua Casa da Animação. E, em rigor, o percurso da Casa da Animação não principiou no momento em que a Filmógrafo apresentou o seu projecto à Sociedade Porto 2001, antes remonta ao tempo, há 25 anos, em que o seu principal animador, Abi Feijó, começou a frequentar o Cinanima. É esta função estruturante, feita de tempo e paciência, fazendo ver o que deve ser claramente visto, que releva a importância de um festival [38]”. 

Quanto ao segundo, um projecto multimédia preparado ao longo de meses pela Universidade do Minho em colaboração com formadores do Museu da Pessoa de São Paulo, foi oficialmente lançado na Estação de São Bento do Porto em 11 de Novembro de 2001 [39].

No plano cerimonial o ponto culminante da Odisseia nas Imagens terá sido a sua sessão de encerramento oficial – que não de facto – com a projecção de O Leopardo (1963) de Luchino Visconti [40], na presença do Presidente da República Jorge Sampaio e da actriz Claudia Cardinale, evento que esgotou com grande antecedência a lotação do Grande Auditório do Rivoli - Teatro Municipal e ocupou durante dias as páginas dos jornais [41]. O filme encerrava, simultaneamente, o Ciclo Visconti iniciado no módulo anterior. Mas, do ponto de vista da lógica da Programação o momento culminante foi o Festival Internacional do Documentário e Novos Média do Porto [42], bem como a Competição de Escolas a ele associado [43]. Isto, porque, no fundo, seria a partir dele que seria posssível começar a fazer o balanço do trabalho desenvolvido. Com efeito, na fase final do Porto 2001- Capital Europeia da Cultura, uma das questões mais vezes abordadas pelos seus responsáveis e pela comunicação social foi a possibilidade de dar continuidade aos eventos pensados para ficar, cumprindo, assim, as pontes para o futuro. Nalguns casos, como sucedeu com a Casa da Música, desde o início encarada como corolário da programação musical, em função dos compromissos institucionais a nível do Estado, essa questão não se colocou. Contudo, noutros casos a lógica dos eventos, embora obedecendo em termos genéricos a princípios estruturantes, obrigava a uma espécie de conquista de espaço de afirmação, com tudo o que isso implicava de garantia de apoios para efeito de continuidade ou para seduzir potenciais tomadores.

As parcerias estabelecidas pela Odisseia nas Imagens, a excelência da sua Programação unanimemente reconhecida, bem como os contactos informais estabelecidos através de diversos canais, pareciam abrir boas perspectivas para a continuidade do Festival Internacional do Documentário e Novos Média. Nesse sentido, foram feitas diversas declarações por parte dos responsáveis: “O que nós vamos deixar é um festival completamente estruturado, com um conjunto de parcerias devidamente elencadas. Caberá depois à cidade ser tomadora do projecto nos moldes que entender [44]”. A Coordenadora Geral da Programação Cultural do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, Manuela Melo, na nota de abertura do Catálogo da Odisseia nas Imagens [45], organizado já de acordo com o modelo do que no futuro se pretendia vir a ser o Festival [46], seguia a mesma linha de pensamento:

“Fica o modelo para quem quiser fazer da Capital Europeia da Cultura uma ‘ponte para o futuro’. O Festival, definido segundo estas linhas mestras, será, temos a certeza, o espaço de encontro, discussão, competição, criatividade, mas também de negócio e indução de indústrias da cultura. Um Festival que é urgente ter no nosso país, e centrado no Porto, pelo trabalho desenvolvido ao longo de dois anos e meio na sua concepção e criação de parcerias. (...) O que este Festival pretende – e pode ser se for olhado pelos responsáveis de forma adequada – é relançar o Porto e o Noroeste Peninsular na primeira linha de produção audiovisual e multimédia, tendo em conta as novas condições dos mercados globais [47]”.

No seu espaço semanal da revista Visão de 25 de Outubro de 2001 João Mário Grilo, num artigo intitulado Reticências, depois de se referir pormenorizadamente à programação de Cinema, escrevia a propósito deste último módúlo:

“Operação, a todos os níveis, impressionante, que se prolonga ainda no arte-vídeo, na instalação, no multimédia, a performance e numa pluralidade de exposições, conferêcias e masterclasses, este derradeiro episódio de ‘A Odisseia nas Imagens’ lança algumas bases seguras para prolongamentos futuros. Mas a maior expectativa vai para o que desta enorme experiência e esforço irá resultar: saber se da colheita destas imagens pode nascer uma nova geração de pessoas e ideias de que o audiovisual português está tão desesperadamente necessitado. Essa será, sem dúvida, a maior das Odisseias e a razão pela qual a paisagem cinematográfica da Porto 2001 tem, para já, no seu remate, umas reticências e um grande ponto de interrogação. Não é uma dúvida, mas um elogio e uma esperança [48]”.

A dúvidas de João Mário Grilo, no entanto, eram pertinentes por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, devido à constante volatilidade das políticas para o cinema, audiovisual e multimédia, muitas vezes elaboradas mais em função da conjuntura do momento, dos atritos partidários e de grupos corporativos do que fundamentadas em princípios estratégicos de médio e longo prazo. Em segundo lugar, porque a dimensão atingida pela Odisseia nas Imagens colocara a fasquia num patamar tão elevado, que, internamente, havia a percepção de se estar perante uma tarefa só exequível com meios relativamente avultados, embora, do ponto de vista da formação dos recursos humanos, tivessem sido criadas as condições indispensáveis. Essa foi, aliás, uma das preocupações traduzidas no Relatório de Avaliação Final [49].

Acresce que no plano político e no plano institucional uma série de episódios marcara negativamente a Capital Europeia da Cultura, nomeadamente o relacionamento entre a Sociedade Porto 2001 e a autarquia portuense [50], e embora a Programação no seu conjunto e a Odisseia nas Imagens, em particular, recolhessem um consenso alargado, a verdade é que os indícios, para além da instabilidade resultante do conflito mencionado, apontavam para uma mudança de ciclo político de consequências imprevisíveis para a continuidade das políticas e projectos culturais. Fosse como fosse, a verdade é que nesta fase se multiplicaram as manifestações de apoio, a começar pela voz dos seus principais participantes e convidados, bem como pela generalidade da comunicação social. O Júri da Competição Internacional, presidido por Nina Rosenblum, afirmava na sua declaração: “Um evento com o grau de excelência da Odisseia nas Imagens cumpre um papel insubstituível no estímulo à produção de documentários e na esfera dos novos media. Os nossos votos são de longa vida ao festival [51]”! Acrescentava em seguida: “Como nenhum outro género, os documentários tornam o mundo contemporâneo menos opaco. Um grande documentário cria uma forma própria que espelha a excepcionalidade do seu tema, ou dos seus protagonistas [52]”. Por sua vez, o Júri da Competição de Escolas alertava: “O Júri não pode deixar de chamar a atenção das instituições da região para a responsabilidade de não deixar morrer ou esmorecer esta iniciativa. Bem pelo contrário, devem revitalizá-la e alargá-la pelo seu valor estruturante no panorama cultural, designadamente no audiovisual [53]”. Na imprensa, para citar apenas um exemplo, no semanário Expresso de 17 de Novembro de 2001, António Loja Neves escrevia na abertura do seu texto A reflexão sobre o cinema:

“Na verdadeira saga que foi a programação, durante um ano, dividida por vários módulos, de ‘A Odisseia nas Imagens’, integrante das actividades do Porto 2001, o Festival Internacional do Documentário e Novos Média do Porto foi o acertado rematar de um conceito de programação que redimensiona a forma de olhar as imagens, o cinema, os filmes. E que reposiciona o espectador no propósito de o tornar interventor [54]”.

O articulista concluía assim:

“Dizia Walt Whitman: ‘Ver, ver, observar, abraçar a realidade, arrancar a máscara, esquartejar os pedaços da realidade, devorá-los, colocá-los em cruz’. Excelente receituário para um documentarista. Foi certamente o mote deste festival. Que o festival do Porto continue muito para lá do epifenómeno da Capital Europeia da Cultura. Porque é necessário [55]”.

Durante a fase final da Programação foram estabelecidos contactos com vista a garantir o apoio institucional indispensável à continuidade do Festival. A ideia era assegurar a sua componente de serviço público de apoio ao desenvolvimento de iniciativas no âmbito da produção audiovisual e multimédia que permitissem, a médio prazo, o aparecimento de um sector industrial com alguma pujança capaz de responder a solicitações do mercado mais tradicional, por um lado, e de desenvolver uma identidade própria em termos de produções de excelência numa lógica de ocupação selectiva de nichos de mercado. Em qualquer dos casos, tratava-se de prosseguir e consolidar as bases do trabalho levado a efeito por forma a contribuir para a definição de políticas descentralizadas para o audiovisual e, nessa medida, conferir um maior equilíbrio à visibilidade global do país. Os contactos decorreram, naturalmente, no contexto dos protocolos existentes e levaram, inclusivamente, a solicitação do IPAE (Instituto Português das Artes e Espectáculo) à elaboração de um primeiro documento tendo em vista a possibilidade de utilização da Casa das Artes como base de desenvolvimento e aprofundamento da Odisseia nas Imagens [56]. No jornal Público de 25 de Janeiro de 2002, o Ministro da Cultura Augusto Santos Silva avançava já algumas ideias a propósito da futura utilização desse equipamento cultural [57].

Mas, apesar das manifestações de apoio provenientes de diversos sectores, o facto é que a Odisseia nas Imagens, em boa medida devido à mudança de ciclo político, quer ao nível do poder local quer do poder central, não viria a ter continuidade. O último episódio desta aventura do olhar foi na RTP em cujo Canal 2 viria a conhecer uma extensão constituída por 14 programas [58].  


[1] . Anexo I – pp. 294-295.
[2] . Anexo I – pp. 187-190.
[3] . Anexo I – p. 187.
[4] . Anexo I – p. 188.
[5] . Anexo I – p. 189.
[6] . Anexo I – pp. 257-258.
[7] . Anexo I – p.259.
[8] . Anexo I – pp. 259-260.
[9] . Anexo I – p. 261
[10] . Anexo I – pp. 264-268.
[11] . Anexo I – p. 269.
[12] . ibid.
[13] . Anexo I – pp. 269-272.
[14] . Anexo I – p. 273.
[15] . Anexo I – p. 275.
[16] . ibid.
[17] . O orçamento global atribuído à Odisseia nas Imagens foi de 528.500.000$00, o equivalente a um pouco mais de 2,5 milhões de euros na moeda actual. Considerada prioritária em termos estratégicos, a área de Cinema, Audiovisual e Multimédia entendeu fazer a gestão dos recursos disponíveis adoptando uma lógica de prestação de serviço público a partir do qual se abrissem novas perspectivas, nomeadamente no que respeita à criação de uma massa crítica capaz de gerar iniciativas autónomas aos vários níveis da formação, criação, produção e distribuição. Sendo factor de desenvolvimento, mobilização e auto-estima da própria cidade e sendo a área da visibilidade por excelência, a Odisseia nas Imagens procurou optimizar os seus recursos próprios no contexto das suas múltiplas parcerias, indo buscar apoios ao exterior sempre que a situação o permitiu. Por exemplo, a maioria das accões de formação não teria sido possível sem o protocolo negociado com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, em colaboração com a Associação Empresarial de Portugal. Também o protocolo estabelecido com a Radiotelevisão Portuguesa (RTP) foi relevante não apenas em termos de promoção e divulgação, mas também na co-produção da série Estórias De Duas Cidades. A Cinemateca Portuguesa contribuiu para a programação de Cinema. Outros acordos permitiram suportar alguns custos, embora pouco significativos em função da previsão global das despesas. De qualquer modo, como se verifica através da análise das fichas dos projectos, por essa via foi possível cobrir gastos de algumas viagens e estadias. Estão neste caso, por exemplo, a comparticipação do ICAM nas despesas com a deslocação de realizadores da série Estórias de Duas Cidades a Roterdão, bem como do Instituto Francês, do Instituto Alemão e das embaixadas da Finlândia e do Canadá em projectos envolvendo actividades culturais com elas relacionadas. Em termos de gestão de orçamento o critério seguido foi de efectuar rectificações quando se verificaram desvios, sendo o défice num módulo descontado no orçamento do módulo seguinte. O desvio verificado no módulo final, insusceptível de rectificação, foi compensado com a candidatura ao Plano Operacional da Cultura do Festival do Documentário e Novos Média, a qual viria a merecer avaliação positiva. Em todo o caso, o incumprimento do orçamento inicial da Odisseia nas Imagens, foi uma nota negativa. - Nota do Autor. 
[18] . Anexo I – p. 193.
[19] . Anexo I – pp. 194-196.
[20] . Anexo I – pp. 197-198.
[21] . Anexo I – pp.199-216.
[22] . Anexo I – p. 310.
[23] . Anexo I – p. 313.
[24] . Anexo I – p. 312.
[25] . Anexo I – pp. 219-220.
[26] . Anexo I – pp. 322-333.
[27] . Anexo I – p. 220.
[28] . ibid.
[29] . Anexo I – pp. 246- 249.
[30] . Anexo I – p. 246.
[31] . Costa, José Manuel – Para além do documentário, in Catálogo O Olhar de Ulisses-Resistência, Odisseia nas Imagens/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2001, p. 328.
[32] . Anexo I – pp. 230-245.
[33] . Anexo I – pp. 226- 245.
[34] . Anexo I – pp. 226-227.
[35] . Anexo I – pp. 219, 227, 229.
[36] . Anexo I – pp. 217-219.
[37] . Anexo I – p. 264.
[38] . O texto completo está reproduzido no Anexo I – pp. 262-263.
[39] . Anexo I – p. 327.
[40] . Anexo I – pp. 249-250.
[41] . Anexo I – pp. 316-317.
[42] . Anexo I – pp. 221-226.
[43] . Anexo I – pp. 250-257.
[44] . Anexo I – p. 292.
[45] . Anexo I – p. 190.
[46] . No Catálogo apenas não estava incluída a parte respeitante a O Olhar de Ulisses, com catálogo autónomo, cuja função se considerava cumprida. No contexto geral do novo Festival estava prevista uma secção semelhante ao ciclo apoiado pela Cinemateca Portuguesa, naturalmente redimensionado e ajustado à lógica global do evento. - Nota do Autor.
[47] . ibid.
[48] . Anexo I – p. 306.
[49] . No Relatório levantavam-se, entre outras, as seguintes questões:
“a) O trabalho foi sendo desenvolvido na base de uma aprendizagem permanente por parte dos elementos do núcleo central do Departamento;
b) o quer dizer que, face às características das tarefas que se foram colocando, apesar da larga experiência de todos os elementos fundamentalmente no domínio do Cinema e da Televisão, foi necessário ultrapassar situações novas em relação às quais não havia experiência adquirida, nomeadamente na área do Multimédia;
c) por outro lado, em função da dinâmica da Programação, e à medida em que as solicitações foram aumentando, o grupo de trabalho foi sendo confrontado com ritmos cada vez mais absorventes e com maiores exigências resultantes da multiplicidade das tarefas que se foram colocando;
d) isto dificultou, por exemplo, o acompanhamento da concretização dos projectos externos, com reflexos nomeadamente ao nível do cumprimento de prazos e do controlo orçamental;
e) e teve, também, como consequência a necessidade de recorrer a um número crescente de colaboradores contratados,
f) os quais, a par dos elementos constituintes do núcleo central, acabaram por beneficiar de uma experiência a partir da qual se criaram verdadeiras equipas de produção e programação culturais habilitadas a desempenhar as tarefas mais complexas
h) e cujos saberes podem ser utilizados no curto e médio prazo”. - Relatório de Avaliação Final do Departamento de Cinema Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, sem páginas numeradas.
[50] . Não cabe aqui recuperar os episódios negativos respeitantes ao conflito mencionado. Fica, no entanto, a nota que a maioria deles teve relação com o processo de requalificação urbana levada a cabo durante a Capital Europeia da Cultura e relevou de um choque de competências entre as duas entidades. - Nota do Autor.
[51] . Anexo I – p. 225.
[52] . ibid.
[53] . Anexo I – p. 256.
[54] . Anexo I – p. 324.
[55] . ibid.
[56] . O documento, intitulado Linhas orientadoras para a Programação da Casa das Artes, está a seguir transcrito:
1. A Programação que se propõe para a Casa das Artes prossegue a experiência levada a cabo pelo Departamento de Cinema, Audiovisual e Mulitmédia da Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura no âmbito da Odisseia nas Imagens.
2. Essa experiência teve como objectivo desenvolver dinâmicas de criação de novos públicos associadas a acções de produção audiovisual, nomeadamente ao nível dos estabelecimentos de ensino superior, com o intuito de repercutir, a médio prazo, em competências acrescidas em termos de uma produção local de excelência entendida num contexto descentralizador.
3. Identificadas as capacidades instaladas e os saberes existentes foram apontadas como modalidades discursivas estratégicas o cinema de Animação, as curtas metragens de ficção e o documentário.
4. Todas estas modalidades discursivas dispõem, nos festivais existentes na área metropolitana do Porto – Cinanima, Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde e Odisseia nas Imagens – de capacidade de visibilidade, sendo que esses festivais desempenham, ou pretendem vir a desempenhar, uma função estruturadora em termos de incentivo à produção nacional.
5. Na lógica de programação da Odisseia nas Imagens a Cinemateca Portuguesa deu um contributo relevante na organização de ciclos de cinema integrados nos planos curriculares dos cursos universitários da área metropolitana do Porto ligados ao Cinema, Televisão e Jornalismo, reforçando, desse modo, a dinâmica de criação de novos públicos.
6. A justeza da estratégia adoptada é confirmada pela curva crescente de presença de público nas iniciativas da Odisseia nas Imagens, a qual, ao longo da sua programação nos anos de 2000 e 2001, se aproximou de um valor global, em termos de presenças, dos 80.000 espectadores.
7. A Odisseia nas Imagens revelou ainda enorme potencial de internacionalização, estabelecendo contactos com numerosos festivais e instituições internacionais de carácter cultural, com os quais ficou em aberto a possibilidade de estabelecer parcerias.
Em função do exposto, cujo desenvolvimento se encontra na memória descritiva da Odisseia nas Imagens, parece razoável propor uma programação que tire partido e dê continuidade ao trabalho realizado, nos seguintes termos:
1. Acertar Programação com a Cinemateca Portuguesa dentro do quadro conceptual desenvolvido pela Odisseia nas Imagens;
2. Estabelecer acordos com os festivais mencionados tendo em vista formas de colaboração regular traduzida em Programação;
3. Desenvolver diligências junto de outras entidades, nomeadamente o Fantasporto e os cineclubes, de modo a estudar possibilidades de cooperação com os mesmos objectivos;
4. Aprofundar os contactos com os estabelecimentos de ensino superior de modo a integrar a Programação da Casa das Artes nos respectivos programas curriculares, garantindo, assim, o impulso à criação de novos públicos;
5. Utilizar os espaços da Casa das Artes de modo articulado e coerente, com actividades multidisciplinares, de modo a criar atractivos e potenciar a diversificação dos públicos;
6. Desenvolver parcerias internacionais dando continuidade ao trabalho realizado, nomeadamente com o Museu de Arte Contemporânea de Vigo, na área Multimédia, e com os principais festivais internacionais de Documentário;
7. Acolher o Festival Odisseia nas Imagens concebido como o corolário do trabalho desenvolvido ao longo do ano, mantendo as suas características de Festival Internacional do Documentário e Novos Media, com forte participação escolar e uma internacionalização apostada no noroeste peninsular.
Estão em curso diligências no sentido de constituir a Associação Odisseia nas Imagens.
A Associação Os Filhos de Lumiére prossegue a sua actividade quer através da realização de workshops no Teatro do Campo Alegre, quer com programação de Cinema na Fundação de Serralves.
Do exposto, daquilo que foi dito e daquilo que se pode inferir, parece lícito esperar dos poderes públicos uma atitude construtiva no sentido de dar continuidade a este projecto”.
[57] . Anexo I – p. 32
[58] . Ver o texto publicado no Anexo III – p. 24, da autoria de João Mário Grilo.




5.5 Programação do(s) documentário(s) na Odisseia das Imagens

O intuito de fazer do documentário o eixo dominante em torno do qual deveria estruturar-se a Programação de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura foi assumido desde a primeira hora. Apesar da diversidade de iniciativas neste domínio em toda a Europa, nenhuma parecia susceptível de servir de modelo a um propósito tão exigente e dilatado no tempo quanto se afigurava a Odisseia nas Imagens, pensada para cumprir um calendário de dois anos ao longo dos quais era suposto ser capaz de criar uma rede de parcerias indispensável à sua continuidade no futuro.

Por isso, logo se percebeu a necessidade de lhe conferir um carácter experimental, com um primeiro ano mais circunscrito a uma visão essencialmente cinematográfica, assumindo, portanto, a matriz fundadora do olhar do cinema, e um segundo ano durante o qual, mantendo embora essa mesma matriz como referência, se propunha trabalhá-la em diálogo com outros modos de encarar o documentário. Deste modo, esperava-se no primeiro ano não só cativar o público em geral com uma programação de elevada qualidade, recuperando o documentário através de episódios e filmes fundamentais da sua História, mas também possibilitar ao público escolar uma perspectiva que se sabia ser, em muitos casos, dele praticamente desconhecida.

Nesse sentido, cedo se percebeu que O Olhar de Ulisses deveria funcionar como uma espécie de parede mestra do edifício em construção. Mas, como se depreenderá das notas dissonantes introduzidas na descrição da programação, também cedo se percebeu ser necessário encontrar um ponto de equilíbrio no sentido de enquadrar as diversas maneiras de encarar o documentário, tanto mais que O Olhar de Ulisses, independentemente da excelência dos seus filmes e da justeza da prioridade atribuída ao cinema, sobretudo a partir do segundo módulo, começou a proceder reactivamente quanto à possibilidade de contraponto de narrativas do presente alicerçadas em linguagens recolhendo subsídios de outras áreas exteriores ao cinema.  

A lógica da programação do documentário em O Olhar de Ulisses foi estabelecida aceitando como ponto de partida uma organização temporal – idêntica à concebida para a Odisseia nas Imagens no seu conjunto –, identificando episódios fundamentais, mas sem impor qualquer tipo de espartilho conceptual, antes permitindo aos programadores completa liberdade de acção. Estabeleceu-se que o primeiro episódio ocuparia a História do Documentário até ao advento do cinema sonoro, devendo chamar-se O Homem e a Câmara, numa alusão a Dziga Vertov e a um tempo em que a imagem fora rainha. O segundo episódio, O Som e a Fúria, deveria cobrir a fase compreendida entre o advento do cinema sonoro e o pós-guerra, uma época crítica durante a qual a voz chegou ao documentário e este teve expressão noutros media e foi colocado de uma forma sistemática ao serviço da propaganda. O terceiro episódio, centrado fundamentalmente na revolução operada nos anos 60 do século passado, teria como núcleo duro o direct cinema, o cinema vérité, bem como outros movimentos precursores como o neo-realismo italiano e o free cinema britânico ou movimentos marcantes da época como a nouvelle vague francesa. O quarto e último episódio seria essencialmente dedicado ao documentário do presente.

Ficou igualmente decidido que todos os módulos da Odisseia nas Imagens, independentemente da ampla divulgação feita através da comunicação social e da edição de catálogos, seriam profusamente publicitados através da edição periódica de um pequeno jornal. Esse jornal, constituindo um guia para o público pretendia ser, igualmente, um espelho da lógica global da programação [1].

Ocupando um lugar central na Odisseia nas Imagens, uma vez que para além da programação dos filmes era suposto proporcionar um conjunto de propostas conducente à reflexão sobre o documentário – a publicação do respectivo catálogo, bem como a presença de numerosos especialistas na introdução e debate das obras deveriam responder a esse propósito – O Olhar de Ulisses tem, naturalmente, prioridade na revisão crítica sobre as opções programáticas e suas consequências. Num segundo momento, reflectir-se-á sobre a presença de outros ciclos e iniciativas onde diversos tipos de documentários estiveram, igualmente, presentes.


[1] . Ver alguns exemplos no Anexo III – pp. 55-61, 74, 78-79.


5.5.1 Odisseia nas Imagens I – O Homem e a Câmara

O Olhar de Ulisses I - O Homem e a Câmara [1] principiou a 3 de Maio de 2000 com A Criança Cega (1964) de Johan Van Der Keuken, filme que coloca simbolicamente o problema do olhar através da difícil aprendizagem dos cegos na sua relação com o mundo, prosseguindo com Louis Lumière (1961) de Eric Rohmer, durante o qual Jean Renoir e Henri Langlois falam das origens do cinema e retomam a questão do olhar. Seguiam-se quatro filmes de Aurélio da Paz dos Reis (1896), remetendo para as primeiras imagens do cinema português, com passagem para Pela Primeira Vez (1967) um curto documentário do cubano Octávio Cortazar onde se mostra a visita de um cinema ambulante a uma aldeia perdida na Sierra Maestra, cujos habitantes nunca tinham visto um filme. Cortazar mostra as reacções do público à projecção de Tempos Modernos (1935) de Charlie Chaplin. Os filmes seguintes Citizen Langlois (1994) de Edgardo Cozarinsky e O Olhar de Ulisses (1994) de Theo Angelopoulos completaram a introdução do Ciclo. O primeiro funciona como uma espécie de guia inspirador do que viria a ser uma Programação obedecendo essencialmente a critérios de Cinemateca – o exemplo de Henri Langlois seria recorrentemente evocado – e o segundo remete para uma espécie de busca de um olhar revelador e primordial só ao alcance do cinema.

Esse propósito está, aliás, de algum modo expresso no texto introdutório do respectivo Catálogo assinado por dois dos programadores, Pierre-Marie Goulet e Teresa Garcia, quando recuperam uma passagem de L’homme à la caméra de Serge Daney e Louis Skorecki publicado no jornal Líberation: “Os cineastas habitam ainda um país que não figura em nenhum mapa geográfico. Porque ele engloba-os a todos. Esse país é o cinema e ainda estamos a tempo de o explorar - pelo interior [2]”. As páginas seguintes reproduzem excertos de uma troca de correspondência entre Manoel de Oliveira e o principal responsável da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa a propósito de A Carta (1999), filme de Oliveira, textos esses que dialogam em torno do cinema e das outras artes.

Os blocos seguintes fizeram a previsível passagem para os filmes sinfonia e o cruzamento com as vanguardas artísticas dos anos 20 e 30, tal como acontece em qualquer História do Documentário. Neste caso, como, aliás, no módulo seguinte, parece evidente a influência do alinhamento dos textos do clássico de Mark Cousins e Kevin Macdonald, Imagining Reality [3], na sua edição de 1996. As sessões do dia 4 de Maio mostraram os seguintes filmes, assim ordenados: Rien que les Heures (1926) de Alberto Cavalcanti, Berlim, Sinfonia de uma Cidade (1927) de Walther Ruttmann [4], O Homem da Câmara de Filmar (1929) de Dziga Vertov [5], A Ponte (1928) de Joris Ivens, A Chuva (1929) de Joris Ivens, Images d’Ostende (1929-30) de Henri Storck e Douro, Faina Fluvial (1931-1995) de Manoel de Oliveira, na sua última versão com música de Emmanuel Nunes. No dia seguinte: Philips Radio (1931) de Joris Ivens, Novas Terras (1934) de Joris Ivens, Las Hurdes (1932) de Luis Buñuel, Misère au Borinage (1933) de Joris Ivens e Henri Storck, Manhatta (1921) de Paul Strand e Charles Sheeler, L’Étoile de la Mer (1928) de Man Ray, Un Chien Andalou (1929) de Luis Buñuel, Une Idylle à la Plage (1931) de Henri Storck, L’Hippocamp (1934) de Jean Painlevé e La Carosse d’Or (1952) de Jean Renoir.

La Carosse d’Or (1952) de Jean Renoir

Esta selecção, que culmina com a deriva do filme de Renoir num sublinhado de exclusividade da imaginação – a fita passa-se num país inventado da América do Sul e propõe uma aproximação ‘realista’ a uma situação improvável – segue uma linha coerente em relação à qual prevalece o sentido de uma ética do olhar, mesmo quando mergulha no surrealismo de Buñuel do qual se pode extrapolar, por exemplo, o sentido metafórico da célebre cena do corte da córnea do olho em Un Chien Andalou. Essa ética reflecte-se particularmente em Misère au Borinage e na sua recusa de emprestar qualquer tipo de glamour às imagens respeitantes às condições de vida miseráveis dos mineiros. Os filmes de Storck inscrevem-se numa dimensão poética, bem como os dois primeiros de Ivens, mas Misère au Borinage revela já outro tipo de preocupações. Apesar de não constar do respectivo catálogo, foi ainda exibido o Kino Pravda 21, numa referência à tradição de newsreels, na terminologia de Rotha [6], que antecedeu O Homem da Câmara de Filmar.

No dia 6 e 7 de Maio o ciclo enveredou pela exploração criativa de outra filiação clássica do filme documentário, à qual surgem genericamente associados os travelogue e as fitas de aventuras. Assim, no dia 6, as sessões começaram com filmes dos operadores Lumière de 1896 primeiro em Roma, depois no Cairo, em 1897, com fotografia de um dos seus mais famosos correspondentes Alexandre Promio. Estes últimos foram pretexto para exibir de seguida Le Caire...Raconté par Chahine (1991) de Youssef Chahine, A Estação do Cairo (1958) também de Chahine a que se seguiu A Caminho do Sul (1980-81) de Johan Van Der Keuken e Tabu (1931) de Frederich W. Murnau e Robert Flaherty. No dia seguinte: Descrição de uma Ilha (1977-78) de Rudolf Thome e Cyntia Beatt seguido de dois clássicos de Robert Flaherty, Nanook of the North (1922) e Moana (1926). É significativa a escolha de Le Caire...Raconté par Chahine, um filme feito para a televisão, mas que dela se distancia na recusa de estereótipos e evidências, procurando antes assumir um tom reflexivo e, de algum modo, experimental.

Nos últimos dias 8,9 e 10 de Maio – deixamos de lado a programação de Jean-Michel Arnold e Annick Demeule em Arqueologia e Desvios do Cinema Científico [7], de resto, enquadrada com a filosofia de O Olhar de Ulisses – o ciclo, concebido um pouco à imagem do que seria a montagem de um filme, como que cumpre uma trajectória circular, regressando ao olhar, mas culminando com um final em aberto, irónico e divertido, suscitando a questão do real e da ficção e deixando a pairar dúvidas sobre os limites da verdade e da mentira.

Assim, no dia 8, as sessões obedeceram ao seguinte alinhamento: In the Land of the War Canoes (1914) de Edward S. Curtis, para muitos o inspirador do chamado método Flaherty de certo nodo já posto em prática neste filme; seguiram-se Grass: a Nation Batlle for a Life (1925) da dupla Cooper/ Schoedsack desta vez acompanhada pela jornalista e aventureira Marguerite Harrison, reportando a saga da tribo dos Bakthiari, pastores nómadas iranianos que migravam duas vezes por ano em busca de pastagens para os seus gados, Chang (1927), da mesma dupla, sobre a selva mítica da Ásia e o seus perigos e filme do qual resultaria, como corolário, King Kong (1933) igualmente de Merian Cooper e Ernest Schoedsack; a última sessão encerrava com uma nova deriva, agora O Salão de Música (1958) de Satyajit Ray onde, a pretexto do prazer da música se estabelece o confronto da decadente aristocracia feudal indiana com uma burguesia emergente e ávida de poder. Apropriadamente, a noite terminava com um concerto ao vivo de Sharmila Roy [8].

A primeira sessão do dia 9 de Maio começava com outro clássico das aventuras e viagens 90 Degrees South (1933) de Herbert Pointing sobre a trágica expedição de Scott ao Antártico e regressava à câmara de filmar com uma animação de Wladyslaw Starewicz, A Vingança do Cameraman (1911), seguida de The Cameraman (1928) de Edward Sedgwick e Buster Keaton, provavelmente o primeiro filme da História do Cinema a colocar a questão dos limites da intervenção jornalística em termos da espectacularização das imagens. A segunda sessão retomava Van Der Keuken com Criança Cega 2 (1966) e fechava com Peeping Tom (1960), filme de culto de Michael Powell sobre um serial killer que regista fotograficamente a morte das suas vítimas e que é uma profunda reflexão sobre o poder das imagens e do cinema.

A última sessão do dia 10 compreendia a Arqueologia e Desvios do Cinema Científico e fechava com F for Fake (1975) de Orson Welles, no qual o cineasta se diverte e interroga sobre a ideia de falsificação na arte e se assume como charlatão...

No total, excluindo os filmes programados em Arqueologia e Desvios do Cinema Científico, o primeiro episódio de O Olhar de Ulisses mostrou 44 filmes, assim distribuídos em função da origem: Estados Unidos da América – 10 (22,72%), França – 9 (20,45%), Holanda – 7 (15,90%), Bélgica – 3 (6,81%), URSS – 3 (6,81%), Portugal – 2 (4,54%), Reino Unido – 2 (4,54%), Alemanha – 2 (4,54%), Espanha – 1 (2,27%), Egipto – 1 (2,27%), Cuba – 1 (2,27%), Índia – 1 (2,27%), havendo ainda a considerar duas co-produções, uma Egipto/França – 1 (2,27%) e outra Grécia/França/ Itália – 1 (2,27%).

Para uma melhor compreensão da lógica da programação de O Olhar de Ulisses – veremos adiante como o ciclo iria evoluir no sentido do cinema de arte e ensaio preconizado, no essencial, pela política dos autores dos Cahiers du Cinéma –, independentemente da origem dos filmes, importa proceder ao escrutínio das tendências dominantes nos documentários exibidos em função de parâmetros conhecidos. Esses parâmetros tanto convocam critérios de historicidade quanto da teoria do documentário. Assim, as categorias de Rotha [9] a propósito da tradição do documentário parecem apropriadas no sentido de situar as áreas em que se inscrevem os diferentes filmes anteriores ou imediatamente posteriores ao advento do cinema sonoro. No entanto, serão porventura inapropriadas para a integração dos filmes posteriores, mais complexos, os quais combinam diferentes formas narrativas.

Neste domínio, será preferível recorrer aos modos de Nichols [10], eventualmente a Guynn e Plantinga, sem perder de vista que um mesmo filme integra, normalmente, uma variedade de vozes e de modos, podendo igualmente corresponder a diferentes tradições em simultâneo. Em qualquer dos casos, porém, sublinha-se que não se trata de qualquer tentativa de avaliar qualitativamente os filmes e muito menos a Programação do ciclo no seu conjunto, mas apenas de encontrar elementos que permitam caracterizar o seu percurso à luz de contributos da teoria do documentário e em função dos critérios delineados para o conjunto da Odisseia nas Imagens.

No caso do presente episódio, por razões óbvias retiramos do âmbito da análise os filmes dos pioneiros do cinema, a animação e as obras habitualmente identificadas como sendo de ficção, mesmo correndo o risco da eventual simplificação de questões complexas como as que respeitam ao debate da dicotomia documentário/ ficção, hoje uma questão central da teoria do documenário. Ficam, assim, de fora: Os filmes de Paz dos Reis, os filmes dos operadores Lumière, O Olhar de Ulisses, King Kong, O Salão de Música, A Vingança do Cameraman, The Cameraman, La Carosse d’Or, Peeping Tom.

Aplicando as categorias de Rotha parece razoável a seguinte colocação dos filmes: tradição naturalista ou romântica: Tabu, Nanook of the North, Moana, In the Land of War Canoes, Grass: a Nation Battle for Fight e Chang; tradição realista com filiação avant-garde: Rien que Les Heures, Berlim, O Homem da Câmara de Filmar, A Ponte, Chuva, Images d’Ostende, A Propos de Nice, Douro, Faina Fluvial, Philips Radio, Novas Terras, Las Hurdes, Manhatta, L’ Étoile de Mer, Un Chien Andalou, Une Ydylle à la Plage e L’ Hippocampe; tradição de newsreels: Kino Pravda 21 e O Homem da Câmara de Filmar; tradição da propaganda: Kino Pravda 21, O Homem da Câmara de Filmar, eventualmente Misére au Borinage, cujos autores, influenciados pela Revolução de Outubro e pelo cinema soviético fizeram a transição das vanguardas artísticas para os propósitos políticos e sociais. A maioria destes filmes poderia caber também nos modo poético e reflexivo de Nichols. O mesmo poderia dizer-se dos dois filmes de Van Der Keuken sobre as crianças cegas.  Os dois filmes de Chahine sobre o Cairo, Descrição de uma Ilha, A Caminho do Sul e Louis Lumière e F for Fake são predominantemente reflexivos. Pela primeira vez privilegia a observação e Citizen Langlois é expositivo. Desta classificação se resulta a evidência da prioridade dada à dimensão estética e a um cinema de dominante poética no sentido aristotélico da palavra.

Do conjunto de filmes apresentados ressalta a quase total omissão do cinema soviético, nesta fase de cunho essencialmente documental, com propósitos sociais e de propaganda, mas igualmente ligado às vanguardas artísticas e constituindo, provavelmente, o mais estimulante laboratório cinematográfico do período anterior ao advento do cinema sonoro. Todos os filmes do ciclo – ou quase todos – eram acompanhados por textos publicados no respectivo catálogo de 336 páginas: “inéditos ou reedições, textos teóricos, críticos, entrevistas, cartas ou ainda poemas [11]” pretendendo “acompanhar as projecções dos filmes, mas também prolongá-las tornando-se um instrumento de reflexão [12]”. Os autores dos textos originais, que complementam e interagem com reedições sobre as mesmas matérias, foram habitualmente os elementos destacados para introduzir o debate sobre os filmes durante as sessões.

Para este primeiro módulo de O Olhar de Ulisses foram convidados, para além de especialistas e cineastas portugueses, um número significativo de personalidades francófonas, nomeadamente Alok Nandi (autor e realizador), Gerald Collas (produtor de documentários), Gerald Leblanc (poeta e crítico de cinema), Jean-Louis Comolli (realizador e ensaísta), Jean-Michel Arnold (director do CNRS Images/medias), Olivier Smolders (realizador), Saguenail (realizador) e Serge Meurant (poeta, responsável do Festival de Cinema Documental "Filmer à tout prix") [13].

Tanto quanto uma leitura do catálogo permite apurar, naquilo que respeita aos textos respeitantes aos filmes, excluindo, portanto, introduções, correspondência epistolar e a parte reservada às Imagens da Ciência, há 29 originais, na sua maioria curtas, mas pertinentes notas sobre os filmes em apreço, e 24 reedições cujas proveniências são, na maioria dos casos, ou as Folhas da Cinemateca Portuguesa ou publicações francesas ou em língua francesa, com destaque para os Cahiers du Cinéma. Os textos de pendor mais teórico são fundamentalmente dois, um sobre Vertov e O Homem da Câmara de Filmar intitulado O Futuro do Homem da autoria de Jean-Louis Comolli, originalmente publicado no número de Verão de 1995 da Trafic nº 15 [14], o outro de José Manuel Costa intitulado Grandeza de Flaherty publicado pela primeira vez no catálogo Robert Flaherty editado pela Cinemateca Portuguesa em 1984 [15].  


[1] . Anexo I – pp. 27-34
[2] . Catálogo O Olhar de Ulisses I – O Homem e a Câmara, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, p. 14. 
[3] . Cousin, Mark e Macdonal, Kevin – Imagining Reality, Faber and Faber, London, 2006.
[4] . Filme aqui apresentado na sua versão muda. Como se viu, Berlim foi igualmente objecto neste módulo de uma exibição com partitura sonora de D. J. Spooky. - Nota do Autor.
[5] . Filme aqui apresentado na sua versão muda. Como se viu, O Homem da Câmara de Filmar com música ao vivo da Cinematic Orchestra inaugurou a Odisseia nas Imagens. - Nota do Autor.
[6] . Ver Capítulo I, 2.2. pp. 50-53.
[7] . Anexo I – pp. 31-34.
[8] . Anexo I – p. 31.
[9] . Cap. I – pp. 50-53.
[10] . Cap I – pp. 57-63.
[11] . Catálogo O Olhar de Ulisses I – O Homem e a Câmara, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, p. 15.
[12] . ibid.
[13] . Ver a lista completa dos convidados em Anexo I – p. 30.
[14] . Catálogo O Olhar de Ulisses I – O Homem e a Câmara, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, p. 47-69.
[15] . Catálogo O Olhar de Ulisses I – O Homem e a Câmara, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, pp. 154-172.



5.5.2 Odisseia nas Imagens II – O Som e a Fúria

Os programadores de O Olhar de Ulisses no texto introdutório de O Som e a Fúria voltam a convocar Comolli e, também, Serge Daney. Citando Comolli, afirmam: “Para a pergunta ‘O que é o documentário?’ a única resposta é a de André Bazin ‘O que é o cinema’ [1]”? Citando Daney:

“No mundo da televisão, tendo a alteridade quase totalmente desaparecido, deixou de haver bons ou maus procedimentos no que respeita à manipulação da imagem. Esta já não é ‘imagem do outro’ mas imagens entre outras no mercado das imagens de marca. E este mundo que já não me revolta, que só provoca em mim lassidão e inquietude, e precisamente o mundo ‘sem cinema’. Quer dizer sem este sentimento de pertencer à humanidade através de um país suplementar, chamado Cinema...E o cinema, vejo bem porque o adoptei: para que ele me adopte por sua vez. Para que ele me ensine a tocar com o olhar, infatigavelmente, a que distância de mim começa o outro [2]”.

Qualquer das citações é hiperbólica. Seja como for, são marcas de enunciação que permitem situar o espaço no qual se ira mover O Olhar de Ulisses.

O ciclo decorreu entre 17 e 24 de Setembro de 2000 tendo aberto com o chamado ciclo bretão de Jean Epstein: Finis Terrae (1928), Mor Vran (1929), L’Or des Mers (1931) e Le Tempestaire (1947), este último projectado numa sessão oficial de abertura antes de As Vinhas da Ira (1940) de John Ford. Epstein, antigo assistente de Louis Delluc e companheiro habitual de Blaise Cendrars, Abel Gance e Germaine Dulac, foi dos primeiros a perceber a importância diegética do som e os seus filmes são todos eles reveladores de um espírito experimental de forte densidade poética. Onde isso aparece pela primeira vez com toda a evidência é em Mor Vran, filme que de algum modo antecipa em quatro anos O Homem de Aran de Robert Flaherty. No plano da História e Teoria do Documentário a sua obra é das primeiras a poderem ser convocadas no sentido de debater abordagens onde o ficcional e o documental se fundem. Durante muito tempo praticamente ignorado pelos seus compatriotas o seu nome viria a ser recuperado em 1953, ano da sua morte, por Henri Langlois, impondo-se, desde então, como um dos incontornáveis do cinema francês. O facto de ter sido escolhido para abrir um ciclo historicamente dominado pelo documentário politicamente engajado e pela propaganda, outra das tradições relevadas por Paul Rotha, parece ter sido uma forma de alertar para outras visões do mundo marginais às correntes então dominantes. Já o filme de John Ford, baseado no romance homónimo de John Steinbeck sobre as consequências sociais da Grande Depressão, se destinava a deixar uma marca da época cronologicamente delimitada para O Som e a Fúria.

Nos dias 18 e 19 de Setembro manteve-se a dominante poética. Primeiro: A Terra (1930) de Aleksander Dovjenko, As Estações (1972) de Artavazd Pelechian, Trás-os-Montes (1976) de António Reis e Margarida Cordeiro e Man of Aran (1934) de Robert Flaherty seguido de um recital de canto e música tradicional da Irlanda a cargo de Fergus Cahill e Aonghus Lavelle. A seguir: O Vento (1928) de Victor Sjöström, A Corner in the Wheat (1909) de David Wark Grifriffith, um dos primeiros filmes de ficção com um forte comentário social, Trop Tôt, Trop Tard (1980-81) de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, acompanhados do seu inseparável engenheiro de som Louis Hochet, o que talvez explique a afirmação de Serge Daney segundo a qual este é um dos raros filmes que após o de Sjöström filmaram o vento, e The Edge of the World (1937) de Michael Powell, uma reconstrução de um acontecimento real numa ilha cujos habitantes a foram abandonando à medida que se foram apercebendo da impossibilidade de prosseguir o seu modo de vida. Sendo óbvio o modo como estes filmes dialogam entre si, é igualmente óbvio que uma tal selecção e organização justifica o artigo citado de João Bénard da Costa em que ele pergunta porque razão se lhes há-de chamar documentários.  

No dia 20 surgiram os primeiros exemplos dos documentários mais característicos da época. A passagem, feita através de filmes experimentais de Len Lye para o movimento criado por John Grierson no final dos anos 20 do século passado, incluia: Colour Box (1935), Rainbow Dance (1936), Trade Tatoo (1937) e N or NW (1937). Seguiam-se três clássicos, todos eles habitualmente considerados como sendo dos mais criativos produzidos no âmbito do movimento documentarista britânico, nomeadamente devido à utilização diegética do som: Coal Face (1935) de Alberto Cavalcanti, Night Mail (1938) de Harry Watt e Basil Wright e Spare Times (1939) de Humphrey Jennings. Vinham depois três filmes exemplares do cinema do New Deal Rooseveltiano: The Plow That Broke The Plains (1936) de Pare Lorentz, The River (1937) de Pare Lorentz e The Land (1942) de Robert Flaherty. A última sessão do dia foi dedicada a Mr. Smith Goes to Washington (1939), uma obra mítica de Frank Capra sobre as virtualidades da democracia americana e referência obrigatória quando se fala da época do presidente Franklin Roosevelt.

As três sessões do dia seguinte obedeciam ao seguinte alinhamento: L’Espoir-Espoir Sierra de Teruel (1938) de André Malraux, The Spanish Earth (1937) de Joris Ivens, Início (1967) de Atavazd Pelechian, Le Dix-Septiéme Parallèle (1967) de Joris Ivens, The 400 Millions (1939) de Joris Ivens e Os Anjos da Avenida (1937) de Yuan Mushi, filme chinês seleccionado provavelmente por ser contemporâneo do filme anterior, igualmente localizado na China e revelador de uma outra face desse imenso país.

A 22 e 23 de Setembro a programação deu sequência lógica às propostas dos dois dias anteriores, alinhando mais uma série de filmes obrigatórios em qualquer História do Documentário e cruzando-os, a propósito, com obras de referência da História do Cinema. As sessões do dia 22 principiaram com The Blitz Wolf (1942) de Tex Avery, uma hilariante animação satirizando Hitler, seguido de O Triunfo da Vontade (1935) de Leni Riefensthal. Depois, dois filmes do seriado de Frank Capra Why We Fight: The Nazi Strike (1942) e The Battle of Rússia (1943). O dia terminava com To be or not to be (1942) de Ernst Lubitsch, uma comédia montada em torno do nazismo. A 23, na sessão do início da tarde, regressaram os filmes do movimento documentarista britânico: An Airman Letter To His Mother (1941) de Michael Powell, London Can Take It (1940) de Humphrey Jennings e Harry Watt, Listen to Britain (1942) de Humphrey Jennings e Fires Were Started (1943) também de Humphrey Jennings. Depois duas curtas metragens canadianas de animação de Norman McLaren: V For Victory (1941) e Keep Your Mouth Shut (1944). A sessão a meio da tarde era preenchida com Alemanha Ano Zero (1947) de Roberto Rosselini e para a noite foram programados Histoire du Soldat Inconnu (1932) de Henri Storck e Les Carabiniers (1963) de Jean-Luc Godard.

Para o último dia do ciclo estavam reservados para a primeira sessão Le Six Juin à L’Aube (1945) de Jean Grémillon e Nuit Et Brouillard (1956) de Alain Resnais, para a segunda Hiroshima Nagasaki: August 1945 (1945) de Akira Iwakasi e Erik Barnow – trata-se de um documentário de 16 minutos montado a partir das primeiras imagens filmadas logo após a explosão das bombas atómicas, imagens essas que estiveram confiscadas durante cerca de 50 anos pelas autoridades americanas – e Hiroshima, Mon Amour (1958) de Alain Resnais, sendo a sessão da noite dedicada a Manoel de Oliveira com O Pintor e a Cidade (1956) e Aniki Bóbó (1942).

No total, o segundo episódio de O Olhar de Ulisses mostrou 52 filmes, assim distribuídos em função da origem: Estados Unidos da América – 13 (25,00%), Reino Unido – 13 (25,00%), França – 11 (21,15%), URSS (incluindo a Arménia) – 3 (5,76%), Portugal – 3 (5,76%), Canadá – 2 (3,84%), Alemanha – 1 (1,92%), Bélgica – 1 (1,92%), Itália – 1 (1,92%), China – 1 (1,92%), havendo ainda a considerar três co-produções, uma Egipto/França – 1 (1,92%), outra França/Espanha – 1 (1,92%) e uma terceira Japão/Estados Unidos – 1 (1,92%).

Tratando-se de um conjunto de filmes que no plano da historicidade correspondem muitas vezes a uma fase de transição não parece descabido procurar as tendências dominantes através de uma leitura que convoca, em simultâneo, as categorias de Rotha e de Nichols. Essa leitura cruzada, porém, não coincide inteiramente com o ponto de vista de ambos os autores quando se referem a alguns dos filmes aqui nomeados, o que é natural, uma vez que a sua inserção numa ou noutra tradição, num ou noutro modo, dependem da interpretação.  

Para efeito de elucidação de um ponto de vista quanto à escolha dos documentários de O Som e a Fúria, por razões semelhantes às invocadas quanto ao módulo anterior, foram excluídas as seguintes obras: As Vinhas da Ira, Sortie(s) des Usines Lumière, The Wind, Corner in the Wheat, The Edge of the World, os quatro filmes de animação de Len Lye, Mr Smith Góes To Washington, Os Anjos da Avenida, a animação de Tex Avery, To be or not to be, As duas animações de Norman McLaren, Alemanha Ano Zero, Les Carabiniers, Hiroshima, mon Amour e Aniki Bóbó [3].

De acordo com a tradição de Rotha, com todo o peso aleatório que a decisão possa comportar, avança-se com a seguinte proposta de enquadramento dos filmes: tradição romântica ou naturalista: o ciclo bretão de Jean Epstein, A Terra, O Homem de Aran, Coal Face, Night Mail e The Land; tradição realista associada ao experimentalismo: O ciclo bretão de Jean Epstein, A Terra, Coal Face, Night Mail, Spare Time, Listen to Britain, Fires Were Started, The Plain That Broke the Plains, The River, L’Espoir e Spanish Earth; tradição de newsreels: London Can Take It, The Plain That Broke the Plains, The River, os dois filmes de Frank Capra da série Why We Fight, Hiroshima Nagasaki: August 1945; tradição de propaganda: A Terra, Coal Face, Night Mail, Spare Times, The Plain That Broke the Plains, The River, The Land, L’ Espoir, The Spanish Earth, Paralelo 17, The 400 Millions, O Triunfo da Vontade, os dois filmes de Frank Capra da série Why We Fight, An Airman Letter To His Mother, London Can Take It, Listen to Britain e Fires Were Started.

Neste enquadramento há dois aspectos a considerar: o primeiro o peso da tradição da propaganda, o segundo o facto de a quase totalidade dos filmes se inscrever em, pelo menos duas categorias, por vezes em três.

Vejamos o primeiro. William Guynn entende que cada teoria do documentário transporta consigo a marca do momento histórico durante o qual foi criada. Ora a época de O Som e a Fúria foi justamente marcada pelo fenómeno da convergência da expansão dos media, em particular a rádio e o cinema, com a propaganda. Esta, porém, em boa medida devido ao exemplo do cinema soviético, não tinha, como tivemos ocasião de verificar, o sentido que hoje lhe é atribuída, embora se lhe reconhecesse o primado do valor instrumental. Daí a coabitação de filmes tão diferentes quanto aqueles que estão inscritos nessa tradição. Acresce, tal como aconteceu com o cinema soviético, que muitos dos filmes realizados nesse âmbito não só tiveram uma componente experimental e vanguardista – por exemplo, Coal Face, Night Mail, de certa forma os filmes de Pare Lorentz e L’Espoir, sem dúvida os de Humphrey Jennings e Spanish Earth –, como também não esqueceram as lições de Flaherty, cuja poética se fez sentir em filmes das mais diversas origens e, nomeadamente, no movimento documentarista britânico.

Poderá surpreender a colocação de The Plain That Broke the Plains e de The River [4] também na tradição de newsreels. Contudo, quer um quer outro têm uma ordem expositiva e informativa que, ao contrário, por exemplo, dos filmes de Flaherty, em relação aos quais não é descabido falar em ficção do real, praticamente dispensa os sintagmas narrativos [5]. Nesse sentido, as imagens perdem autonomia face a uma voz que comanda. Em todo o caso, importa não perder de vista o modo como deve contextualizar-se esta tradição lembrando, por exemplo, a tentativa de alguns jornais cinematográficos da época adoptarem os procedimentos da narrativa clássica que surgiu logo após o advento do cinema sonoro.  

Quanto ao segundo aspecto, o enquadramento de um mesmo filme em mais de uma categoria, pode ser interpretado, antes de mais, como uma forma de resistência dos filmes à catalogação. É certo estarmos perante um conjunto de obras de referência do cinema documental e, nesse sentido, a sua escolha é óbvia. Mas a essa escolha, dada a complexidade de alguns desses filmes, também parece corresponder uma opção não tanto pela desconstrução do óbvio, que existe, mas, sobretudo pela ideia de colocar o debate sobre o cinema no centro das atenções, impressão reforçada pela leitura da malha obtida através da tipologia de Nichols.   

Com efeito, aplicando a tipologia de Nichols – uma vez mais, alertando para a aleatoriedade do método – e convocando os filmes não incluídos na tradição de Rotha obtém-se um quadro, porventura mais claro da orientação programática: modo poético: ciclo bretão de Jean Epstein, A Terra, As Estações, O Homem de Aran, The Plain That Broke the Plains, The River, The Land, Trás-os-Montes, Coal Face, Night Mail, Spare Time, Fires Were Started, O Início, Le six Juin à L’Aube e An Airman Letter To His Mother; modo expositivo: The Plain That Broke the Plains, The River, The Spanish Earth, Paralelo 17, The 400 Millions, O Triunfo da Vontade (apesar da ausência de texto em off) os dois filmes de Frank Capra da série Why We Fight, London Can Take It e Le six Juin à L’Aube; modo de observação: O Triunfo da Vontade; modo participativo: L’ Espoir, The Spanish Earth e Nuit et Brouillard; modo reflexivo: A Terra, Trás-os-Montes, As Estações, Trop Tôt, Trop Tard, L’ Espoir, The Spanish Earth, Nuit et Brouillard e O Pintor e a Cidade; modo performativo: Listen to Britain e Nuit et Brouillard.

A preferência dada às vozes mais poéticas e aos modos mais complexos – mesmo os filmes inscritos no modo expositivo são bastante mais sofisticados no plano da narrativa do que o lugar que lhes foi destinado poderia levar a pensar –, bem como a organização dos filmes através de uma montagem que faz ressaltar os seus elementos significantes, problematizando a linguagem, apontam no sentido da explicitação da ideia de documentário contida na citação inicial de Serge Daney. Sendo assim, a articulação das obras é duplamente relevante, pois permite, por um lado, uma certa continuidade temática, por vezes, privilegiando o confronto – o choque de elementos de sinal contrário, como diria Eisenstein – e, por outro, valoriza uma concepção depurada do cinema, particularmente evidente nas derivas ficcionais.

Postas as coisas desta maneira, resta um problema: “Para a pergunta ‘O que é o documentário?’ a única resposta é a de André Bazin ‘O que é o cinema ” ? Questão: a citação de Comolli deve ser levada à letra? Alguma vez dela se fez prova? Ou tratar-se-á de um aforismo? Ou, ainda, pensando em Daney, será que há uma escatologia do cinema? Na Teologia, essa doutrina estuda os fins últimos do homem, interroga-se sobre o fim do mundo e convoca o Juízo Final...   

A importância da matriz cinematográfica, com todas as consequências daí decorrentes para o olhar, é um dado adquirido na História do Documentário, mas esta nem é necessariamente coincidente com a História do Cinema nem evita leituras transversais. De um modo geral, as publicações sobre a História do Cinema são, aliás, como já se fez notar, parcas a respeito do documentário, cuja presença é sempre marginal. Por isso, e por ter sido necessário dar resposta a questões até então sem resposta, ganharam autonomia a História e a Teoria do Documentário, multiplicando-se os estudos nesses domínios em relação aos quais as abordagens obedecem a preocupações diversificadas e contraditórias, divergindo, com frequência, os seus protagonistas.

Contudo, é justamente dessa diversidade que irradia a energia do documentário, como, de resto, aconteceu na fase cronológica de referência de O Som e a Fúria [6]. Naturalmente aos programadores compete proceder a uma exegese, de acordo com determinadas opções, por forma a encontrar uma linha de coerência assumida como denominador comum da programação e, nesse sentido, apenas deve relevar-se a excelência da generalidade dos filmes.

As opções do catálogo, desta vez com 348 páginas, levantam, porém, algumas interrogações. Verifica-se, com efeito, que o único texto apresentado sobre o GPO é da autoria de Langlois e foi publicado nos Cahiers du Cinema em Junho de 1966. Tem, evidentemente, valor histórico, mas depois da revisão crítica desenvolvida pelos investigadores e cineastas de língua inglesa, acaba por apresentar uma visão desajustada do movimento documentarista britânico. Não há nenhum texto de John Grierson, quando se sabe dele terem partido as primeiras reflexões teóricas em torno de um movimento sistematizado e operativo. Tão pouco de Paul Rotha. Aparecem apenas dois textos de origem anglo-saxónica, um retirado da autobiografia de Michael Powell a propósito de The Edge of the World e outro de James Agee a propósito de L’Espoir, publicado em 1947. Em relação aos documentários ingleses há uma curta recensão crítica sobre os filmes de Humphrey Jennings da autoria de Alberto Seixas Santos e sobre os filmes de Pare Lorentz há apenas um texto de José Manuel Costa de 1982. Em contrapartida, a propósito de Trás-os Montes há textos de Serge Daney, Rodrigues da Silva, Joris Ivens, Jean Rouch, Serge Meurant e ainda uma conversa de António Reis com Serge Daney e Jean-Pierre Oudart. Les Carabiniers conta com apontamentos de Gerard Collas, Jean-Luc Godard, Paul Vecchiali e Regina Guimarães e O Vento de Miguel de Castro Henriques, Saguenail, Manuel Cintra Ferreira e João Bénard da Costa. Man of Aran é igualmente objecto de uma mão cheia de referências. Parece, portanto, haver um certo desequilíbrio na abordagem das questões, deixando de fora matérias que poderiam esclarecer melhor o debate em torno do documentário, tanto mais que esse debate, historicamente, principiou justamente durante o período de referência deste módulo.    

O catálogo contou com 21 textos originais (sendo o dobro o número de reedições) e apesar das reservas apontadas não deixa, pontualmente, de dar corpo a estimulantes reflexões sobre o cinema e o documentário do nosso tempo. Nesse sentido são especialmente relevantes as conversas de Manoel de Oliveira com Antoine de Baecque e de António Reis com Serge Daney e Jean-Pierre Oudart publicada nos Cahiers du Cinema nº 276 de Maio de 1977.


[1] . Catálogo O Olhar de Ulisses II – O Som e a Fúria, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, p. 12.  .
[2] . Catálogo O Olhar de Ulisses II – O Som e a Fúria, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2000, p 13.  . 
[3] . Não quer isto dizer que estes filmes não tenham sido determinantes no sentido de conferir coerência ao conjunto da programação, simplesmente, de momento, procede-se apenas à avaliação dos documentários. - Nota do Autor.
[4] . Ver, a propósito de The River, Capítulo III – pp. 230-243.
[5] . Ver Cap. I – pp. 86-90.
[6] . Ver as referências a John Grierson e ao movimento documentarista britânico no Cap. III – pp. 186-206.








5.5.3 Odisseia nas Imagens III – Apocalípticos e Integrados - A Utopia do Real

No texto introdutório do catálogo do episódio seguinte de O Olhar de Ulisses, designado A Utopia do Real retoma-se uma frase de António Reis de há um quarto de século: “o cinema é um caso de vida ou de morte”. Evoca-se a circunstância do ciclo coincidir com “o cinquentenário da fundação de uma revista – Cahiers du Cinema – criada por André Bazin – que marcou profundamente a evolução do cinema e o acompanhou no seu devir durante as décadas seguintes [1]”. E assume-se – fazendo lembrar, de novo, Serge Daney – que desde que o mesmo Bazin viu o cinema como “uma janela aberta para o mundo” o cinema dominante “tem vindo a manifestar uma assustadora tendência para se transformar num jogo de vídeo em grande ecrã enquanto o ecrã de televisão toma cada vez mais a forma de um buraco de fechadura [2]”. Razão bastante para anunciar:

“Nesse contexto, o quarto e último acto de O Olhar de Ulisses, em Outubro de 2001, esforçar-se-á por construir redes de relação e leitura entre os filmes - faróis da história do cinema, pontos de referência indispensáveis, e as obras contemporâneas que teimam em respeitar quem as vê. A esse derradeiro andamento só podíamos por isso dar o título de RESISTÊNCIA [3]”.

Desta vez o catálogo tem 441 páginas e comporta 86 textos, nos quais não estão incluídos nem os textos introdutórios, nem os textos respeitantes ao ciclo Imagens da Ciência de Jean-Michel Arnold e Annick Demeule. Desses 86 textos 48 (55,81%) são de origem francófona, 25 são originais e os restantes reedições com origem fundamentalmente nas folhas e catálogos da Cinemateca Portuguesa, nos Cahiers do Cinema e na revista Trafic – foi a partir dela, recorde-se, que Serge Daney pretendeu lançar o seu projecto justamente designado Resistência.

O ciclo decorreu entre 15 e 22 de Março de 2001, mas, desta vez, convivendo com um leque de iniciativas obedecendo ao diálogo multidisciplinar previsto desde o início pela Odisseia nas Imagens, cuja sessão inaugural ocorreu a 14 de Março com a exposição dos fotógrafos da Magnum sobre a rodagem de Misfits e logo no dia seguinte contou, no espaço onde iria decorrer O Olhar de Ulisses, com um conjunto de masterclasses centrado nos Lugares da Imagem [4]. Em relação aos episódios anteriores este ganha em imprevisibilidade, não só porque reforça o desalinhamento face à História do Documentário, mas também porque obedece a um princípio de montagem onde são mais intensos os contrastes na criação de ambientes e mais complexas as relações estabelecidas pelos filmes entre si de sessão para sessão.

Farrebique (1946) de Georges Rouquier


A Utopia do Real começou com Farrebique (1946) de Georges Rouquier, passou para Les Inconnus de la Terre (1961) de Mario Ruspoli, considerado o pioneiro do cinema directo na Europa, centrou-se em La Terra Trema (1948) de Luchino Visconti, fez a estreia de Cinema (2001) de Fernando Lopes e fechou o primeiro dia com O Desprezo (1963) de Jean-Godard. O filme de Rouquier, um admirador de Flaherty, mostra a vida no campo através de uma leitura lírica e descontextualizada – não há nele sinais do tempo, por exemplo, da guerra cujo epílogo se tinha acabado de verificar – proporcionando uma visão poética onde actores não profissionais, a família de Farrebique, desempenham os seus próprios papeis na vida real, mas com plena consciência de estarem a representar.

A questão dos actores e a forma como a presença da câmara afecta os seus desempenhos é, aliás, transversal a todo o ciclo. Sucede com o filme de Ruspoli sobre os camponeses de Larzac, em relação aos quais a proximidade da câmara permite revelar na paisagem dos rostos o impasse a que os conduziu a sua condição e, claro, também com o filme de Visconti, obra obrigatória do neo-realismo italiano. O filme de Fernando Lopes – o realizador classificou-o como uma litania – é uma celebração do cinema de alguma forma reiterada (e problematizada) no filme de Godard onde Fritz Lang se representa a si mesmo enquanto realizador de um filme chamado Odisseia – magnífica alegoria: um poeta cego revisto por um cineasta com um só olho –, cujo produtor, o americano Jack Palance surge como intérprete de uma lógica industrial simultaneamente ambígua e pragmática, ameaçadora e estimulante.

As sessões do dia seguinte começaram com Georges Franju: Le Sang des Bêtes (1948), sobre os matadouros de Paris, Hotel des Invalides (1951), uma subtil crítica anti-militarista a propósito de uma visita guiada ao museu de guerra com texto dito pelo mais irreverente dos actores franceses, Michel Simon, e Os Olhos sem Rosto (1959) uma inquietante obra prima do cinema fantástico onde o medo e o belo estão sempre presentes e em confronto na escala das emoções inerentes à natureza humana. Franju, apesar de ter colaborado com Langlois na criação da Cinemateca Francesa, foi sempre um cineasta marginal, nunca se tendo identificado com a nouvelle vague. Fez 13 curtas metragens. Tal como aconteceu com muitos dos cineastas do pós-guerra, nomeadamente aqueles que integraram o Grupo dos 30, trabalhou por encomenda, mas conseguiu sempre transmitir o seu ponto de vista. Nos seus filmes, particularmente em Les Sang des Bêtes, as imagens parecem escapar ao real elevando-se a um plano pictórico quase surreal. A narração faz lembrar a de Las Hurdes de Buñuel.

Na sessão intermédia verificou-se o regresso de Flaherty com Louisiana Story (1948), provavelmente o mais complexo dos seus filmes, seguido de uma incursão no cinema de cunho documental de Abbas Kiarostami com Onde fica a casa do meu amigo (1987).  Qualquer dos filmes tem como protagonistas dois rapazinhos e o sentido de uma aprendizagem que pode ser feita independentemente de quem é suposto ensinar. Na última sessão, uma montagem de filmes com enfoque nas relações dos homens entre si e dos homens com a natureza: A Caça (1963) de Manoel de Oliveira, Os Habitantes (1970) de Artavazd Pelechian e a Floresta Interdita (1958) de Nicholas Ray.

No dia 17, a cada uma das sessões correspondeu apenas um filme e o ciclo propôs três modos de olhar a Índia – correspondentes a outros tantos modos de olhar o outro – através de três clássicos da cinematografia universal: o documentário de Rosselini, Índia Matri Bhumi (1958), filme charneira da obra do realizador com uma estrutura narrativa de algum modo semelhante a Paisà (1946) e que antecipa o seu trabalho para a televisão, O Rio Sagrado (1951) de Jean Renoir e a Balada da Estrada (1955) de Satyajit Ray, seguido de um concerto de música indiana pelos Bauls de Bengala [5].

Não foi ainda no quarto dia de A Utopia do Real que se anunciaram os filmes, em princípio, mais previsíveis tendo em conta o espaço cronológico convocado. Pelo contrário, o programa seguiu a via experimental, colocando o problema da criação artística e estabelecendo pontes com outros filmes já exibidos ou a exibir. Assim: Jaime (1974) de António Reis, sobre um doente esquizofrénico que ao cabo de 30 anos de internamento começou a pintar e escrever compulsivamente, e depois dois filmes de Jean Daniel Pollet, Le Horla (1966) e L’Ordre (1973), cujo denominador comum remete tanto para um sentimento de exclusão por parte dos protagonistas quanto para a consciência crítica de uma narrativa da qual se exclui qualquer discurso convencional, sendo que o último filme coloca um leproso, Raimondakis – cujo rosto deformado faz lembrar as gloriosas ruínas do mundo clássico recorrentemente filmadas por Pollet – a interpelar o espectador, cúmplice de uma ordem que exclui. Sessão intermédia: Méditerrannée (1963) de Jean Daniel Pollet e um singular Al Mummia (1969), única longa metragem de um discípulo de Rosselini, o egípcio Chadi Abdel As-Salam. Sobre o primeiro filme o realizador e Gerard Leblanc afirmam: “Trata-se de uma série de imagens captadas durante um ‘itinerário mediterrânico’ com a única preocupação de que cada imagem mostre, signifique, apenas uma coisa, uma só ideia de modo a ser uitilizada como uma palavra (que apenas adquire um significado definitivo em função do lugar que vai ocupar numa frase) [6]”. Finalmente: Le Mystère Picasso (1956) de Henri-Georges Clouzot sobre o método de criação do pintor e as sucessivas metamorfoses da sua pintura, e Un Monde Agité (2000) do escritor, fotógrafo e cineasta francês Alain Fleischer sobre o cinema da Belle Époque a partir de uma colagem de imagens de 124 filmes feitos entre 1900 e 1920. O catálogo de A Utopia do Real dedica a este último bloco de filmes 80 páginas com textos de João Bénard da Costa, Manuel Hermínio Monteiro, José Manuel Costa, João César Monteiro, António Reis e João César Monteiro, Jean-Luc Godard, Jean-Daniel Pollet, Philipe Solers (autor do texto de Méditerrannée), Gerard Leblanc, Dominique Païni, André Bazin, Saguenail e José Navarro de Andrade, o que permite atribuir-lhe um lugar charneira no contexto do ciclo.

Em contrapartida, ao Free Cinema, apesar de se tratar de um movimento essencial para o entendimento do documentário contemporâneo, nomeadamente devido à crítica das posições reformistas de John Grierson, ao radicalismo formal e político e à liberdade de observação concedida às câmaras de filmar de 16mm, são dedicadas apenas três páginas, duas das quais apenas com ilustrações e uma com um texto não assinado. Do Free Cinema foram mostrados, na primeira sessão do dia 19 de Setembro, O Dreamland (1953) de Lindsay Anderson, Nice Time (1958) de Alain Tanner e Claude Goretta e We are the Lambeth boys (1958) de Karel Reisz. A estes filmes juntou-se On the Bowery (1957) de Lionel Rogosin sobre essa rua de Nova Iorque onde costumava reunir-se a escória humana da cidade.

Nice Time (1958) de Alain Tanner e Claude Goretta

Os filmes seguintes, dando continuidade ao bloco anterior, apontavam para o cinema independente americano do final da década de 50 e princípios da década de 60: Pull my Daisy (1959) de Robert Frank e Alfred Leslie e The Connection (1961) de Shirley Clarke.

O primeiro estreou juntamente com Shadows (1959) de John Cassavetes e é uma espécie de home video passado num apartamento da Bowery onde o senhorio, um funcionário dos caminhos de ferro, é surpreendido pela visita de um bispo, sentindo-se embaraçado com a presença dos seus amigos boémios. Estes são figuras tutelares de beat generation como Allen Gingsberg, Gregory Corso, Peter Orlovsky. Delphine Seyrig aparece aqui no seu primeiro papel. O filme tem narração de Jack Kerouac. Durante anos, à semelhança, aliás, do que aconteceu com Shadows (1959), instalou-se a ideia do filme ter sido totalmente improvisado. Da narração de Kerouack, dando voz a todas as personagens, correu a versão de ter sido absolutamente espontânea. Contudo, em Novembro de 1968, num artigo da Village Voice, Alfred Leslie revelou tudo ter sido pensado e encenado ao pormenor, “tal como um filme de Hitchcock”.

The Connection, por sua vez, recria cinematicamente uma peça de Jack Gelber para o Living Theatre. O nome de Shirley Clarke, uma bailarina que trabalhou com Martha Graham e Doris Humphrey, está associado ao cinema de vanguarda americano e a nomes como os de Stan Brakhage e Maya Deren. No início dos anos 60 fundou com Jonas Mekas a Filmmakers Cooperative e, mais tarde, dedicou-se à coreografia das imagens e ao vídeo experimental dando corpo ao T.P. Videospace Groupe. O seu filme mostra um grupo de junkies que aguarda a chegada do elemento de ligação da droga, mas enquanto isso acontece vão sendo desmontados os mecanismos de um outro filme que supostamente está a ser feito a propósito dessa espera e cujo realizador, na sua tentativa de encontrar “the man behind the man” acaba, ele próprio, por drogar-se. Para a última sessão, integrando-se coerentemente na atmosfera cinéfila do dia, estava reservado Belarmino (1964) de Fernando Lopes.

O dia 20 de Março começou por acolher outro admirador de Robert Flaherty, o italiano Vittorio de Seta – Martin Scorcese disse ver na sua obra a essência do cinema –, com dois filmes trazendo de volta os camponeses e o mundo rural: Pastor di Orgoloso (1958), sobre o quotidiano dos pastores da Sicília e o poderoso Banditi a Orgoloso (1961), a história de um pastor injustamente acusado de roubo e perseguido, juntamente com um irmão mais novo, na paisagem agreste das montanhas da Sardenha, como se esse fosse o seu destimo inelutável. Seguiram-se Les Hommes de la Baleine (1956) de Mario Ruspoli, um filme sobre a caça à baleia nos Açores que teve a colaboração de Chris Marker e o incontornável Pour La Suite du Monde (1963) de Pierre Perrault e Michel Brault. A última sessão programou três filmes portugueses: O Senhor (1965) de António Campos, A Invenção do Amor (1965) igualmente de António Campos e uma obra fulcral do novo cinema português Mudar de Vida (1966) de Paulo Rocha.

A 21 de Março surgiu finalmente o confronto direct cinema - cinema vérité (o catálogo não faz qualquer referência a essa controvérsia) com algumas, poucas, das suas obras mais representativas. A primeira sessão, que contou com a presença de Albert Maysles: Primary (1960) dos Drew Associates, seguindo-se dois filmes de propósito social de Santiago Alvarez, Now (1956) e LBJ (1967) e, finalmente, Salesman (1969) dos irmãos Maysles e Charlotte Zwerin. A meio da tarde, três filmes franceses: Du Côté de la Côte (1958) de Agnes Varda, Blue Jeans (1958) de Jacques Rozier e o filme pioneiro do cinema-vérité de Jean Rouch e Edgar Morin Chronique d’un Été (1960). À noite Mário Ruspoli regressava com Regards sur la Folie (1962) em complemento do controverso Titicut Follies (1967) de Frederick Wiseman.

O último dia de A Utopia do Real: Les Statues meurent aussi (1953) de Alain Resnais e Chris Marker, Moi, un Noir (1957) de Jean Rouch e Paris vu par…episódio Montparnasse-Levallois (1965) de Jean-Luc Godard ; Vilarinho das Furnas (1970) de António Reis e Nós (1967) de Artavazd Pelechian; Les Maîtres Fous (1954) de Jean Rouch e O Acto da Primavera (1962) de Manoel de Oliveira.

No total, o terceiro episódio de O Olhar de Ulisses, excluindo as Imagens da Ciência, ciclo onde, aliás, apareceram alguns documentários feitos para a televisão [7], mostrou 53 filmes, assim distribuídos em função da origem: França – 21 (39,62%), Portugal – 9 (16,98%), Estados Unidos da América – 9 (16,98%), Reino Unido – 3 (5,66%), Itália – 3 (5,66%), URSS (incluindo a Arménia) – 2 (3,77%), Cuba – 2 (3,77%), Canadá – 1 (1,88%), Irão – 1 (1,88%), Índia – 1 (188%), Egipto – 1 (1,88%).

A percentagem do cinema francês confirma os propósitos do texto introdutório e num episódio cronológicamente marcado não apenas pela nouvelle vague, mas também pelo novo cinema português, constata-se a presença de 56% de filmes de ambos os países. Em contrapartida, apesar de presentes, pouca relevância é dada ao cinema directo americano e ao documentário do Quebeque, o que, aliás, se reflecte nos textos do catálogo, e passa-se ao lado da produção documental americana mais politizada – a ausência de Emile de Antonio será, porventura, a mais notória. Do mesmo modo, não há referência às experiências cinematográficas encetadas em função da televisão das quais, uma das mais interessantes foi, certamente, Candid Eye, no Canadá.

Voltando a Nichols, a maioria dos filmes é suficientemente singular para escapar a qualquer tentativa de catalogação.

Procedendo de forma idêntica à dos episódios anteriores, excluímos: La Terra Trema, O Desprezo, Onde Fica a Casa do Meu Amigo, A Floresta Interdita, O Rio Sagrado, A Balada da Estrada, Al Mummia e Mudar de Vida. Contudo, neste conjunto há filmes de cunho marcadamente documental, nomeadamente os de Visconti, Kiarostami e Paulo Rocha. De resto, parece ser evidente neste episódio de O Olhar de Ulisses, a par do problema dos actores, uma tendência para debater, no plano das narrativas, a dicotomia ficção/documentário.

Os restantes filmes foram alinhados do seguinte modo em função de uma interpretação que apenas procurou identificar tendências dominantes: modo poético: Farrebique, Les Inconnus de la Terre, Louisiana Story, Les Hommes de la Baleine, Pour la Suíte du Monde, Pastor di Orgoloso, Banditi a Orgoloso, Vilarinho das Furnas e O Acto da Primavera; modo expositivo: Le Sang des Bêtes, Hotel des Invalides, Now e LBJ; modo de observação: Les Inconnus de la Terre, Nice Time, O Dreamland, Pour la Suite du Monde, Primary, Salesman, Regard Sur La Folie e Titicut Folies ; modo participativo: L’Ordre, Pull my Daisy, The Conncetion e Chronique d’un Été ; modo reflexivo: Cinema, A Caça, Índia, Jaime, Le Horla, Méditerrannée, Du Coté de la Côte, Blue Jeans, O Senhor, A Invenção do Amor, Les Statues meurent aussi, Moi, un Noir, Paris vu par… e Les Maîtres Fous : modo performativo: Le Sang des Bêtes, Hotel des Invalides, Nice Time, O Dreamland, We are the Lambeth Boys, Os Habitantes, L’Ordre, Le Mystère Picasso, Un Monde Agité, On The Bowery, Belarmino e Pull My Daisy.

De novo, a maioria dos filmes cabe em mais de uma categoria e, em rigor, a maioria deles tem um pouco de todas elas. Por exemplo, mesmo considerando Le Sang des Bêtes um documentário expositivo, como faz Nichols, é evidente que o filme de Franju suscita inúmeras questões e tem ressonância muito para além da mera exposição. Invocando Plantinga há um predomínio claro da voz aberta no conjunto dos filmes. As tendências dominantes consolidam, aliás, a impressão recolhida dos módulos anteriores: a aposta num tipo de documentário essencialmente inscrito no âmbito do cinema de arte e ensaio. 

Por essa razão, se neste módulo se impõe uma perspectiva essencialmente informada pela crítica hiperbólica dos Cahiers du Cinema dos anos 50/ 60 – excepção feita à sua vertente maoísta – e pela política do gosto a ela associada, o seguinte teria de ser construído à maneira de uma trincheira, a partir da qual, esgrimindo argumentos conhecidos e recorrentes, se defende um ponto de vista tido como indiscutível.


[1] . Catálogo O Olhar de Ulisses III – A Utopia do Real, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2001, p. 11. 
[2] . ibid
[3] . ibid.
[4] . Na verdade, a Odisseia nas Imagens, enquanto programação oficial da Capital Europeia da Cultura no ano de 2001, principiou em Fevereiro com o Fantasporto. Contudo, foi só a 14 de Março que começou a sua programação própria a que aqui se faz referência. - Nota do Autor.
[5] . Anexo I – pp. 119-121.
[6] . Catálogo O Olhar de Ulisses III – A Utopia do Real, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2001, p. 191. 
[7] .  O Festival da Torre Eiffel Image & Science, à frente do qual esteve muito tempo Jean-Michel Arnold, procura, nomeadamente, sensibilizar os operadores de televisão para as questões relacionadas com a Ciência. Daí a presença regular do documentário de televisão. Neste ciclo das Imagens da Ciência foram exibidos alguns: O Coração entregou a Alma ao Criador (1994) de Jean François Dars e Anne Papillaut, SOS Pulgas (1997) de Thierry Berrod, O Enigma das Nascas (1999) de Thierry Ragobert, Mida’s Formula (2000) de Malcom Clark e No ano passado choveu na segunda-feira (2000) de Lasse Berg e Anderd Ribbsjö. - Nota do Autor


5.5.4 Odisseia nas Imagens IVComo Salvar o Capitalismo/ Outras paisagens - Resistência

O último episódio de O Olhar de Ulisses - Resistência – foi aquele em que de uma forma mais incisiva se fez uma abordagem do cinema problematizando o próprio cinema em função de postulados coerentes com a linha programática assumida. Construído como corolário do episódio anterior, a propósito deste módulo afirmavam os programadores:

“O motor daquilo que nos moveu ao longo destes dois anos pode ser perfeitamente ilustrado por esta citação de Ezra Pound que abria o primeiro número da revista Trafic, fundada por Serge Daney, e que agora retomamos: Aquilo que amas permanece/ O resto é inútil/ Aquilo que amas não te será retirado/ Aquilo que amas é a tua verdadeira herança/ a quem pertence o mundo, a mim, a eles,/ ou não é de ninguém?/ Primeiro foi o visível, depois o palpável,/ Eliseu, aconteça o que acontecer no átrio do inferno,/ Aquilo que amas é a tua verdadeira herança/ Aquilo que amas não te será retirado [1]”.

Sobre os filmes respeitantes ao último episódio afirma-se que “os cruzamentos e montagens que propomos, irão permitir, esperamos, continuar a descoberta dessa ‘verdadeira herança’ que ficará para sempre. Johnny Guitar fazendo eco com JLG/JLG, Route One USA com Young Mister Lincoln, Stalker com La Jetée... e de La Jetée às interrogações sobre o estatuto da imagem de Mort à Vignole e Sans Soleil [2]”.

Route One USA (1989) de Robert Kramer

A estas palavras do seu texto intodutório os programadores acrescentam ter sido este o módulo “que mais nos custou fazer” devido “à ausência dos filmes de que gostamos e não podemos apresentar”, embora “nomear alguns, que chegaram a fazer parte desta programação e que por razões diversas e misteriosas não vão aparecer nesta versão final (...), talvez possa aliviar esse peso [3]”.

São, em seguida, apontados os títulos de filmes e de autores que ficaram de fora, bem como algumas hipóteses de combinações programáticas, reiterando-se o respeito pelo espectador em nome do qual o ciclo foi organizado – cita-se, apropósito uma passagem de uma das conversas de Antoine de Baecque e Jacques Parsi com Manoel de Oliveira: “O espectador é indispensável à obra de arte” – e termina-se, agradecendo a todos os colaboradores, invocando Godard a propósito das pessoas que fazem parte, “não dos que habitam o cinema, mas dos que são habitados por ele”.

Resistência decorreu de 26 de Outubro a 2 de Novembro de 2001 – desta vez num contexto que antecipava já o figurino global pretendido para a Odisseia nas Imagens, convivendo, portanto, com uma grande diversidade de iniciativas de âmbito cinematográfico, audiovisual e multimédia – e exibiu 45 filmes, assim distribuídos segundo a sua origem: França 18 (40%), URSS (incluindo Arménia e Cazaquistão) 6 (13,33%), Estados Unidos 4 (8,88%), Itália 3 (6,66%), Portugal 2 (4,44%), Holanda 2 (4,44%), Japão 2 (4,44%), Suíça 1 (2,22%), Brasil 1 (2,22%), Irão 1 (2,22%), Dinamarca 1 (2,22%), Bélgica 1 (2,22%), Portugal/França 1 (2,22%), Portugal/ Itália 1 (2,22%), Bélgica/França 1 (2,22%).

No catálogo de 398 páginas há 67 textos, dos quais 36 (53,73%) da responsabilidade de autores francófonos – Serge Daney assina sete – e 28 de autores portugeses (41,79%). No conjunto dos textos há 38 reedições, na sua maioria das folhas da Cinemateca Portuguesa e dos Cahiers do Cinema, mas também de outras publicações, nomeadamente da Cinemateca Francesa, Vertigo, Positif, Trafic, Libération e Expresso. A palavra resistência e o verbo resistir são de utilização recorrente na maioria dos textos originais. Por exemplo, no título do artigo de Pedro Eiras sobre Dodes’ Kaden aparece o verbo resistir, Saguenail fala de resistência ao cinema mainstream a propósito de O Dia da Estreia de Close-Up e António A. Rodrigues, referindo-se a Barres, considera tratar-se de um filme que transforma um gesto banal e quotidiano – a tentativa daqueles que procuram não pagar bilhete no metro de Paris – numa história de resistência. Os exemplos poderiam multiplicar-se, parecendo inserir-se num contexto reactivo ao mundo mediático mostrado em Guy Debord Son Art, Son Temps.    

No dia 26 de Outubro Resistência abriu com um conjunto de filmes nos quais as cidades ocupam um lugar preponderante e são vistas através do modo como delas se apropriaram os seus realizadores. O modo, em si mesmo, revela os dilemas e as soluções dos cineastas. Por exemplo, o filme de abertura, Roma (1972) de Federico Fellini, confronta o presente com a memória do passado. Sendo de traço autobiográfico, recorre à encenação ficcionada para evocar a infância e a juventude, mas aparenta ser de carácter documental quando vemos Fellini a filmar a sua cidade – literalmente a sua cidade, tal como ele a vê e não a Roma que quem quer que seja possa ter na cabeça. Na sessão seguinte, três filmes, duas curtas metragens e uma longa metragem: Marseille Vieux Port (1929) de László Moholy-Nagi, uma aventura experimental de 9 minutos, filmada com uma câmara amadora, na linha das sinfonias das cidades, Lettre à Freddy Buache (1981) de Jean-Luc Godard, com 12 minutos, uma declaração sobre a urgência do olhar cinematográfico mais do que uma declaração de intenções para filmar Lausanne como, oblíquamente, Godard sugere e Lola (1961) o primeiro filme de Jacques Démy sendo Nantes, obviamente, a sua cidade. Na última sessão, passou, primeiro, A Ilha das Flores (1989) de Jorge Furtado, um curto documentário lançando metaforicamente um olhar irónico e, por vezes sarcástico, sobre a sociedade capitalista e, depois, a obra-prima de Akira Kurosawa Dodes’ Kaden (1970).  

No dia seguinte, a primeira sessão juntou a curta metragem de Nanni Moretti O Dia da Estreia de Close Up (1996), na qual se denuncia o imperialismo cultural comparando os números de espectadores dos blockbusters americanos nos cinemas de Roma com os do filme do cineasta iraniano, e Close Up (1990) de Abbas Kiorastami, mais uma incursão – e das mais originais – no mundo dos mecanismos do cinema, desta vez num registo predominantemente documental ou paradocumental. Preocupações semelhantes são detectáveis no primeiro filme da segunda sessão, Quem Espera por Sapatos de Defunto, Morre Descalço (1971) de João César Monteiro, cujo enredo serve de pretexto para reflectir sobre os movimentos interiores da linguagem fílmica, e de algum modo, também, no filme seguinte, À Beira Do Mar Azul (1936) de Boris Barnet, cineasta soviético de soluções narrativas imprevisíveis e de acentuado pendor poético. 

No dia 28, a primeira sessão da tarde foi preenchida por Jeunes Lumières (1995) de Nathalie Bourgeois e Pickpocket (1959) de Robert Bresson. O primeiro, à semelhança de outros filmes produzidos no âmbito do centenário do cinema, é uma proposta de reflexão sobre o acto fundador do olhar contido nas imagems em movimento. Essa mesma impressão é comum ao filme de Bresson, obra aberta cujo jogo se situa simultaneamente no plano do real e das aparências, afinal corente com o pensamento de um cineasta que afirmava que “o cinematógrafo é a arte de não mostrar nada”. Concentrando igualmente a energia em narrativas tão rigorosas quanto despojadas e intensas são Gertrud (1964) de Carl Dreyr, programado para a segunda sessão, e os dois filmes da última sessão, Où Git Votre Sourire Enfoui (2001) de Pedro Costa, cujos protagonistas Jean-Marie Straub e Danièle Huillet são os autores do último filme do dia Sicília! (1999).

No dia 29, foram programados três filmes para a sessão o início da tarde: Torre Bela (1978) de Thomas Harlan, uma das obras mais representativos da Revolução de Abril que tratando da ocupação de uma herdade rural é muito mais do que isso porque expõe de forma comovente a busca caótica e ingénua de uma nova forma de organizar a vida social, L’Ambassade (1973) de Chris Marker, invocação do golpe militar de Pinochet mostrando um grupo de pessoas supostamente refugiadas numa embaixada onde ao fim de algum tempo começam a reproduzir as divergências políticas da esquerda durante o governo da Frente Popular de Allende – na verdade, o filme foi rodado num apartamento em Paris –, e Guy Debord Son Art, Son Temps (1994) de Guy Debord e Brigitte Cornand, filme testamento do autor de A Sociedade do Espectáculo dividido em duas partes: Son Art, uma breve evocação das suas experiências cinematográficas e Son Temps, um violento libelo, alíás, logo anunciado num cartão introdutório, contra a televisão, a qual deixou de proporcionar uma imagem do mundo para se metamorfosear no mundo ele próprio, feito de irrisão, simulacros e vacuidade. Na sessão intermédia foram apresentados dois filmes de Luc Moullet, ambos lidando com aspectos do quotidiano e programados como contraponto aos procedimentos televisisvos: Barres (1984) não tem diálogos, serve-se do som diegético e utiliza intertítulos para dar uma versão divertida do conflito entre aqueles que pretendendem viajar sem bilhete e os fiscais do metro de Paris, e Génèse d’un Repas (1979) que recuperando alguns traços do cinema militante associado ao Maio de 68, procede, através de um dispositivo aparentemente semelhante ao da reportagem televisiva, mas na verdade muito diferente, à explicitação da rede de relações desiguais contida no itinerário do ovo, do atum e da banana até chegarem à mesa da refeição do próprio cineasta. A sessão da noite reuniu três ensaios cinematográficos: Cézanne-Conversation avec Joachin Gasquet (1989) de Straub/ Huillet tem mais a ver com o universo conceptual e estético da dupla de cineastas – que dão voz aos diálogos e recorrem a excertos de Madame Bovary de Jean Renoir e a um segmento do seu próprio Der Tod des Empedokles – do que com a pintura de Césanne, cujos quadros são mostrados através de longas exposições e evitando a fragmentação dos elementos icónicos; Basse (1964) de Jean-Daniel Pollet complementa, de algum modo, Méditerranée e como sempre na obra deste cineasta procura mostrar as coisas como elas nunca foram vistas; o mesmo sucede com Dieu sait Quoi (1993), igualmente de Jean-Daniel Pollet, uma homenagem ao homem que 30 anos antes se maravilhara com Méditerranée, o poeta Francis Ponge: se este se preocupava com a usura das palavras e a sua perda de sentido, Pollet preocupava-se com a usura das imagens do quotidiano que torna o mundo opaco.   

O dia seguinte principiou com D’Est (1993) de Chantal Akerman uma obra sobre as transformações nos países de Leste após o desmoronamento do comunismo na qual Jean-Marie Straub viu a influência do seu método. O filme, em relação ao qual se chegou a afirmar que funcionaria melhor como instalação numa galeria de arte – na verdade a experiência chegou a ser feita – do que numa sala de cinema, tem o mesmo pendor de ensaio dos filmes anteriores. Seguiram-se A Queda da Dinastia Romanov (1024) de Esfir Schub, O Nosso Século (1980) de Artavazd Pelechian, um trabalho de montagem de material de arquivo tal como o filme anterior, neste caso sobre o percurso da revolução soviética deixando no ar dúvidas quanto ao futuro e O Dia do Pão (1998) de Serguei Dvortsevoy, cineasta em cujo trabalho convergem a observação e a contemplação, sobre o dia da semana em que os habitantes de uma vila quase despovoada não muito distante de São Petersburgo recebem a visita do padeiro. Na sessão da noite duas obras fundamentais do cinema moderno: La Jetée (1962) de Chris Marker e Stalker (1972) de Andrei Tarkowsky.

Três filmes preencheram o sexto dia de Resistência: Route One USA (1989) de Robert Kramer, cujas mais de quatro horas de duração obrigaram a dividir o filme por duas sessões, Young Mr. Lincoln (1939) de John Ford e História do Japão Contada por uma Dona de Bar (1970) de Shoei Imamura que passou numa sessão extra perto da meia noite. Em qualquer dos casos, à semelhança do que sucedera no dia anterior, trata-se de filmes que reflectem sobre o nosso mundo, fazendo-o, porém de ângulos muito variados. Young Mr. Lincoln serve de contraponto a Route USA, mas em ambos coabitam ou subjazem elementos de uma América mitológica. No filme de Imamura, cineasta de um mundo marginal, contraditório e brutal, há o lado mais sombrio e desconhecido dos mitos do Japão do pós-guerra traduzido num estilo documental próximo do cinema-vérité, a preto e branco, sem concessões nem contemplações.  

Com a aproximação do final do ciclo, pensando nos princípios de montagem aplicados ao alinhamento dos filmes e nos critérios aos quais obedeceram os múltiplos cruzamentos ao longo dos seus quatro episódios há como que uma estrutura narrativa circular que se fecha. O penúltimo dia regressou a Johan Van der Keuken – os seus filmes sobre as crianças cegas tinham sido programados no início de O Olhar de Ulisses – desta vez com O Olho por Cima do Poço (1988), rodado na Índia e com um dos seus filmes mais pessoais As Férias do Cineasta (1974). Este liga na perfeição com o primeiro filme da sessão seguinte Mort à Vignole (1999) de Olivier Smolders, uma obra igualmente  muito pessoal de alguém que gostaria de ter perpetuado na imagem, não tendo podido fazê-lo, a memória de um filho que nascera morto. Motivo para evocar o estatuto da imagem no filme seguinte Sans Soleil (1982) de Chris Marker e lançar, na última sessão do dia, uma espécie de revisão crítica da História do Cinema através, naturalmente, de um segmento de Histoire(s) du Cinema (199) de Jean-Godard, ao qual se seguiu o clássico A Sombra do Caçador (1955) de Charles Laugton, film noir em ruptura com as convenções do género.

Em 2 de Outubro, ponto final de O Olhar de Ulisses, a primeira sessão principiou com um acto alegórico consubstanciado na apresentação do díptico de Artavazd Pelechian Fim (1992) e Vida (1993). Acto alegórico não apenas em função do que ambos os filmes são em si mesmos, mas, sobretudo pelo que poderiam representar no contexto de uma programação feita trincheira contra todos os males da imagem contaminada pelo audiovisual. Depois do sombrio percurso de clasura de Fim, em Vida o pulsar do coração de uma mãe em trabalho de parto e o nascimento do filho demonstra que, afinal, há esperança para o entendimento do cinema tal como O Olhar de Ulisses o entendeu apresentar. Por tal razão, as duas obras seguintes obedecem a critérios de rigorosa exegese. Primeiro, em complemento dos filmes de Pelechian, Ana (1985) de António Reis e Margarida Cordeiro; depois, a recuperação de Straub/ Huillet com En Rachachant (1982) como complemento de Trafic (1971) de Jacques Tati; finalmente (e simbolicamente: fazendo prevalecer uma certa ordem do cinema) As Luzes da Cidade (1952) de Charlie Chaplin.

Se no módulo anterior já era praticamente impossível proceder a um enquadramento dos filmes em função de critérios cujo único objectivo era, no plano da teoria do documentário, procurar identificar tendências tendo em vista perceber melhor o critério da programação, no caso deste módulo a tentativa é simplesmente desnecessária. A presença do documentário parece ser aqui meramente susbsidiária de uma outra ordem mais vasta de uma espécie de cinema sacralizado a partir do altar de uma trincheira de resistência por forma a impor um manifesto do gosto. A maioria dos filmes apresentados é, evidentemente, excepcional, mas esse não é certamente o problema. Francisco Ferreira escreveu no Expresso: “A redescoberta de filmes programados a partir de uma memória (a de Daney) revelou sempre relações infinitamente mais vastas, por vezes inesperadas, do que as que tínhamos tido no passado [4]”. Concluía assim:

“Ao mesmo tempo, nesta retrospectiva, houve a intenção de dar a ver filmes quase ‘invisíveis’ sem instrumentalizá-los a um discurso pré-definido, sem obrigá-los a uma classificação por géneros, como a eterna discusão em volta do problema ficção-documentário que aqui não se coloca. Mais importante é a memória que ficará desta aventura: os debates entre os convidados e a plateia do Rivoli, o valor dos textos de 4 livros publicados. Em suma, um trabalho exemplar que merece da crítica de cinema o maior respeito: a intuição contra a ‘ideia-museu’ [5]”.

Sendo meritória a ideia de mostrar filmes ‘invisíveis’, o problema é que estas palavras podem ser lidas exactamente ao contrário. Independentemente da controvérsia que só por si encerra a sugestão do documentário ser um “género” – uma ideia problemática visto que a imensa variedade de formas e vozes do documentário contemporêneo exclui qualquer possibilidade de tipificação – ou do juízo que possa fazer-se sobre os debates do Rivoli – na verdade, apesar da intenção declarada, raramente houve confronto de opiniões – o percurso do ciclo e a evolução que se foi acentuando parecem evidenciar, sobretudo na sua fase final e apesar da paternidade atribuída a Serge Daney, algo que não poderá não andar longe de uma ‘ideia-museu’.

Como tal poder-se-ia perguntar se, afinal, o ciclo foi não terá sido instrumentalizado em função de conceitos como Resistência e outros – por vezes, com mais de meio século, como sejam os que dizem respeito às ideias defendidas pelos Cahiers sobre os autores nos anos 50. Suscitada esta dúvida, uma outra se perfila, ou seja, se as opções tomadas não foram, isso sim, ao encontro de um pronto a vestir talhado pelas mitologias dos cinefils e, portanto, deixando de fora, pelo seu carácter supostamente impuro, experiências importantes do documentário contemporâneo, nomeadamente o documentário americano de propósito social. A percentagem de 40% de filmes franceses nos dois últimos módulos dá indicações da presença dessas mitologias na sua forma mais radical e, por isso mesmo, mais ingénua. O mesmo poderia aplicar-se a alguns dos textos publicados nos dois últimos catálogos. Nesta perspectiva, O Olhar de Ulisses, recusando o confronto com uma parte significativa da produção contemporânea, parece não ter entendido – como se afirma no Capítulo I, página 147 – que a criação de novos públicos requer a dessacralização de uma produção simbólica cujo estatuto, embora legitimado por mediações especializadas, resulta de um processo objectivo de fetichização que concorre para o aparecimento de círculos fechados sobre si próprios, portanto sem potencial de democratização.

No conjunto dos seus quatro episódios O Olhar de Ulisses apresenta, apesar de tudo, um maior equilíbrio. Exibiu 194 filmes assim distribuídos segundo a origem: França – 59 (30,41%), Estados Unidos da América – 36 (18,55%), Reino Unido – 18 (9,27%), Portugal – 16 (8,24%), URSS (incluindo a Arménia e Cazaquistão) – 14 (7,21%), Holanda – 9 (4,63%), Itália – 7 (3,60%), Bélgica – 3 (1,54%), Alemanha – 3 (1,54%), Canadá – 3 (1,54%), Cuba – 3 (1,54%), Bélgica – 2 (1,03%), Egipto – 2 (1,03%), Índia – 2 (1,03%), Irão – 2 (1,03%), Japão 2 (1,03%), China – 1 (0,51%), Espanha – 1 (0,51%), Dinamarca 1 (0,51%), Suíça 1 (0,51%) e Brasil 1 (0,51%). Há ainda a considerar um conjunto de co-produções todas elas, com excepção de duas, tendo a França como parceiro: Egipto/ França – 2 (1,03%), Grécia/ França/ Itália – 1 (0,51%), França/ Espanha – 1 (0,51%), Portugal/França 1 (0,51%), Bélgica/ França 1 (0,51%), Portugal/ Itália 1 (0,51%) e Japão/ Estados Unidos – 1 (0,51%).

No seu relatório final o programador responsável evita os aspectos eventualmente mais críticos e releva o papel de O Olhar de Ulisses como elemento fulcral da Programação ao mostrar “muitos dos melhores filmes alguma vez feitos [6]”, alguns dos quais praticamente desconhecidos do público em geral e dos estudantes da área do cinema e audiovisual em particular e por tê-lo feito numa tentativa de diálogo com o público.  Considera igualmente ter-se tratado de uma estimulante aventura a propósito do olhar e de aí residir o seu principal mérito, destacando, igualmente, a colaboração da Cinemateca Portuguesa e, em particular, do seu mais alto responsável João Bénard da Costa.

Quanto à imprensa sempre se mostrou atenta, mesmo se, nalguns casos, desconhecedora das questões conceptuais em torno da programação. O Olhar de Ulisses foi escolhido pelo jornal Público, a par do ciclo Violência e Paixão: O Cinema de Luchino Visconti, para figurar entre as 10 iniciativas culturais que mais se destacaram no Porto 2001.


[1] . Catálogo O Olhar de Ulisses III – Resistência, Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura/ Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2001, p. 6. 
[2] Op. citada – p. 7.
[3] . ibid.
[4] . Anexo I – p. 309.
[5] . ibid.
[6] . Relatório de Avaliação Final do Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia da Sociedade Porto 2001, sem páginas numeradas.




5.5.5 Outros documentários - Apocalípticos e Integrados

Como se depreende do texto introdutório de Apocalípticos e Integrados onde se alude à necessidade de “inflectir o debate” deslocando-o “para um espaço mais interpelativo e menos integrado” a Odisseia nas Imagens, cumprida a primeira fase da programação, principiou a dar corpo a outras iniciativas igualmente ou centradas no documentário ou incluindo documentários, por vezes arriscando incursões noutros domínios, como, por exemplo, a fotografia documental – caso da exposição da Magnum a propósito da rodagem de Misfits.

A retrospectiva integral de Errol Morris obedeceu ao princípio da diversidade sempre presente no plano da historicidade e decorreu nos dias 23, 24 e 31 de Março de 2001, no Auditório da Fundação de Serralves [1]. No texto de introdução do catálogo Mr. Death: A América de Errol Morris alerta-se para a dificuldade de classificar os filmes de um autor a quem habitualmente se coloca a indesejável, para o próprio, etiqueta de documentarista. Na verdade, nas suas longas metragens, bem como nos seriados e filmes para a televisão, são reiteradamente utilizados processos narrativos filiados na ficção. Nesse sentido, poder-se-ia pensar esta retrospectiva como um complemento do terceiro acto de O Olhar de Ulisses, tanto mais que Morris manifesta preferência por cineastas como Robert Bresson e Frederick Wiseman. Contudo, não é de todo assim. Basta ponderar o seu método de trabalho e os temas de que se ocupa para essa ideia se dissipar. 

As suas longas metragens exibidas – na altura, praticamente, desconhecidas em Portugal – foram: Gates of Heaven (1978), um retrato excêntrico do sonho americano a partir da história de dois cemitérios de animais na Califórnia com sorte diversa; Vernon, Florida (1882), um fresco agridoce sobre um determinado tipo de comunidade branca americana, cujos protagonistas são, ente outros, um criador de minhocas, um padre que filosofa em sermões de 10 minutos sobre a palavra therefore (portanto) e um obsessivo caçador de perus; The Thin Blue Line (1988), filme da desconstrução de um crime que iria permitir inocentar um condenado à morte; Fast, Cheap and Out of Control (1997), uma história em quatro partes sobre o mito de Sísifo, cujas personagens discorrem apaixonadamente sobre as suas estranhas profissões, ou seja, domar animais selvagens, controlar o crescimento das plantas, classificar uma espécie animal em permanente mutação e construir robots que imitam os movimentos dos animais; e Mr. Death: The Rise and Fall of Fred A. Leuchter, Jr. (1999), a história de um pretenso especialista nas tecnologias aplicadas às execuções de pena de morte, nomeadamente a cadeira eléctrica, que é levado por grupos nazis a investigar e negar o Holocausto.

Em complemento, alternando com as longas metragens, foram exibidos todos os episódios de First Person Series (2000), um seriado documental para televisão cujos protagonistas, sendo reais, surgem como figuras radicalmente improváveis. Todas as sessões contaram com painéis de especialistas em diversas áreas a quem coube problematizar e debater quer o modo de fazer de Errol Morris, quer os temas e as personagens dos seus filmes. No catálogo de 109 páginas, 28 das quais inteiramente preenchidas com fotografias, há três textos originais e outros tantos recuperados de outras publicações. Na contracapa surgem duas citações, uma das quais de Marshall McLuhan: “All media are extensions of some human faculty – psychic or physical”. Num dos textos originais, João Lopes escreveu:

“Se quisermos ser irónicos, diremos que Morris tem o poder, também ele insólito, de abordar personagens e situações que, a serem produto da imaginação de um qualquer argumentista de Hollywood, seriam muito provavelmente menosprezadas como delírios gratuitos e inverosímeis. Por exemplo, (num) filme da mesma série, The Parrot, a personagem central é Max, nada mais nada menos que um papagaio que terá assistido a um crime violento (...): The Parrot termina com a claríssima sugestão de que algo ficou por esclarecer, algo de que o papagaio conservaria, se não o segredo policial, pelo menos um significativo indício de culpabilidade [2]”.

Sublinhando que se algo é “dito-exposto-filmado no cinema de Morris é a sua resistência a qualquer inocência primordial do olhar – olhar é, por definição seleccionar e reconstruir o real  [3]”, João Lopes interroga-se:

“O que é o olhar no interior do universo de Errol Morris? Jogando com a ambiguidade vital dos infinitos, poderemos dizer que, com o cinema de Morris, ‘olhar’ e ‘ver’ são, de facto, coisas fundamentalmente diversas. Ou melhor: o excercício de ver pode ser algo de tão radical – e, se não tivermos medo da palavra, tão revolucionário – que se pode chegar ao ponto de ver sem, sequer, exercer um olhar [4]”.

Morris e o seu Megatron – evolução, como vimos no capítulo anterior, do Interrotron – abriram, portanto, novas perspectivas para o documentário, mais tarde cabalmente demonstradas em The Fog of War (2003), a partir dos dispositivos tecnológicos da televisão. No ciclo esteve, aliás, presente, como convidada, a RTP, numa tentativa de estabelecer um diálogo com vista a uma colaboração que permitisse fazer chegar ao pequeno écrã toda a diversidade das vozes do documentário. Daí resultaria a extensão em antena da Odisseia nas Imagens no canal 2 do serviço público no ano de 2002, tendo ficado em aberto a possibilidade de novos ciclos, nomeadamente do documentarismo português, que nunca viria a concretizar-se.


[1] . Ver a programação completa do ciclo no Anexo I – pp. 127-132.
[2] . Mr. Death, A América de Errol Morris – Odisseia nas Imagens, Departamento de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, 2001, p. 12.
[3] . ibid.
[4] . ibid.